POR
ANTONIO DE CASTILHO
Do Conselho delRey D. Sebastiaõ, e seu Chronista Mòr
Dom Joaõ o III. deste nome, decimo quinto na ordem dos Reys de Portugal, foy filho delRey D. Manoel, e neto do Infante D. Fernando, que por linha direita de varaõ em varaõ, vinha do primeiro Rey de Portugal D. Afonso Henriques, filho de D. Henrique Conde de Astorga natural de França das partes de Vizançon, cujo Pay, e Avòs descendiaõ dos antigos Reys de Borgonha: nasceo o Principe D. Joaõ das segundas vodas entre ElRey seu Pay, e a Rainha Dona Maria filha dos Reys Catholicos nos Paços de Alcaçova de Lisboa no anno de Christo Nosso Senhor 1511 a 6. de Junho; naõ pode temperar o alvoroço, e alegria do povo huma grande trovoada, que a noite de seu nascimento se armou, e hum rebate de fogo ateado dentro nos Paços, no dia em que foy bautizado, porque em tamanho sobresalto naõ deixavaõ de o festejar com todas as invençoens de jogos, e de prazeres publicos, como se aquelle lume fora hum agouro do resplandor de sua virtude: fez seu bautismo na Capella de S. Miguel D. Martinho da Costa Arcebispo de Lisboa. Madrinhas foraõ a Rainha Dona Leonor viuva delRey D. João II. e a Infanta Dona Beatriz sua Avò: e em nome da Senhoria de Veneza escolheo ElRey D. Manoel por Compadre hum Gentil homem enviado por Embaixador a este Reyno, a quem ElRey armàra Cavalleiro, e dera a Ordem de Christo, avida naquelle tempo por mayor honra. Tomou o Principe o primeiro leite de Dona Beatriz de Payva, casada com D. Alvaro da Costa, Guarda roupa delRey D. Manoel, mas vindo adoecer, e faltarlhe o leite, entrou em lugar della Fillipa d’Abreu casada com Bertholameu de Payva cunhado do mesmo D. Alvaro, dizem alguns, que lhe fora revelada em sonhos esta criaçaõ do Principe, podia tambem ser força da imaginaçaõ. Como o Principe chegou à idade de hum anno, foy jurado pelos tres Estados, por futuro succesor destes Reynos nas Cortes, que ElRey seu Pay fez em Lisboa no anno de 1503 na Sala dos Leoens: passados os primeiros annos da mama, teve cuidado de lhe ensinar a Doutrina Christaã, e as primeiras letras Alvaro Rodrigues Capellaõ delRey seu Pay, ajudado de hum Martim Alonso, que professava este officio, teve cuidado de lhe ensinar os principios da Lingua Latina D. Diogo Ortiz de Vilhegas Bispo de Tangere, que depois com Thomaz de Torres Mathematico muy conhecido lhe deo algumas liçoens da Esphera, e tendo o Principe huma memoria estranha, e tanto juizo, como sempre mostrou, aproveitouse mal desta Doutrina, ou por culpa dos passatempos, a que se afeiçoava mais, ou destes Doutores, que o guiaraõ por caminhos torcidos, nem cada hum delles, nem Luiz Teixeira filho do Chanceler Mòr grande Letrado, e criado nas boas letras de Italia lhe aproveitou na falta, que depois sentio, porque escassamente se enxergava nelle a sombra da Lingua Latina: posto que nas cousas de juizo se achava muito lembrado: assim eraõ as palavras delRey cheas de Magestade, e igual brandura, que parecia criado na conversaçaõ dos melhores engenhos do Mundo. Quando ElRey seu Pay lhe deo casa, afeiçoouse logo a dous homens fidalgos de diferente natureza, hum delles foy Luiz da Sylveira muito avisado, bom cortesaõ com alguma noticia das letras humanas, mas desejoso de levar o Principe a seu parecer, o outro D. Antonio de Tayde de menos idade, mas transformado no gosto delRey, de que fazia muito mais conta, que da propria medrança, assim a segurou melhor quando o Principe D. Joaõ veyo a reynar. Falecido ElRey D. Manoel no anno de 1521. a 13. dias de Dezembro, proveo logo o Principe as honras, e exequias da sepultura de seu Pay: tanto que foy obedecido, e jurado dos tres Estados do Reyno, reformou com todos os Principes confederados a paz, e amizade, que seu Pay acordàra com elles, e no mesmo tempo succedeo a morte do Papa Leaõ X. cujo successor foy Adriano VI. na Igreja de Deos. Deu-lhe ElRey D. Joaõ a obediencia, antes que sahisse de Espanha, provendo juntamente nas cousas da paz, e da guerra sem alterar o governo, nem os Ministros na ordem em que as deixàra seu Pay. Começando apoz isto a nascer algumas discordias entre elle, e o Emperador Carlos V. pela razaõ que cada hum tinha de averem por seu o direito das Ilhas de Maluco, por culpa de Fernaõ de Magalhaens desnaturalizado de Portugal por aggravos del Rey D. Manoel, entendeo quanto importava a seu Reyno o repouso da paz, e naõ sómente atalhou a desavença desta causa por honesto partido, mas renovou o devido antigo, que tinha com a Casa d’Austria, dando a Infanta Dona Isabel sua Irmã ao Emperador, com hum dote desacostumado, casando a troco com a Infanta Dona Catharina d’Austria. Revolto o Mundo depois com as guerras do Emperador, e de Francisco Rey de França, e determinados por huma das partes todos os Principes da Europa, sendo ElRey D. Joaõ escassamente de 24. annos de idade, assim se governou nesta tormenta do tempo, que naõ pòde ser levado de algum delles para seguir seu bando, antes guardando a hum o decoro, a outro a fé de confederaçaõ, nunca desistio de esforçar cada hum delles à paz da Christandade, pondo-lhe diante a obrigaçaõ que tinhaõ de ajuntarem as forças, e virarem as armas contra os inimigos della, offerecendo o Infante D. Luiz seu Irmão para tratar este acordo. Desejando depois ver restituidas em Portugal as letras, que a ignorancia de alguns, e descuido dos Principes tinhaõ degradadas do Reyno, escolheo alguns moços de boa esperança para fazerem alicece desta obra, os quaes mandou criar em Pariz no Collegio de Santa Barbara, onde se assinalaraõ alguns na eloquencia, e doutrina, de sorte que pode depois reformar a Universidade de Lisboa, e levalla à Cidade de Coimbra, convidando Theologos, Juristas, e Medicos de todas as partes de Europa, que floreceraõ nesta Universidade, e ganharaõ honra com o favor, e partido, que lhes fazia. Quasi no mesmo tempo receando o perigo, que as heresias dos Christaõs novos, e dos Luteranos, que em Alemanha cresciaõ, tanto como as outras no Reyno, antes que este fogo se ateasse, impetrou da Sè Apostolica a authoridade do Officio Santo da Inquisiçaõ(posto que em Roma contrariado) para atalhar os incendios, que em poucos annos abrazaraõ o Mundo, com tanto zelo da Religiaõ Catholica, que escolheo para o cargo de Inquisidor Mòr o Cardeal Infante D. Henrique seu Irmaõ. Fez muita ventagem aos Reys seus Avòs no zelo do Culto Divino, e acrescentamento na Religiaõ, porque no Reyno fez tres Igrejas Sès Cathedraes, Leiria, Portalegre, e Miranda, e nas Ilhas do Mar Oceano, e outros Estados da Coroa de Portugal erigio novos Bispados por authoridade Apostolica, cujos Prelados, e Ministros de cada Igreja fez sustentar dos dizimos, que estavaõ applicados à Ordem de Christo, no descobrimento destas partes. Fez com a mesma authoridade a Igreja de Evora por morte do Cardeal D. Affonso Metropolitana, onde passou com o mesmo favor do Arcebispado de Braga o Cardeal D. Henrique, para restituir com seu exemplo de vida a melhores costumes os Ministros, que a riqueza daquella Igreja hia afroixando. O mesmo titulo procurou à Sè do Funchal na Ilha da Madeira, com ordem, que fosse reconhecida na jurdiçao espiritual do Bispado de San Tiago, e de S. Thomè, e da Cidade de Goa na India. E por tempo depois impetrou do Papa o Primado à Cidade de Goa, que reconheciaõ os Bispados de Cochim, e Malaca. As Ordens dos Religiosos esfriados do primeiro fervor foraõ à sua instancia restituidas à limpeza, e devaçaõ dos primeiros Instituidores, como foraõ a dos Franciscanos, Dominicos, Agustinhos, Carmelitas, e Hieronymos, repairando os Edificios antigos dos Religiosos, para se exercitarem naquella vida santa, e recolhimentos mais acommodados, com o qual cuidado reformou o Convento dos Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesu Christo em Tomar, apertando aquella Religiaõ Militar, quasi desatada, com a Regra de S. Bernardo, como fez no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que naõ sómente mudavaõ os costumes, a vida, e recolhimento, mas foy acrescentado de Edificio magnifico, e digno de sua grandeza. Tinha a mesma tençaõ redusir a Ordem de S. Bento à sua limpeza, e santidade primeira, mas a morte rompeo este desejo, posto que em sua vida o Mosteiro de Alcobaça resplandecesse em muita virtude, como depois succedeo a todas as casas de Portugal desta Ordem, com o zelo que o Cardeal D. Henrique mostrou a esta Religiaõ, depois que lhe foy encomendada em tempo del Rey D. Sebastiaõ, herdeiro dos pensamentos de seu Avò, veyo a lume a Reformaçaõ, que S. Bento lhe inspirou do Ceo, com que os Mosteiros de sua Ordem começaraõ a florecer em nova Religiaõ, e com seu exemplo as outras Ordens Militares de Aviz, e Palmela, se governaraõ melhor.
Foy o primeiro Principe Christaõ, que tomou debaixo de seu amparo a Ordem da Companhia dos Padres, que em nome de Jesus Nosso Salvador ordenou Ignacio de Loyola com doze companheiros, offerecidos semear a Palavra de Deos pelo mundo, com tanto proveito das almas, como hoje vemos em todas as partes onde penetrou sua doutrina, e pode o favor del Rey D. Joaõ fazer este beneficio à Christandade, fundando hum Collegio em Coimbra, depois desta Religiaõ approvada, onde se criaraõ em exercicios de virtude, e Doutrina Christãa muitos Soldados de Christo, que depois se espalharaõ por todo o Oriente, com muita gloria do nome Christaõ. As Donzellas Orfãs, que a idade, e desamparo podia estragar, mandou recolher em huma casa, para dalli lhe ordenarem vida, ou por casamento, ou por Religiaõ, e o mesmo Recolhimento fez noutra parte para mulheres, que a propria fraqueza, ou descuido dos pays fez mal costumadas, para neste lugar com a penitencia, e oraçaõ restaurarem a honra perdida. Entendendo o pouco sossego, que em Lisboa tinhaõ, os que se exercitavaõ nas Escolas geraes, desejoso de os seus Vassallos se assinalarem na doutrina das letras, passou os Estudos a Coimbra, que dotou de muitas rendas do seu Padroado, com que ajuntou homens escolhidos, dos que depois se fizeraõ conhecer pelo mundo estremados por estranha doutrina: floreceraõ em seu tempo outras artes apagadas, que seu favor espertou, como foy a Architectura, a que o mesmo Rey se inclinou, e a navegação dos seus naturaes conhecidos em todas as partes do mundo, pela noticia das cousas do mar. Aos Infantes filhos del Rey D. Manoel seus Irmãos, foy pay no amor, dando a cada hum tanta parte das terras da Coroa, Prelazias, e Mosteiros encomendados, quanta bastava a qualquer Principe para sustentar o Estado, e obrigaçoens do Sangue Real, porque naõ perdeo nunca o cuidado do Cardeal D. Afonso, que em vida delRey seu Pay fora provido em titulo do Arcebispo de Lisboa, e da administraçaõ do Bispado de Evora, e Mosteiro de Alcobaça. Ao Infante D. Luiz fez Condestable de Portugal, Duque de Beja, e de outros Estados, e perpetuo administrador do Priorado do Crato. Ao Infante D.Fernando deu em dote os Condados de Marialva, e Loulé, o Ducado de Trancoso, com outras Villas no Reyno, casando-o com a Senhora Dona Guiomar Coutinha, unica herdeira da casa de Marialva, como ElRey seu Pay ordenàra. Ao Infante D. Duarte casou com a Senhora Dona Isabel, filha de D. Gemez Duque de Bargança, a quem D.Theodosio, herdeiro desta casa dotou o Ducado de Guimarens, consentindo ElRey no partido. Ao Infante D. Henrique Principe santo proveo primeiro do Arcebispado de Braga, donde passou para Evora, dando-lhe a administraçaõ dos Mosteiros de Santa Cruz de Coimbra, e o titulo de Cardeal, que lhe procurou. A Infanta Dona Beatris, casada em vida de ElRey seu Pay como o Principe de Saboya, e depois offerecida a muitos trabalhos, pelas guerras que houve entre os Franceses, e Imperiaes, com quem o Duque fez bando, favoreceo sempre com tanto amor, como devia a esta Princesa, e o devido, que tinha com aquella casa. Poucos annos depois, que começou a Reynar, casou a Infanta D. Isabel com o Emperador Carlos V., e por satisfazer a vontade delRey seu Pay excedeo o dote às forças do Reyno. A Infanta Dona Maria derradeira filha delRey D. Manoel procurou sempre casar com o Delphim de França, depois com Filippe herdeiro de Espanha, e finalmente com o mesmo Emperador Carlos V. mas perdeo o trabalho, porque a vontade de Deos tinha escolhida esta Princesa para outra bemaventurança mayor, quando a levou para si, vivendo sempre em este Reyno com huma casa, e estado de muita grandeza. Alguns bandos, que succederaõ em seu tempo entre Casas Illustres, como foy entre a Casa de Aveiro, e a de Marialva, o Conde do Vimioso, e da Castanheira, e outras Casas desavindas entre si, teve sempre cuidado de as repartir com mayor authoridade, e respeito, que lhe todos tinhaõ, do que era o temor do castigo, porque sua condiçaõ maviosa era taõ affeiçoada a toda a clemencia, e perdaõ, que tinha por honra folgarem os homens de lhes serem aceitos: e por cousa indigna de sua grandeza ter os Vassallos em seu serviço por medo do rigoroso castigo. A certo Fidalgo, q́ naõ consentio a seu filho visitar da parte delRey à Condestablessa, chamou doudo publicamente, e disse-lhe, que mandaria fazer este officio por outro mais honrado que elle; o que fez logo por outro menos valido: dando com isto a entender, que os Vassallos soberbos naõ podem ter honra, e que os obedientes a seu Rey só a tem verdadeira: quando lhe enculcavaõ alguma pessoa para seu serviço, e lho gabavaõ de homem rijo, e que se naõ deixava torcer, ria-se destes louvores, e affirmava, que estes rigores, e estremo da justiça naõ nasciaõ senaõ de fraqueza, e desconfiança, que só a clemencia, e dissimulaçaõ da vingança particular podia caber em espiritos grandes. Nos crimes enormes mostrava sobejo rigor, e dissimulando com a justiça ordinaria, valia-se algumas vezes da jurdiçaõ absoluta, procedendo contra pessoas privilegiadas, como era D. Joaõ Sotil Bispo de Çafim, preso por culpas secretas, D. Bernardo Manoel malsinado por offerecer à Excellente Senhora hum Galeaõ, D. Duarte de Meneses, por governar a India à sua vontade, D. Miguel da Sylva Bispo de Viseu, por se ir deste Reyno sem lhe entregar o sello da puridade, e negocear o Capello de Cardeal contra sua vontade: assim que a brandura, e clemencia, que sempre mostrou nos delictos, que mereciaõ perdaõ, o faziaõ parecer mais rigoroso, e desigual, nos que procediaõ contra seu serviço desconfiados de sua boa inclinação. Desejando com tudo satisfazer às obrigações, que lhe carregavaõ, como herdeiro do Reyno, e administrador da Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo, ordenou hum Tribunal chamado da Conciencia, onde se proviaõ todos os descargos della, e faziaõ cumprir as obrigaçoens desta Ordem, e das que depois se ajuntaraõ à Coroa com grande satisfaçaõ do Reyno, e vigia dos bens das Ordens, que em seu tempo foraõ sempre melhor governadas: foy havido por descuidado de sua fazenda, mas na verdade quem lançar conta ao que ella rendia, o estado em que a achou, quando succedeo na Coroa, os dotes de suas Irmãas, que pagou da Rainha Dona Leonor viuva, as legitimas e heranças da Infanta Dona Maria, e de cinco filhos delRey D. Manoel, a transaçaõ de Maluco, os roubos de seus Ministros, que teve na India, os naufragios das Nàos, que succederaõ em seu tempo, acharà que naõ houve Principe no Mundo, que fizesse tanto bem, como elle fez a todos com taõ pouca renda, como lhe fundia esta Coroa, e se for mais àvante tambem acharà, que assi como teve a condiçaõ larga para gastar dinheiro, e fazer mercès temporaes; teve muita prudencia para conservar seu Estado, entendendo, que os bens da Coroa eraõ devidos ao Estado Real, como nervo principal da paz, e da guerra, sem os quaes, nem os Reys podem ter authoridade, nem o Reyno sossego, como aconteceo em Portugal, e em Castella, depois que os Senhores serviraõ seus Reys a partido, e a grandeza de suas casas os fazia revolver cada dia Hespanha com qualquer aggravo dos Reys. E por isso nunca ElRey D. Joaõ em seu tempo deixou de restituir à Coroa os bens, que vagavaõ por direito das doações. A herança de Marialva vaga por morte da Infante Dona Guiomar Coutinha, tornou a incorporar na Coroa, como fez ao Estado do Infante D. Luiz, e outros, que foraõ vagando, principalmente os Mestrados da Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo, de S. Bento de Aviz, e de S. Tiago, que à sua instancia se uniraõ à Coroa perpetuamente, entendendo quanto importava ao sossego do Reyno, e satisfaçaõ dos merecimentos publicos da paz, e da guerra, virem as Comendas das Ordens a quem tinha obrigaçaõ de premio, e castigo: e com ter este respeito de naõ diminuir o patrimonio do Reyno, e naõ perder occasiaõ de o acrescentar, naõ teve menos cuidado de conservar em sua reputaçaõ as Casas dos Grandes, e a Nobreza antiga do Reyno, abrindo muy raramente entrada de novo a gente popular, quando naõ tinhaõ serviços muy conhecidos, posto que seu zelo fosse desterrar de Portugal calidades de homens infames, porque estranhou ao Principe D. João seu filho chamar villaõ a hum toureiro, dizendo, que em Portugal naõ havia esta sorte de homens, que bastava a vontade, a fazenda, a boa criaçaõ, e costumes para honrar os homens de bem, e por isso os privilegiava de boamente, entendendo quam bemaventurada he a Republica, onde hum Principe iguala com amor, e justiça, aquelles que a fortuna (às vezes cega) fez menores que outros. Fez tres vezes Cortes em Torres Novas, Evora, e Almeirim, em que respondeo a seus Vassallos com muita satisfaçao delles, e proveo algumas leys para bem da justiça, e dos povos, ainda que seus Ministros se descuidassem na execuçaõ dellas: as rendas publicas naõ desejou nunca ver acrescentadas, por naõ crescer o preço das cousas, que lhe erão necessarias para suas armadas, e em nenhum aperto do Reyno sofreo nunca lançar novo tributo, por naõ ser pesado a seus povos, e em quanto nelle foy, e as necessidades de sua fazenda sofreraõ, desejou sempre que se pagassem as dividas com os interesses corridos a seus acrèdores, porque naõ fosse exemplo sem pouco credito aos devedores quebrarem, e se podesse conservar o comercio entre seus naturaes com verdade, e justiça, posto que poucos annos antes de seu falecimento satisfizesse interesses exorbitantes, e demasiados aos seus acrèdores em tenças de juro, e de herdade na Casa da India, que depois de sua morte se pagarão a cada hum, como teve a ventura, mas muita parte delles se toma em cada contrato em pagamento aos interessados, como sofrem as necessidades publicas.
No conselho de cousas mais importantes recebeo sempre o parecer da Rainha Dona Catharina sua mulher, e dos Infantes seus Irmaõs, ajuntando com elles alguns Grandes do Reyno de muita prudencia, e inteireza, de quem podia fiar a deliberação de qualquer negocio por importante que fosse, deixando sempre lugar aberto a outras pessoas de meam fortuna, que tinhaõ noticia de negocios, em que avia duvida, mas naõ se obrigava nunca a seguir o parecer alheyo, ainda que nelle fosse vencido, no que a parecer de alguns acertava menos, porque os Reys quando naõ tem revelaçoens divinas, que os guiem, saõ obrigados aver seu conselho por sospeito, e fiaremse dos homens, que votaõ mais livres, e naõ espreitaõ seu gosto: assim como lhe estranharaõ alguns meter no conselho a Rainha com novo exemplo para os outros Principes, que naõ costumaõ fiar tanto da condiçaõ das mulheres, que ainda que muy avisadas, e virtuosas, saõ sempre mulheres. E porque em seu tempo começarão encarecer os mantimentos com a esterilidade do paõ, desejou muito acudir às necessidades do Povo, dando ordem para prover de fóra o Reyno, por industria dos Mercadores, que se obrigavaõ sómente a fazer seu proveito, favorecidos delRey, mas com muito descuido, e pouca vigia dos Officiaes, a que este cuidado se encomendava, porque a falta da execuçaõ, e brandura das penas desordenava a provisaõ das leys, pela qual razaõ se ouveraõ por escusas as taixas, conjurando todos os Mercadores em Monopolios particulares, e o povo com os Officiaes do governo em sua propria desordem, e vida desacomodada: em tanto naõ deixava ElRey de mandar prover os campos do Tejo, e do Mondego com vallos, maranhoens, e outros beneficios, que refreavaõ as cheyas, e impeto daquelles rios, naõ somente por culpa da natureza, mas dos Lavradores do Reyno, que semeavaõ terras dependuradas sobre as ribeiras, e a troco de pouco fruito corriaõ, e areavaõ os campos, entupiaõ as barras, e ficando rochas nuas, perdiase muito pasto de gado, e se os Ministros do Reyno acodiraõ nas Cortes a huma perda tamanha, por ventura naõ se alagaraõ os campos, e sobejàra o pasto do gado. Algumas obras publicas começadas por mandado delRey D. Manoel fez acabar em seu tempo, como foy o Templo de Nossa Senhora de Bethlem, com o Mosteiro dos Padres Hieronymos, fundado por ElRey seu Pay, pela ordenança moderna, que aquelles tempos sofriaõ, acabado por ElRey D. Joaõ com igual magnificencia, e despeza, e mayor fermosura, qual se mostra na fórma dos Edificios Romanos. Restituio o Cano da agoa de prata de Evora, aqueducto antigo de Sertorio, que o tempo em muitas partes tinha gastado, a cuja conservaçaçaõ applicou renda publica, que bastava para suprir o reparo: o mesmo fez no Cano de Elvas, ainda que naõ foy possivel acaballo por alguns estrovos, que se offereceraõ, em quanto a obra corria. Do mesmo Rey he aquelle Edificio illustre, que fica sobre o Mar em Lisboa, onde de huma parte se recolhe o pão, que vem de fóra por mar, e por terra, e da outra todas as mercadorias, que devem à Coroa direitos; edificou na mesma Cidade o Almazem, onde se guardaõ todas as armas, e moniçoens do Reyno, assim para bastimento das Fortalezas de fóra, obra magnifica, e digna de sua grandeza. Edificou na mesma Cidade com suas esmolas os Templos offerecidos a Nossa Senhora da Graça, a S. Francisco, a S. Roque, começados em sua vida com a mesma Magestade, com que depois se acabaraõ: fóra dos muros repairou o Mosteiro de Santa Clara, e em todo o Reyno, naõ ouve lugar em que naõ deixasse pègadas de sua devação; porque no Mosteiro de Alcobaça, no de Santa Cruz de Coimbra, no Convento da Ordem de Christo em Tomar, fez tantas despezas com obras novas, que passarão àvante de todas, as que os Reys seus avòs ordenaraõ, não perdoando a despeza alguma, e favorecendo os Ministros, de que confiou o cuidado dellas. Em Africa, e na India naõ ouve lugar, que ou naõ fortificasse de novo, ou naõ reformasse os Edificios antigos, como fez tambem nos lugares maritimos deste Reyno, e alguns Castellos da Raya, de sorte, que com grande beneficio do Reyno gastou huma parte de suas rendas na fortificaçaõ de seu Estado, ornamento dos lugares sagrados, e remedio de muitos pobres, que tinhaõ por melhor servir nestas obras, que povoarem forças, onde mereciaõ estar os ociosos com outra sorte de gente, que vive sómente da industria, e do engano alheyo. Naõ sómente nesta magnificencia mostrou a grandeza de seu espirito, mas no sofrimento, a que sacrificou seu coração, vendo quasi cada anno hum irmaõ, e hum filho morto, sem lhe ficarem de tantos, salvo dous netos, o Principe D. Sebastiaõ, que lhe soccedeo no Reyno, e da Princesa Dona Maria, Carlos herdeiro de Castella, sem nunca lhe enxergarem fraqueza em tanta magoa, como a perda destes Principes naturalmente lhe avia de fazer, antes abraçado com Christo fazia ley da vontade Divina; àlem de tantas virtudes, como mostrou na paz, naõ lhe faltou conselho na guerra, e tanta prudencia para governar em seu tempo com muita honra sua; quanto pareceo mais impossivel fazella longe dos olhos, nas mais afastadas terras do Mundo: quando começou a reynar fez com diligencia huma escolla de seus naturaes, que podiaõ adestrarse nas armas, e repartidos em companhias, de que avia Coroneis em cada Comarca do Reyno, Capitaens, e Sargentos, e outros Offciaes da Milicia particulares em cada bandeira, proveo com muito cuidado esta gente, sem queixume do povo, e ensinada nos dias de festa, que dantes gastavaõ em jogos, e passatempos de pouca honra, e proveito, obedecer a seus Capitaens a todo o exercicio das armas, levando o medo perdido ao estrondo da Artelharia, quando se offerecesse necessidade de alguma batalha, e assim com pouca despeza de sua fazenda, e algum favor devida à virtude, criava na destreza da guerra homens de bem, que depois se assinalavaõ nas armas, assim em suas navegaçoens, como na guerra de Africa, e da India, com o mesmo conselho privilegiou os Escudeiros de boa linhagem, huns filhando-os por Cavalleiros de sua casa, outros por confirmaçaõ de Cavallaria, merecida na guerra, costumados em seu tempo nas Cidades, e Villas principaes do Reyno, escaramuçar, e jugar as canas, e outras boas manhas por naõ faltar occupaçaõ honesta a toda a sorte de vassallos seus, a fazenda dos quaes sendo taõ delgada, como cada hum em sua casa vè, poderia dar vida aos Portugueses, tendo a navegaçaõ livre dos Cossarios, o que em seu tempo se fez com diligencia, e cuidado, posto que os Franceses costumados a viver de roubo, ouvessem os Castelhanos, e Portugueses por huma mesma naçaõ, e naõ perdoassem a huns, nem a outros, quando lhe cahiaõ na maõ, e à sombra de fazerem guerra aos Castelhanos, tomassem nossos Navios desarmados, e outros que às vezes se defendiaõ valerosamente com igual perda, mas ElRey D. Joaõ com armadas ordinarias encomendadas a Capitaens esforçados, e outros officios, que fazia por seus Embaixadores em França, reparava aquella força dos Cossarios com grande prudencia, tendo este conselho por mais acertado, que seguir huma parte dos bandos, entre Carlos V. e Francisco, onde se aventurava mais, e segurava menos a navegaçaõ de que seus vassallos viviaõ. As Fronteiras de Africa, que seu Pay, e Avòs tinhaõ ganhadas aos Mouros, huns com tençaõ de criarem os Portugueses na guerra, e naõ enfraquecerem no repouso da paz, outros por lhe ficarem portos abertos para a Conquista de Berberia, fortificou de novo a mayor parte dellas, sustentadas com grandes despezas, governadas por Capitaens escolhidos, provendo com muito cuidado, naõ lhes faltassem mantimentos, e moniçaõ para soster qualquer cerco, nem Navios nos portos para lhe acodir com socorro, só a fortaleza de S. Cruz no cabo de Guè (de que era Capitaõ D. Guterre de Monroi filho do Comendador Mòr d’Alcantara) cercada dos Xarifes, quando começaraõ conquistar Berberia, e traziaõ apoz si com o zelo da sua Religiaõ falsa a mayor parte dos Alarves de Africa, posto que socorrida das Ilhas, começou o inverno a crescer, e os Mouros apertaraõ o cerco, de sorte que lhe faltou o socorro de Portugal pela injuria do tempo, e os moradores desesperados delle naõ poderaõ soster os inimigos, morrendo alguns valerosamente, e outros entregues aos Mouros perderaõ aquelle lugar com quebra de algumas particulares, como foy o Capitaõ D. Guterre, mas pouca culpa da gente de guerra que fez quanto pode por naõ se entregar viva aos vencedores. Em lugar desta força ordenou ElRey D. Joaõ fortificar Masagaõ na mesma Costa de Africa, o que fez com muita despeza, e conselho de grandes Capitaens, e em parte compensou a perda do cabo de Guee com muitas victorias, que os Portugueses depois houveraõ.
Aquelles presidios de gente, que ElRey D.Manoel seu Pay, e os outros Reys seus Avòs com conselho de guerra, que aquelles tempos sofriaõ, tinhaõ repartidos pelos lugares de África sem diferença do sitio, e commodidade dos portos, acordou por parecer do Emperador Carlos V. recolher em menos fortaleza, com muito melhor conselho do que antes do seu tempo se sustentavaõ, assim porque poucas forças juntas ficavaõ mais poderosas para se defender, e os sitios escolhidos à vontade delRey mais acomodados para socorro do Reyno. Ao mesmo Emperador Carlos V. ajudou com huma armada poderosa na jornada de Tunes dissimulando como o Infante D. Luiz seu irmão, que se achou nella com muitos Fidalgos principaes, sem pedir licença a ElRey como quem sabia delle, que nisto lhe fazia serviço. Aquella armada de Solimano Emperador dos Turcos enviada pelo Estreito de Mequa, com grande esperança de lançar os Portugueses da India, desbaratou duas vezes em Dio, metendo no fundo a mòr parte della, e recobrando as moniçoens, e artelharia, perdida em tempo do Governador Nuno da Cunha, sendo Capitão em Dio Antonio da Sylveira, e depois disso, governando D. Joaõ de Castro, e sendo Capitão desta fortaleza D. Joaõ Mascarenhas, foy roto outro campo delRey deCambaya, onde se achou Cojeçofar, lançado de Europa naquellas partes com muitos Turcos desejosos de refazer a perda de Solimano, e lançar os Portugueses da India. Em seu tempo repartio o Estado da Santa Cruz, chamado vulgarmente Brasil, que Pedro Alvares Cabral levado da força dos ventos descobrio nas primeiras prayas do Mundo novo. E para se a povoaçaõ fazer com mais facilidade, e menor despeza da Fazenda Real, repartio aquella Provincia em differentes Capitanîas, e governaçoens, na forma, que os Reys primeiros fizeraõ povoar as Ilhas achadas no mar Oceano, que em poucos tempos cresceraõ com seu favor prosperas, e ricas, onde erigio Igreja Cathedral, e enviou Governador supremo para amparar em igualdade de justiça os que a naõ podiaõ alcançar dos mais poderosos, com que amansou os Gentios daquella Costa, e outros, que se escondiaõ pelo sertaõ, repartidos em suas Cabildas, sem mais contra policia, ley, ou costume, que a vontade propria: muita parte dos quaes trouxeraõ à noticia da nossa Fè Catholica os Religiosos da Companhia à instancia delRey D. Joaõ. Neste Reyno fortificou no Algarve a Villa de Lagos, offerecida aos roubos, e assaltos continuos dos Cossarios, que em seu tempo infestavaõ o mar: começou tambem a fortaleza de S. Giaõ na boca do Tejo, com o mesmo conselho, e finalmente na paz, e na guerra foy hum Principe raro, nascido para beneficio dos homens, e amparo dos pobres, e estrangeiros; verdadeiro conservador do Culto Divino, e piedade Christãa. Foy de estatura meã, muy bem assombrado nos olhos, com muita graça na boca, brando nas palavras, de bom acolhimento aos pequenos, temido dos Grandes, de grande juizo na escolha dos homens bem inclinados, porque estes lhe foraõ muito mais aceitos, que os grandes engenhos, como foy o Cardeal D. Miguel da Sylva, D. Joaõ Manoel, Luiz da Sylva, e outros, que afastou de si por terem sobeja noticia do mundo, e pouca da que convinha para tratar com o seu Principe. Adoecia poucas vezes, e nunca de doença perigosa, atè o anno de cincoenta, que o começou tomar hum sonno amadornado no meyo dos negocios, doença criada de longe por falta do exercicio, e lisonjarîa dos Medicos, que lhe naõ preveraõ o perigo desta doença, de que veyo a fallecer no mesmo dia em que se lançou na cama, alguns diziaõ, que sem testamento, nem declaração de Governador do Reyno, e tutoria delRey seu Neto. Outros affirmaõ, que Pedro de Alcaçova, que entaõ servia de Escrivaõ da Puridade, e Gaspar de Carvalho Chanceler Mór deraõ sua fé na primeira Junta, que se fez depois de sua morte, que a vontade delRey era nomear para este cuidado do Reyno, e tutoria do Principe a Rainha Dona Catharina d’Austria sua mulher por algumas razoens, que a mòr parte do Reyno approvou, principalmente o Cardeal Infante D.Henrique, a quem esta eleição delRey parecia devida, assim por sua virtude, e inteireza muy conhecida, como por direito das gentes, e costume de Hespanha, que costuma dar este cuidado aos Principes do sangue mais chegado, primeiro que as femeas: falleceo finalmente depois dos Sacramentos da Igreja recebidos com devaçaõ, e havendo trinta e seis annos, que reynava, tendo cincoenta e cinco de sua idade, a onze dias de Junho, no anno do Senhor de mil e quinhentos, e cincoenta e sete.
PANEGYRICO
À MUY ALTA,
E ESCLARECIDA PRINCESA INFANTA
D. MARIA
NOSSA SENHORA.
POR
JOAÕ DE BARROS