Siguaõ os Principes o exemplo de Hercules, o qual como escreve Xenofonte, passeando hum dia em hum lugar sò apartado, vieraõ a elle a virtude, e a deleitaçaõ, ambas em habito de mulheres, mas a virtude vinha como mulher grave, e a deleitaçaõ era Dama muito fermosa, e porfiando com muitas razoens cada huma polo converter a si, sendo elle mancebo, e naquella idade, em que naturalmente as vontades se soem de entregar a bem, ou mal; Hercules posto que a deleitaçaõ lhe prometesse grandes prazeres, e polo contrario a virtude lhe mostrasse grandes trabalhos, ou vida trabalhosa, com tudo depois de lançar suas contas, e cuidar tudo antre si, prudentemente escolheo a virtude com razaõ, e trabalho, que a deleitaçaõ com falso contentamento: mas quando a virtude por si naõ abastasse para se aver de seguir, ao menos se devia fogir da infamia, que de naõ se fazer o que era razaõ nasce aos homens. Quem he taõ presumpçoso, ou esquecido de si mesmo, que naõ estima o que outrem pode dizer delle, como diz S. Joaõ Chrisostomo? A multidaõ dos homens toda traz os olhos nos costumes de seu Principe, dos quaes como de huma pintura cada hum tira o debuxo, e modo do seu viver, e os peccados das pessoas baixas sómente empecem a quem os comete, as culpas dos grandes polo mào exemplo trazem danno geral a muitos. Se como dizem os Filosofos na temperança principalmente se olha, que tudo diga, e estè bem, em nenhum tempo pòde ser afastado da virtude, porque tudo o que diz, e està a bem por certo, em todas as partes da vida. V. Alteza guarda perfeitamente o que cumpre, e està bem ao preço, e authoridade de sua Real pessoa.

Sempre atençaõ de toda a pessoa virtuosa, e mòrmente do Principe assim mesmo deve ser, conforme a todalas partes da vida, naõ deve ter os apetitos soltos, ou sobejamente dezejando, ou sendo muito negligente, que isto he o que naõ està bem, nem ha de haver nella vozes falsas, nem desacordadas, o que tanto mais se deve fugir, quanto esta musica he mais suave, que todas as outras, e quanto o desconcerto della offende mais, e parece peyor. Bem està ao Principe ser vergonhoso, que aonde naõ hà vergonha, naõ pòde haver nenhuma virtude, e este louvor foy dado a Hercules: bem està ser humano, e chaõ, porque mais louvada foy a humanidade de Valerio Corvino Capitaõ Romaõ, que a muita aspereza de Anibal, e Manlio Torcato, que matou seu filho. Bem lhe està guardar o que promete, porque de Hercules se escreve, que nunca mentio, nem quebrou juramento, e que huma só vez jurou em toda a vida, e parecia taõ mal aos Romaõs quebrar o juramento, e a fé, que se dava, que defenderaõ aos seus Sacerdotes, que naõ jurassem. Em fim bem està ao Principe naõ querer mais honra daquella, que a razaõ, e authoridade de sua Real Pessoa requere.

Que cousa pode estar peyor a quem governa, que gabar-se a si mesmo muito, ou dar credito a lisongeiros, como dizia Aristoteles? Quem a si mesmo se gaba, he vaõ, e quem diz mal de si, he Sandeo, por isso a verdade he nem se louvar homem, nem menos dizer mal de si, e o mesmo dizia, que os contentamentos falsos se deviaõ de olhar no fim para taõ asinha se naõ tornarem a desejar. Escreve-se nos Livros Sagrados, que estando Acab Rey dos dez Tribus para dar batalha a ElRey Adado da Suria, mais de quatro centos Profetas falsos, que havia no Paço, por contentarem ao Rey lhe diziaõ, que pelejasse ousadamente, que Deos lhe tinha prometido a victoria, antre estes todos havia hum só Profeta verdadeiro chamado Micheas, o qual o desenganava, dizendo, q́ se là fosse, havia de ser morto; mas ElRey dando mais credito à falsa esperança dos lizongeiros, que ao dezengano de Micheas, depois de o mandar prender, sahio à batalha, em que foy morto, e este he o proveito, que tiraõ os Reys de quem lhes naõ falla verdade. Quem estas cousas bem olhar, acharà claramente pola comparaçaõ dellas, quam afastado he V. Alteza de todos estes males, e como em tudo segue, o que sómente està bem à qualidade da pessoa, e grande mando, que tem.

Finalmente todas as partes, que tem da temperança, são em si perfeitas, despresa as vaidades, e honras sobejas, he muy temperado em toda a maneira, e costumes de sua vida, pode nelle mais a razão, que o appetito, naõ se esquece nunca do que cumpre, e està bem a seu Real Estado, porque segundo Aristoteles, a temperança he dividida em três partes, em obedecer o appetito à razaõ, e naõ haver nas cousas mais diligencia, nem menos da que cumpre em ser guardada em tudo a dignidade, e estado de qualquer pessoa. Quem com juizo verdadeiro tudo isto bem olhar acharà, que em V. Alteza se pode verificar toda esta divisaõ.Com estas manhas, com estes costumes, com esta tal musica, e harmonia de tantas virtudes, he tambem quisto, naõ somente de seus leaes subditos, e naturaes, mas das Provincias, e Naçoens Estrangeiras. Este he hum dos premios da virtude serem por ella naõ menos amados os absentes, que os prezentes, e polo contrario, quando o Principe he o que naõ deve, assi os estranhos, como os seus lhe querem mal, e lho mostraõ per obra, quando podem, e achaõ tempo para isso, e por força he, que hajaõ medo a quem querem mal, e a quem haõ medo, que lhe dezejem a morte. Que mayor imfamia pode ser de hum Principe do que foy do Emperador Cayo Cesar Caligula, que foy taõ mào, e crù tiranno, que ouzou dizer, que de nenhuma cousa se prezava mais, que da pouca vergonha? Mas seus mãos costumes, e crueza lhe deraõ o fim, que elle merecia.

A pouca temperança, e comedimento dos antigos Reys de França foy causa, que perdessem aquelle Reyno, e a successaõ delle passasse a outrem: porque sendo Theodorico Rey em França, e leyxando governar o Reyno a outrem, nem se mostrando ao povo mais que huma vez no anno, naõ poderaõ isto sofrer os Grandes, e o lançaraõ do Reyno: nesses tempos a segunda dignidade de França depois delRey era Mordomo Mòr, que pela fraqueza dos Reys mandava tudo, por onde sendo, como disse, lançado Theodorico, foy entregue o Reyno a Pepino Martel, filho de Pepino, o qual pola grande authoridade do seu cargo governou França muito tempo, e por sua morte leyxou seu filho Carlos Magno, que depois fez grandes cousas em armas.

Costume he dos que compoem Panegyricos louvarem nelles a boa presença, e pessoa do Principe, por isso dezejando eu fazer o mesmo, mòrmente, sendo estas partes em V. Alteza taõ dignas da Magestade Real, por duas causas o leyxo de fazer, a primeira porque a dignidade da lingoa Portugueza sofre mal esta maneira de louvor, e a outra por ser isto taõ notorio, que naõ tem necessidade de ser por mim mais representado, e assi como no tempo dos Gentios em algumas partes, aonde era adorado o Sol, haviaõ por escusado fazer-lhe imagem, porque o viaõ sempre andar no Ceo, assi a Real Pessoa, e presença de V. Alteza, sendo de nòs vista cada dia, naõ ha mister outro testemunho, que o dos olhos e contentamento geral de todo o seu Povo. Mas jà he tempo, muito Poderoso Rey, e Senhor de me recolher ao porto, e amainar as vellas: metime no Mar Occeano: grande atrevimento foy o meu: hey medo de me perder, faz-se o caminho cada vez mais comprido, e com tudo queria meu desejo passar adiante, e fallar nas heroicas virtudes de V. Alteza, cujo officio he mostrar-se nas mòres cousas, e trabalhos, assi como nas outras he fugir, e arredar-se dos extremos. Vejo quam grande empresa tomey, e quam trabalhoso me serà querer dar perfeito louvor em Panegyrico a seus altos merecimentos, e naõ he igual trabalho dos que geralmente trataõ das partes, e officio de bom Principe ao daquelles, que particularmente querem representar as virtudes, e feitos de hum Rey Excellente. Os que fallaõ geralmente dos Reys naõ saõ obrigados a nenhumas Leys, nem delles se espera mais do que podem. Tem a liberdade, que querem, tomando, e leyxando o que lhes parece, sem merecer nenhuma reprehensaõ: por isso muitos Filosofos fizeraõ isto com muito seu louvor, como foraõ Plataõ, e Theofrasto, Antistenes, Xenofonte, Dion, Xenocrates, Aristoteles, e outros muitos, mas no Panegyrico naõ he assi, o qual, ou senaõ hade começar, ou jà que se começa, ha de se dar igual louvor ao merecimento das pessoas, e naõ se dando, he digno o author de muita culpa, ou por tomar empreza desigual a si, ou por naõ querer louvar como he razaõ, e naõ merece menos culpa, quem louva o bom Principe menos do que he, que quem diz mal delle. Neste tamanho perigo, em que me fuy meter, huma só escusa tenho por mim, o grande dezejo de tratar os louvores de V. Alteza, senaõ como elle merecesse, ao menos como eu pudesse. No fim desta obra peço ao muito alto Deos, que este tamanho bem, que nos quiz dar dando-nos tal Rey, e Senhor, nos queira conservar por muito annos, dando nos a nòs tambem vida, não tanto pola vida, quanto polo contentamento deste seu glorioso Reynado de V. Alteza.

FIM DO PANEGYRICO

A ELREY D. JOAM III.

Por João de Barros.

ELOGIO
DELREY
DOM JOAÕ
DE PORTUGAL
III. deste nome