36 O Emperador Antonino naõ foy bom Philosopho, e bom Capitaõ? Carlos Magno naõ trazia nos exercitos ao grande Alcuino, cujas obras saõ hoje ornamento da Igreja? A ElRey D. Afonso de Castella naõ lhe deraõ suas tavoas nome de Sabio? Ao de Napoles deste mesmo nome, vosso Tio filho delRey D. Fernando de Aragaõ vosso quarto Avò taõ excellente Cavalleiro, e singular Capitaõ, de cujos louvores estaõ cheyas as Chronicas Napolitanas; que mais posso dizer em louvor das letras, senaõ que trazia por divisa hum livro aberto: porque dizia João de Issera, homem de muy grande juizo, que se elle naõ fora Rey, fora muy grande Philosopho. O qual lendo hum proemio, do que tradusio em lingoa Castelhana, os livros de Santo Agostinho De Civitates Dei, achou huma sentença, que dizia que o Principe idiota era hum bruto animal coroado. As quaes palavras lhe pareceraõ taõ bem, que nos negocios, na guerra, em suas prizoens, e adversidades, nunca deixou de ler, ouvir, argumentar, praticar em letras, e no Campo em seus exercitos trazia consigo hum Mestre Martinho, com quem communicava seu estudo. Tradusio as Epistolas de Seneca em Espanhol, teve grande conhecimento das historias, grande noticia dos Poetas, e Oradores, soube muitas conclusoens de Philosophia natural, e tanto estudou na Sagrada Escritura, que se louvava ter lido o Testamento velho, e novo, quatorze vezes, com suas grozas, e commentos; respondia, e praticava como Theologo consumado em materias theologaes arduas, e dificultosas, como saõ da presença de Deos: De Liber arbitrio, de Trinitate, de Incarnatione Verbi Dei, de Sacramento Eucharistiæ. E dizia, que naõ avia melhores homens de conselho, que os mortos, que careciaõ de odio, favor, ou temor, respeitos, a que os vivos pela mayor parte saõ sugeitos. Dizem delle, que nos sacos dos lugares, nenhum despojo lhe era taõ agradavel como o dos livros, os quaes trazia sempre, como jà disse, nos caminhos, e exercicios, principalmente os Commentarios de Cesar, e Tito Livio, a que era affeiçoado. E na conversaçaõ domestica se servio de Bertholameu Fascio, singular historiographo, e Orador, de Georgio Trapezuncio, de Lourenço de Valla, doctissimos, hum na lingoa Grega, outro na Latina, de Joaõ Aurispa Siciliano, que escreveo muitas Epistolas, e Livros moraes, e de Antonio Panormitano Bolonhes, que escreveo hum Livro dos ditos, e sentenças do mesmo Rey D. Afonso, todos Baroens doutos, que no seu tempo floreceraõ.
37 Quiz fallar muito de taõ singular Rey, porque sua vida, e costumes, parece que confirmaõ o nosso proverbio, que diz: As letras naõ despontaraõ a lança. E certo naõ sey que sains mais amolados possaõ ser, que armas guiadas por conselho de prudente Capitaõ? E que muitos tragaõ em pratica: Que farà aqui Plinio, graça que hum homem disse em huma afronta a outro na Villa de Alcacer Ceguer; saõ cousas favorecidas daquelles, que por naõ saberem letras, querem authorizar este defeito com ditos alheyos, dignos de muita reprehençaõ, porque certo naõ ha ahi homens mais prejudiciaes às cousas dos que os que carecem dellas, que como esta privaçaõ seja causa de seu abatimento, querem-se sustentar com graças, quando lhe faltassem boas razoens.
38 Esta verdade confirmaraõ os Infantes D. Pedro, e D. Henrique vossos tios, cujas armas tanto honraraõ estes Reynos, que ainda hoje os livros, que hum compoz, authorizaõ a livraria delRey nosso Senhor, e o Mundo, que o outro com sua Mathematica começou a descobrir que ElRey vosso pay, com muito acrescentamento conquistou, està cheyo de seus louvores. E nisto cuido eu que o Infante D. Pedro quiz significar quam necessarias eraõ nos Principes, a Filosofia, e as armas, pois Tulio, de Officiis, e Vigecie, que destas duas cousas escreveraõ, traduzio em lingoa Portuguesa.
39 Tornando ao proposito, bem claro mostra Vossa Alteza nos livros, que tem por ornamento de sua Casa, que procede do sangue deste taõ glorioso Rey de Napoles, que taõ boa memoria de si deixou ao Mundo, e a seus descendentes, exemplo com que aprendessem a ser Filosofos na paz, e Cavalleiros na guerra, pois que os livros mais alimpaõ as armas, do que as danaõ, e que Vossa Alteza as naõ exercite por lhe naõ ser dado, tem logo outras espirituaes de tanta força, que sem ella as materias perderiaõ a sua. Cà o animo onde se acha prudencia, fortaleza, justiça, e temperança com a verdadeira fè do que se deve crer, que cousas começarà, que naõ acabe? Ou como acabarà a memoria das que começar? Obedece o ferro à industria, as armas ao conselho, a gente ao Capitaõ, e como diz Salustio muito tempo durou entre os homens esta profia, em que consistia mais a virtude militar, se nas forças corporaes, se nas do animo, e posto que humas tenhaõ necessidade das outras, todavia pelo tempo, e experiencia se achou, que na guerra, o saber valia mais. E certo que muitas vezes, lendo os notaveis feitos das Amasonas, que em armas fizeraõ, me faziaõ muita duvida, parecendo-me que em mulheres, que a natureza naõ criou para o tal exercicio, senaõ podia achar tanta perfeiçaõ, a qual me tirou Valasca, de que conta o Papa Pio II. que com Exercitos de mulheres senhoreou sete annos o Reyno de Boemia, vencendo muitas batalhas campaes, e fazendo feitos em armas de muy esforçados cavalleiros. E Joanna, de que conta Gaguino, que vulgarmente chamamos a Poncella, cujo esforço, e prudencia militar restituio o Reyno de França a ElRey Carlos VII. deste nome, posto que naõ acabasse conforme a seus merecimentos, as quaes nos tiraraõ a duvida de outras mais alongadas de nossa memoria, como Symiramis, que governou tantas Provincias, Dido, que edificou huma tão nobre Cidade, e Thomiris, que matou a ElRey Cyro.
40 Assim que com estes, e outros exemplos de mulheres, que nas armas floreceraõ, e administraraõ Reynos, naõ duvido eu (Illustrissima Princesa) que trazendo o tempo taes necessidades, que fosse necessaria sua prudencia, e conselho, para governar gente armada, que se acharia nella tão perfeito, como se achou na Rainha Dona Isabel vosso visavò, cujo favor, e esforço ajudou a lançar fòra os Mouros de Espanha, que de setecentos annos, e mais a senhorearão por força de armas, a qual foy vista nos Exercitos, e perigos da guerra: mas como o tempo não ordene tal cousa, Vossa Alteza o gasta em outras, de que naõ merece menos louvor do que estas tiverão, que pouco ha nomeei, as quaes posto que venceraõ homens algumas dellas, naõ venceraõ a si mesmas, senaõ que o seu he tanto mayor, que a vitoria dos inimigos de casa, he mais louvada, que a dos de fóra. Porque segundo diz Marco Tullio, como poderà ser senhor aquelle, que o naõ he de suas paixoens? Refree primeiro os vicios, despreze as deleitaçoens, reprima, e detenha a ira, vença avareza, e lance de si as nodoas do animo, e entaõ comece a senhorear, depois que deixar de servir.
41 Dizia o grande Agessilào, vendo que os Persas louvavaõ, e senhoreavaõ hum Rey da India, que tinha grandes thesouros: porque serà elle mais rico, pois naõ he mais temperado? Querendo dizer que as forças dos Principes naõ estavaõ nas pedras preciosas, e Elefantes da India, senaõ em a temperança da vida, que he a verdadeira Filosofia, e o verdadeiro fruito das letras, inventadas para assentar os homens em hum honesto modo, e boa ordem de viver. Mas como seus donos se servem dellas para valer, e naõ para merecer, saõ como os vazos avinagrados do Poeta Horacio, que diz:
Nisi purum esi vas omne quod infundis acrescit.
42 Ao qual proposito dizia o Filosofo Epitheto a hum homem de bom engenho, e mal inclinado, que desejava, e trabalhava por saber. Ó homem, olha se he limpo o vazo em que tanta cousa lances. E certamente, assim como a ignorancia dos Governadores idiotas he prejudicial à Republica, assim a malicia dos Letrados he causa de muitos males, principalmente a daquelles, que tem officio de ensinar bons costumes, que se as obras naõ respondem às palavras, perdidas saõ quantas lhe caem dos pulpitos abaixo. Por a obra ser de tanta força, que mudo brada, e callando grita, com que comprehende estas duas cousas, fazer, e dizer; e a palavra sem obra he só, e naõ tem virtude para dar raizes na terra, onde acertou cahir: contra estes, que esperdiçaõ a Doutrina de Deos, fazendo o contrario do que dizem, e prégaõ, diz Paulo, que naõ escaparaõ da sua justiça, pois nas sentenças que daõ contra os outros, condenaõ a si mesmos.
43 Como cheguey à altura deste conceito, e conhecimento, tudo o que descobri foraõ louvores de Vossa Alteza, porque era qualquer dos rumos, em que o tempo me poz, em todos ouve vista de suas obras, taõ juntas aos livros, que parece naõ sahir fóra da margem do que nelles le. Cà se o jejum tem merecimento diante de Deos, quem melhor guarda este preceito, e com mais louvor? Pois, sendo criada na abastança de todas as cousas, que pertencem a seu estado; sem o trabalho de as adquirir, por servir a Deos, e merecer ante elle, se poem em necessidade dellas. Que notorio he a todos com quanto trabalho se resiste à criaçaõ, que padecem mais facilmente esta falta da mantença corporal os moradores da parte Meridional, que os de Setemtriaõ, por huns viverem em terra fria, e outros em quente, que obra diversos effeitos, mais o rustico, que o bem nascido, pelo costume, mais o velho, que o moço, pela deminuiçaõ de calor natural. Assim quer Vossa Alteza, sobejando-lhe as cousas de sua propria vontade, exprimentar o carecimento dellas, por respeito de virtude, certo he muy grande louvor, e merecimento, pois naõ tem necessidade, a quer sentir, forçando sua vontade por comprir a de Deos, desprezando tanta diversidade de iguarias, com tanto artificio compostas. Quem serà com taes exemplos mào Christaõ? E se o for, que escusa terà com Deos, estando à conta com elle, que lhe ha de ser tomada taõ estreita: podemos logo com muita razaõ dizer, que a liçaõ dos jejuns, que Vossa Alteza le da Rainha Hester, e de Elias, e S. Joaõ Bautista, e a obra com que os guarda, tudo junto anda enquadernado.
44 E se viermos ao sacrificio da oraçaõ taõ louvado na Sagrada Escritura, qual Religioso com mais cuidado, diligencia, e continuaçaõ reza suas horas por obrigaçaõ, que V. Alteza sem alguma? Naõ lhe faltando dia em que naõ ouça os officios Divinos, confessando-se tantas vezes no anno, e tantas vezes recebendo o Santissimo Sacramento do Altar. A communicaçaõ dos quaes, como sabe que daõ graça, assim trabalha pela merecer com elles. Certamente, que considerando muitas vezes a humildade de hum Principe bom Christaõ, se me representa, a ventagem, que nossa Fè tem às seitas, e falsas Religioens, que foraõ, e saõ ao presente: porque de quantos Principes, e Emperadores nellas houve, naõ se lé haver algum, a que a obrigaçaõ de sua Religiaõ fizessee taõ humilde, e taõ sogeito, como saõ os nossos. Os quaes vendo-se de huma parte rodeados de tantos criados, e servidores com tanto resguardo, e acatamento às suas pessoas, que os olhos naõ empregaõ em outro objecto, senaõ em o do Principe, para que em acenando, os seus jà executem, naõ sómente o que dizem, mas o que adivinhaõ, que querem. E da outra posto de joelhos diante de hum pobre Religioso seu Confessor, e de tal maneira, posto que naõ sómente lhe diz as culpas, e peccados, que commete, mas o pensamento que teve, ou tem de as commeter, pedindo-lhe sobre tudo penitencia, e castigo dellas; taõ obediente, e aparelhado a comprir quanto saõ seus Vassallos a lhe obedecer, somente nisto saõ differentes, que elle o faz de coraçaõ, e os seus às vezes de mà vontade, fingindo-a boa por lhe ganharem a sua. Cousa he certo de muita admiraçaõ, vontade de tantas obedecida, obedecer a huma só, sugeitar-se a hum homem, aquelle a que tantos saõ sugeitos, reduzir-se a hum só lugar huma jurisdiçaõ taõ estendida, por Reynos, e Provincias.