Havia em Roma huma nobre linhagem dos Macrianos, os quaes tinhaõ por devoçaõ, e bençaõ de seus Avòs trazerem sempre a imagem de Alexandre consigo, e os homens a traziaõ de ouro, ou prata, as mulheres sómente d’ ouro na cabeça, ou em manilhas nos braços direitos, e em aneis, e tinhaõ antigamente como escreve Julio Capitolino, que quem consigo trouxesse a Imagem de Alexandre em ouro, ou em prata, que todas suas cousas succederiaõ bem, e hiriaõ àvante. Esta honra mereceraõ os feitos, e fortaleza de Alexandre, o qual naõ sómente teve respeito ao tempo da vida, mas como muy prudente Principe trabalhou por haver Chronistas excellentes, que pudessem (como era razaõ) encomendar à memoria seus grandes aquecimentos. Desta opiniaõ era Themistocles Atheniense, que sendo perguntado qual era a voz, que mais folgara de ouvir, respondeo: que aquella de quem visse suas cousas mais eloquentemente serem tratadas. Foy Alexandre magnanimo nas adversidades, e de tal maneira cõmetteo a guerra, que naõ pareceo, que dezejava a paz: foy magnifico, e desprezador das riquezas sabendo certo, que querer bem ao dinheiro naõ havia mòr sinal de coraçaõ fraco, nem polo contrario cousa mais real, nem mais digna de hum graõ Principe, que desprezalo, quando o naõ tivesse, e quando o tivesse despendelo magnifica, e liberalmente. Em fim teve Alexandre as mais das partes, que deve ter hum Capitaõ forte, e magnanino com que naõ somente foy aceito aos homens, mas ainda obrou Deos por elle cousas de grande admiraçaõ. Se a virtude da fortaleza naõ fora aceita a Deos, naõ edificara ElRey Salamaõ no Templo o Armazem das armas junto à Sede Real, em que eraõ levantados os Reys depois de serem ungidos pelo Principe dos Sacerdotes.

O Principe, que quer ser forte, ha de guardar inteiramente sua fé, e porque isto naõ teve ElRey Philipe de Macedonia, antes usou de enganos, e falsidades, poz muy grande nodoa em muitas partes da fortaleza, que nelle havia: deve tambem ser lido, e folgar de ouvir as historias, e vidas dos grandes homens, olhando como se governaraõ na guerra, examinando as causas da victoria, e perda das batalhas, e seguindo o exemplo de algum notavel Capitaõ. O mesmo Alexandre seguio Achiles, Julio Cesar seguio Alexandre, e assi Scipiaõ Africano seguio tanto a ElRey Cyro, que quem bem ler a historia, que Xenofonte escreve delle, acharà, que todas as virtudes, e liberalidade, e humanidade delRey Cyro foraõ representadas por Scipiaõ de maneira, que bem se poderia dizer, que ou Cyro foy Scipiaõ, ou Scipiaõ foy Cyro. Dizia este Rey, que o Principe no tempo da paz devia ter cuidado das cousas da guerra, e porque isto fez (naõ muitos tempos hà) Francisco Sforcia foy em quanto viveo Duque de Milaõ, e os filhos polo contrario naõ tendo nenhuma lembrança da guerra vieraõ a perder aquelle Estado, que seu Pay lhes leyxara a elles muy pacifico. Por muy desaventurado se deve ter o Principe a que nunca aconteceo dezaventura, na qual alem de se provarem os homens para quanto saõ, a experiencia dos trabalhos os faz mais prudentes, e avizados, e sempre ter passado algum mal aproveitou muito para a conservaçaõ do bem presente. De Policrates poderoso tiranno da Ilha de Samno se lè, que sendo em tudo muy prospero, e bemaventurado, veyo no cabo a ser prezo por Orontes Capitaõ delRey Dario, e a ser enforcado no mais alto outeiro da montanha de Micale sobre o mar: em a fim soube Policrates quanta verdade lhe fallava Amases Rey do Egypto grande seu amigo, porque vendo, que se prezava muito de sua boa fortuna lhe escrevera por algumas vezes, que se guardasse do fim.

Fortes foraõ muitos Capitaens Romaõs, nem se devem as victorias, que ouveraõ d’atribuir mais à sua boa fortuna, que à sua virtude, que posto que a guerra tenha necessidade de tres cousas, boa gente, bons Capitaens, e boa fortuna, com tudo a mòr parte della consiste nas duas primeiras, e por isso bem diz hum Proverbio latino, que a fortuna succede segundo saõ as manhas, e costumes de cada hum. Teve Roma grande Estrella, mas naõ teve menos fortaleza, e com ambas pode alcançar tamanho Imperio, o qual logo em seu principio cresceo tanto, que em tempo do sexto Rey de Roma havia jà nella oitenta mil homens para tomar armas, e foy tanta a bondade, e nome desta Reepublica, que os Reys antigamente trabalhavaõ por serem Senadores della. Naõ desprezou esta Dignidade o Infante D. Henrique Irmaõ delRey D. Afonso de Castella decimo deste nome, naõ a desprezou Carlos Rey de Napoles, e Sicilia, e Conde de Andegavia, e Proença, em cujo tempo no anno de Nosso Senhor do nascimento de mil e duzentos e oitenta e hum foy aquella conjuraçaõ taõ nomeada dos Sicilianos, em que foraõ mortos em hum só dia todos os Francezes, que polo Reyno de Sicilia foraõ achados, e levantando-se logo toda a Ilha se deu a D. Pedro de Aragaõ. Mas tornando ao meu proposito se no tempo, que Roma era jà desfeita, e destruida, com tudo os Reys desejavaõ serem Senadores della, que devemos cuidar, quando prosperava, e mandava o mundo?

O Emperador Octaviano nenhuma cousa depois de Deos estimava tanto, como a memoria dos Capitaens por cuja industria, e fortaleza o Imperio Romaõ de pequeno fora feito taõ grande, e para isto melhor mostrar, renovou as obras, e edificios, que cada hum delles fizera, e mandou levantar a todos estatuas em habito triunfal de redor da sua praça com hum pregaõ, que dizia, que isto fazia Octaviano para que o Povo Romaõ assi a elle, e aos Emperadores, que viessem depois obrigassem a darem de si taõ boa conta, como elles deraõ. Este taõ grande Imperio houve fim, e acabou como naturalmente acaba tudo, e segundo a opiniaõ de alguns o principio de sua destruiçaõ foy quando os Romaõs esquecidos de quem eraõ, se começaraõ a ajudar da gente de fóra, e deraõ soldo aos Godos, naçaõ barbara, e estrangeira, e sem duvida naõ hà remedio menos firme para a conservaçaõ de hum Estado, que a potencia fundada nas forças alheyas, por tanto os Principes, e Reepublicas devem fazer guerra com os seus natu-raes, e aventurar-se antes com elles, que tomar ajuda d’outra parte, e se bem queremos olhar, esta foy a causa, por onde poucos tempos hà Italia foy destruida, porque sendo o Imperio de Roma lançado della, e alevantandose muitas Cidades principaes contra os nobres, que com favor do Emperador as tirannizavaõ, e tendo muita necessidade de ajuda parte dellas, se encomendavaõ ao Papa, e parte de algumas Reespublicas principaes de Italia, mas polo Papa ser Ecclesiastico, e as Reespublicas serem pouco usadas nas armas começaraõ entaõ para defençaõ de seus Estados de darem soldo aos de fóra, e o primeiro, que deu authoridade, a gente, e armas estrangeiras foy Alberico de Romanha, mas porque poucos homens de pè aproveitavaõ pouco, e muitos eraõ màos de manter, ordenaraõ entaõ em lugar destes gente de Cavallo para fazerem corpo com poucos de Cavallo, o que com poucos de pè naõ podiaõ fazer, e fazer-se com muitos era graõ despeza, dahi por diante sendo dado tanto favor à gente de fóra tiveraõ occasiaõ os Estrangeiros de se hirem fazendo Senhores de Italia, atè que finalmente aquella Italia senhora do mundo veyo a ser escrava de muitas naçoens, corrida por ElRey Carlos, roubada por ElRey Luiz, vencida por ElRey D. Fernando vosso Avò, e deshonrada por Soiços.

Se quizermos olhar França, tambem ella nos serà exemplo de quam prejudiciaes aos naturaes saõ as Armadas de fóra. ElRey Carlos de França VII. deste nome Pay delRey Luiz Onzeno depois de livrar seu Reyno com muito trabalho das mãos dos Ingleses conhecendo esta necessidade fez em França ordenança de gente de pè, ou Infantaria, depois ElRey Luiz seu filho tirou a Infantaria, e começou a dar soldo aos Soiços, e este erro continuado foy causa dos perigos, e males daquelle Reyno, porque sendo dada a authoridade aos Soiços, o partido dos Franceses sem gente de pè ficou bayxo, e a sua gente d’armas veyo a ter necessidade da gente estrangeira, donde vem, que os Franceses aos Soiços naõ podem resistir, e sem elles naõ valem muito. Se Capua naõ recebera a gente de Anibal, naõ fora destruida pelos Romaõs, se Grecia naõ chamara a Philipe Rey de Macedonia, naõ viera a ser sogeita dos Macedonios, nem passara os males, que passou. Se o Emperador de Constantinopla Michael Paleologo naõ metera os Turcos de Natolia em Grecia, naõ se perdera aquelle Imperio, como se perdeo. Finalmente se nestes tempos d’agora Joaõ Vayvoda naõ chamàra os Turcos, Ungria senaõ destruira, e elle estivera mais honrado, que està: assi que claro se vè de quantos males, e perdas as armas estrangeiras saõ causa, e sempre foraõ; por isso o Principe que dezeja, que seu povo seja forte, faça a guerra com os seus naturaes, lembrando-se que nenhum Capitaõ conquistou muito, senaõ com a propria gente, e se o Emperador Carlos V. deste nome ouve em nossos tempos tantas vitorias contra ElRey de França, e o prendeo em batalha por seus Capitaens, que a principal causa disto foy, por fazer a guerra com os Espanhoes seus naturaes, e ElRey de França polo contrario com muita parte de Soiços, e Italianos: grande inconveniente he ajudarse o Principe do Exercito, que sómente anda por roubar, porque assi como a gente natural peleja por amor, assi a estrangeira por só interesse, o qual faltando, tudo falta, e a tal gente se leyxa vencer por ser peitada, ou por esperança de mòr proveito, e o peor he que muitas vezes por este caminho os Estados se vem a perder, e a ficarem sugeitos daquelles, que os ajudavaõ.

Diz Aristoteles, que os Athenienses levantaraõ a Codro por seu Rey por lhes conservar a liberdade, e ElRey Cyro mereceo antre os Poetas a mesma honra: outros foraõ feitos Reys, ou por conquistarem Reynos, ou por fundarem Cidades de novo, como foraõ os Reys dos Macedonios, dos Spartanos, e dos Molossos. Tambem os Reynos, que neste tempo por legitima sucessaõ se herdaõ, antigamente foraõ aos grandes merecimentos das pessoas, ou por virtudes, ou boas obras, ou grande fortaleza. O mesmo Aristoteles diz, que o mòr pensamento dos Principes antigos era levantarem o Ceptro Real, em sinal da fé, que direitamente haviaõ de guardar, e pois que aos Reys antigos, os povos deraõ sobre si tamanho poder, e authoridade polos bens que receberaõ delles, e principalmente pola liberdade, e asosego comum, devem todos os Reys seguir os exemplos de seus avòs, e da caza donde vem, de maneira, que os Reynos, que herdaõ por sangue, tornem a merecer de novo por grande virtude, e fortaleza, e sobre tudo devem conservar a honra, descanço, e liberdade de seus vassallos, usando verdadeira fortaleza, e naõ confiando mais na gente de fóra, que na força, e valentia de seus naturaes, por quanto sempre se vio com a gente natural se conquistarem os Reynos alheyos, e com a de fóra se perderem os proprios, e jà ganhados.

Tudo isto que disse de fortaleza, e partes della, foy porque vissem todos comparando as cousas antre si, quam excellente Principe em todas he V. Alteza quam forte, quam constante, quam afeiçoado à lembrança dos feitos, que saõ dignos de memoria. Quantas Conquistas tem contra os infieis em diversas partes do Mundo, e assi quanto mais confia no esforço, e bondade de seus naturaes, que nas armas, e ajuda de nenhuma gente estrangeira: mas naõ se contenta com sómente ser forte (sendo este em si tamanho louvor) mas ainda vay mais por diante, merecendo mòr nome, que o da fortaleza, e sua natureza he naõ descançar nunca athè naõ chegar ao mais alto ponto, e cabo de toda a virtude. Grande louvor seria a todo o Principe ser chamado forte; V. Alteza de tal maneira o he, que tambem com muita razaõ pòde ser chamado magnanimo. Quem o vio nunca menancorio, ou desviado daquella humanidade, e brandura, que mais representa homem Divino, que humano? Quem vio nunca seu rosto alterado, nem vencido de alguma payxaõ, por nenhuma grande adversidade, que fóra destes Reynos (tantas esterelidades, tantas fomes, tantos terremotos, e pestes em quantos annos atraz foraõ) se elle com seu grande, e magnanimo esforço, e bondade lhes naõ acudira?

Eraõ perdidas muitas Nàos de V. Alteza que vinhaõ carregadas da India de muita riqueza, naõ cessavaõ diferenças muito importantes com grandes Principes, com tudo sentindo sem comparaçaõ mais os males presentes, que seus Reynos padeciaõ, e dissimulando a payxaõ com muito esforço, naõ cessava com igual prudencia, e magnanimidade de socorrer continuamente as necessidades de todo o seu povo, muito mais do que a qualidade dos tempos parecia, que pudesse soportar; mais he isto que fortaleza, e mòr louvor merece, porque saõ estas as partes do coraçaõ alto, e segundo dizem os Filofofos, heroico, que assi como nas prosperidades se vem os homens para quanto saõ, assi nos grandes males, e perdas se conhecem os magnanimos. Em tempo do Emperador Marco Antonio o Imperio Romaõ padeceo todos os males, que se podiaõ cuidar, toda a terra de Levante toda Esclavonia, toda a França ardiaõ em guerra, havia fomes, esterilidades, tremia a terra em muitas partes, cahiaõ Cidades, e lugares com perda de muita gente, vinhaõ grandes cheas de rios, que alagavaõ os campos, e faziaõ grande danno, andava por todas as partes graõ pestilencia, com outras muitas doenças, desciaõ polo ar nuvens de Gafanhotos, que aonde pousavaõ, destruiaõ tudo, em fim nenhum mal, nenhuma desaventura se poderia imaginar, que entaõ naõ ouvesse, mas Deos que nunca se esquece dos homens, tanto que naõ lhes dè algum remedio, quiz por sua misericordia, que fosse naquelles tempos Emperador de Roma Marco Antonino Principe dotado de tantas virtudes, e de taõ excellente engenho, e saber, que pode com seu esforço repairar, e ter o rosto quedo a tamanha fortuna, e bem se pòde dizer, que se naquelles tempos naõ fora Antonino, que o Imperio Romaõ se perdera. Com muita razaõ pòde V. Alteza ser comparado a este taõ virtuoso Principe, posto que nisto lhe faz ventagem, que tendo recebidas mòres perdas em sua fazenda naõ leyxou por isso, nem leyxa de ser taõ liberal, como elle foy; mas quanto mais me estendo por seus louvores, e grandes virtudes tanto se faz o caminho mais comprido. Aconteceme como àquelles, que entrando polo mar Occeano, quanto mais vaõ por diante, tanto mais se metem no alto, por isso em tanto perigo, melhor, e mais saõ conselho seria recolherme, e assi o quero fazer se primeiro disser algum pouco da grande temperança que ha nelle: claro remate de todas suas virtudes, sugigando sempre o appetito à razaõ, e guardando inteiramente o que cumpre, e sómente està bem a seu Real Estado. Grande jurisdicçaõ tem esta virtude em toda a vida do homem, e com todas as outras esta abraçada de maneira, que de nenhuma se pòde apartar, nem pòde haver perfeita virtude, em que naõ haja temperança, com que nada repugna à razaõ; mas he tudo confórme, e conveniente antre si. Naõ me he a mim necessario para prova disto allegar muitas razoens, por quanto o exemplo de V. Alteza basta para verificar o que digo, no qual naõ menos todas as outras virtudes, que esta, e suas partes se representaõ. Qual homem por mais rude, e idiota que seja, vendo a sua muita temperança, naõ cuidarà que vè hum daquelles Principes antigos cheyos de toda a humanidade, e comedimento, que de si nos leyxàrão memoria para sempre?

Todo este louvor he seu proprio, e por isso tanto mais digno de ser neste lugar louvado, quanto mais a elle só he devido, porque tirando algumas cousas que necessariamente requere a dignidade Real para sua conservaçaõ, em tudo o mais se ha para seus vassallos com tanta moderaçaõ, que mais parece Pay de todos, que Rey, e Senhor. Oh quam grande força he a da virtude! Quanto mais temperado he V. Alteza, tanto de nòs he mais venerado, e quanto mais obedece à razaõ, tanto mais o alevanta Deos, de maneira que o acatamento, que muitos outros Reys com mostra de muita gente, com pompa de Real Estado, com luzentes Alabardas diante de si naõ pòdem alcançar, elle só com muito comedimento, com muita brandura, e humanidade naõ menos alcança do que merece. Bem està esta tal virtude a hum tal Principe, e tanto melhor lhe està, quanto he mais nova, naõ digo, porque o conhecimento das virtudes naõ seja cousa velha, mas porque a pratica, e uzo dellas, as mais vezes he cousa nova, mas elle naõ se contenta de louvor geral, os seus altos pensamentos dezejaõ merecimentos novos, o seu Real Coraçaõ desprezador de honras demasiadas, e amansador de desejos sem nenhum fim, mais do que Deos manda, alcança mais do que deseja. Naõ leyxarey de pòr aqui as palavras, que Moysès Secretario do muy alto Deos leyxou ditas a seu povo. Se quizerdes em algum tempo ser governados por Rey, olhay que seja vosso natural, e que tenha sempre cuidado da justiça, e que saiba que a sabedoria consiste principalmente em temer a Deos, e em guardar as leys, naõ faça nada sem vontade do Principe dos Sacerdotes, e dos mais anciaõs do Povo, naõ caze com muitas molheres, naõ trabalhe por acquirir muitos thesouros, nem por ter muitos cavallos ajaezados, por quanto se estas causas desejar, e tiver, serà soberbo, e pouco obediente às leys. Esta virtude taõ louvada de Moysès os mais antigos Romaõs, seguidores da ley da natureza, guardaraõ inteiramente, e em quanto a elles guardaraõ, e com ella juntamente amàraõ pobreza, o Imperio Romaõ assi na paz, como na guerra cresceo, e foy por diante. Lucio Quincio Cincinato Capitaõ, e Senador Romão com quatro geiras de terra vivia, e nellas andava lavrando, quando foy chamado para ser Dictador de Roma, que era entaõ a mòr honra, e dignidade que naquella Reepublica se podia dar, e delle se escreve, que fez no seu tempo seu Mestre dos Cavalleiros a hum Curio, ou Lucio Tarquino, que athè entaõ por ser muy pobre servira na guerra a pè, e assi Marco Athilio Regulo Nobre Capitaõ, que como jà em cima disse, foy prezo polos Carthaginenses teve o dezejo taõ curto, e limitado, que sendo em Africa Capitaõ d’hum grande Exercito mandou pedir ao Senado licença para vir a Roma olhar por huma sua Quintãa, que entaõ era maltratada de seus Lavradores: sem duvida quem isto pedia, naõ desejava de enriquecer na guerra, que entaõ pouco lhe lembràra o danno da sua erdade, mòrmente andando em tal parte, e com tal càrrego, donde pudera tirar grandes interesses, mas aquelle fim certo da bondade, que nunca pode exceder às Leys da temperança, foy causa, que assi como Regulo fazia guerra por gloria, e serviço da sua Reepublica, que assi em tamanha Capitanîa senaõ esquecesse de sua pobre fazenda.

He certo para notar a grandeza de coraçaõ dos Cidadaõs Romaõs, os quaes sendo em alguma parte Capitaens, eraõ magnanimos sobre todos os Principes, desbaratavaõ poderosos Reys, e grandes Exercitos em batalhas campaes, e estes mesmos depois, que se tornavaõ à patria, tornavaõ a ser como d’antes Cidadaõs particulares, temperados, contentes de suas pobres fazendas, obedientes aos Officiaes de Roma, e aos mais velhos, quasi de maneira, que parece cousa impossivel, em hum mesmo coraçaõ caber tamanha diversidade de costumes. Durou isto atè o tempo de Paulo Emilio, o qual vencendo a ElRey Perseo de Macedonia, e triumfando delle trouxe a Roma tanto ouro, e prata com que o Povo Romaõ aprendeo a ser cobiçoso, mas Paulo Emilio lembrado dos costumes em que fora criado, se lembrou sómente da victoria, e viveo como dantes pobremente: dahi por diante crescendo a cobiça nos Romaõs chegou a tanto extremo por onde aquella Reepublica, q́ o que com temperança se ganhàra, se veyo a perder com seu contrario, e como diz hum Poeta a cobiça, e desordem dos Romaõs destruio Roma, e deu della vingança ao mundo; mas V. Alteza naõ somente no que toca à dignidade Real, mas à maneira, e costumes de sua vida he muy temperado. Jà disse em cima quam sumptuosamente edificava, o que porèm faz com tanto respeito, que naõ pode ser a isso reprehendido, como foraõ Pericles, e Pompeo. ElRey Herodes de Judea filho de Antipatro, e Domiciano Emperador de Roma, e ElRey D. Fernando de Portugal por este demasiado apetito, de ricos Principes, que eraõ d’antes, deraõ consigo em muita pobreza. A Mesa Real de V. Alteza assi como he servida como cumpre a seu Real Estado, assi naõ excede o modo na muita sobejidaõ dos manjares, que se agora em outras partes usaõ, os quaes naõ sendo bons para a vida, trazem consigo outro danno, que empecem com seu exemplo ao povo, que como jà disse, sempre folga de fazer o que vè, que seu Principe faz.