45 Pois notorio he a todos, como jà disse, quanto V. Alteza frequenta este acto de humildade, descendo tantas vezes de seu estrado aos pès de seu Confessor, esquecida donde vem, muito lembrada para onde vay. Passando sua vida com tanta temperança, que se algum exercicio fóra destes aceita, naõ he senaõ fundado em louvor de Deos, ou donde possaõ nascer occasioens de o servir. Porque deixada a caça, a que muitas Princesas em outros Reynos saõ inclinadas, V. Alteza comprehende os altos mysterios do Sol da justiça, como aquella aguia de mais subida altenaria, que penetrou os rayos do verdadeiro lume, onde nenhuma plumagem de Aves chega, por andar sempre esta garça taõ estrellada, que a naõ filhaõ, senaõ os que tem sua conversaçaõ nos Ceos. Em lugar de caẽs, que desassocegaõ as alimarias, tirando-as de seus agasalhados, penetra com a sagacidade, e ligeireza de seu espirito, os cavàdos das pedras, desencovando aquella fermosa pomba de Salamaõ, que he a graça do Espirito Santo, e os sentidos da Escritura, verdadeiro mantimento da alma, e quando o tempo lhe naõ dá lugar a esta caça, porque em hum ha de semear, e em outro ha de colher, gasta estes intervallos no exercicio da musica, seguindo o Real Propheta David, que com sua viola espantava o espirito mào, que atormentava ElRey Saul, levando no discurso de sua vida tal ordem, e proporçaõ com que o demonio, inimigo della foge para onde naõ hà senaõ desordens, e horrores perpetuos. E tanto fruto tem V. Alteza colhido das letras, que achando nellas quam espiritual cousa he a musica, e quanto levanta os coraçoens para o Ceo, nella se exercita, como fizeraõ muy graves Philosophos, que vendo a ordem dos Ceos disseraõ, que em suas continuas voltas com que rodeaõ o mundo, fazem huma muy suave musica, de que os nossos sentidos saõ incapazes, por exceder sua potencia, atribuindo a cada hum suas vozes agudas, e graves.
46 E os Platonicos disseraõ, que nossa alma era composta de proporçoens de musica, por onde se deleitava tanto com ella. E assim parece que sentindo os Anjos a conveniencia, que nossa alma tem com a ordem da musica, com ella nos deraõ as novas do nacimento do Filho de Deos, de que o mundo estava taõ dezejoso, cantando com suave melodia. Nem sem causa o Espirito Santo ordenou, que cantando se celebrassem os officios Divinos para nossa alma os poder melhor comprehender. Ordenando assim mesmo estromentos, cuja armonia inflamasse nossos sentidos, como saõ orgaõs, que ainda na ordem de suas frautas imitaõ a dos Anjos, que no Ceo Impirio tem suas precedencias ordenadas por Deos. A differença das quaes concerta com aquella ordenada composiçaõ de Isaias, que sem cessar cantaõ diante da Divina Magestade de Deos.
47 E por a musica ser cousa taõ divina como he, nunca se lè que a Igreja de Deos estivesse sem ella, assim no tempo da ley da Escritura passado, como no da graça presente. Testemunha he aquella trombeta, que no dar da Ley retumbava pelas faldras do Monte Sinai, testemunhas saõ os timpanos, e pandeiros de Maria, irmãa de Moyses, com que tanto festejou o naufragio dos Egypcios, e vencimento dos Judeos, e assim as trombetas de Hiericò, com a musica dos quaes os seus muros, como adromecidos, se deixavaõ cahir na terra.
48 Pois vindo ao Tabernaculo, e ao Templo de Salamaõ, sempre nelles houve estromentos de musica, com que os sacrificios se celebravaõ, que David tanto encomendava nos seus Psalmos, o qual levando a Arca do Testamento para Jerusalem, de que no principio fiz mençaõ, diz a Escritura, que elle, e o povo de Israel dançavaõ diante della, cantando, e tangendo violas, psalteiros, trombetas, e outros estromentos. E o mesmo Rey David, quando repartio os officios dos Levitas, lemos, que ordenou quatro mil delles, cujo officio fosse tanger orgaõs.
49 Cheya està a Escritura de muitos exemplos, porque claramente consta deleitarse Deos com a musica, a qual por experiencia se vè tem muito grande força nos coraçoens dos homens, por onde os que della tiveraõ conhecimento, vendo quanto podia em todas as cousas a levaraõ à guerra, ordenando trombetas, e outros estromentos, com que os homens, e ainda os cavallos cobrassem esforço no rompimento das batalhas, e no andar, e proceder dos esquadroens, guardassem a ordem, que ella em si tem.
50 E os que no exercicio da caça se deleitaõ, também entenderaõ, que atè aos brutos animaes chega a doçura, e conhecimento da musica, como diz Strabo dos Elefantes, e Plinio dos Cervos, que huns com cantigas, e timpanos, e outros com frautas pastoris se amançaõ. Cousa notoria he, e muy sabida, o que conta Herodoto, e outros Authores, dos golfinhos, que saõ taõ dados a esta deleitaçaõ, que o grande musico Ariaõ foy livre do naufragio do mar por hum golfinho, que o salvou, conhecendo ser aquelle, cuja voz ouvira em o Navio, que seguia.
51 E naõ se acha gente por barbara, que seja, que naõ tenha sua musica, mà, ou boa, segundo o que cada hum della alcança, como vemos em toda a terra de Ethiopia, cujos naturaes entre nòs saõ testemunhas desta verdade, levando ordem, e compasso em seu tanger, ainda que seja barbaro, e os rusticos do campo, a que naõ faltaõ suas gaitas.
52 Que posso dizer dos passarinhos, cuja melodia tanto deleita as orelhas dos homens, que os tem encarcerados, e prezos para esse fim. Entre os quaes se bem olhamos a differença das vozes, e armonia, que o reixinol faz com sua garganta, que Plinio por outra tanta diversidade de palavras explicou; acharemos, que todas as proporçoens da musica estaõ encerradas no papo de hum taõ pequeno animal, como he este passarinho.
53 Nem as agoas parece, que carecem deste sentido nos rumores, e roucos estropidos, que por entre os sexos, e pedras dos rios vaõ fazendo, que a nossos sentidos causaõ deleitação, e saudade. E assim mesmo nos ventos temperados do Veraõ com os zunidos, que fazem, movendo as folhas das arvores, tambem se acha huma certa semelhança da musica. Donde nasceo (a meu juizo) fingirem os Poetas, que Orpheo levava consigo os homens, e brutos animaes, com as arvores, e rios, dando a entender, quam geral he a força da musica, que em todas estas cousas tem jurisdiçaõ.
54 E vindo aos corpos humanos, que cousa he a saude, senaõ huma concordancia dos quatro humores, da discordia dos quaes, que se segue, senaõ enfirmidades, e màs disposiçoens? Nos tempos do anno naõ he claro, que quando as quatro qualidades primeiras guardaõ entre si boa, e ordenada temperança, que se faz huma excellente musica taõ necessaria à vida dos homens, como saõ boas novidades de mantimentos? E quando saem fóra daquella regra, para que foraõ criados, naõ fazem ellas Sol, quando se dezejava chuva? E chuva, quando he necessario Sol, com que os ares corruptos causaõ pèstes, e outras infirmidades, assim na gente, como nos animaes necessarios? E a cerca dos dòtes corporaes, e graça, que mais he, e fermosura do rosto, que huma conveniente proporçaõ dos membros? Que contem modo, ordem, e figura na ordem dos intervallos das partes, no modo, a quantidade dellas, na figura, as cores, e os traços. Das quaes cousas entre si bem ordenadas, resulta huma certa armonia apartada da materia, a que chamamos fermosura.