26 No que se conhece claramente quam alto engenho, quam altos, e verdadeiramente reaes espiritos saõ os de Vossa alteza, que quer preceder às outras mulheres naquella parte em que os homens precedem aos outros. Naõ se contentando de lhe fazer tanta ventagem nos bens, que teve de seu alto nascimento, cà nasceo Princesa, nasceo filha de Rey, e levantada em estado, e pureza de sangue sobre muitas. Mas como isto se deve à natureza, quiz Vossa Alteza, que lhe devessem a sabedoria, ganhada por sua industria, e trabalho, que he a melhor cousa, que nesta vida os humanos pòdem ter, com a qual muitos ganharaõ estado, e outros por falta della os perderaõ, como poderiamos ver por exemplos, senaõ fosse contar historias, de que Vossa Alteza tanto conhecimento tem, e sòmente bastarà dizer como muitos Cesares ganharaõ, o que Sardanopalos, Tarquinios, e Dionysios perderaõ.
27 Fazenda he a sabedoria izenta da jurdiçaõ da fortuna, a qual, como diz Seneca, naõ toma, senaõ o que dà, o fogo gasta o ferro, o mar alaga Cidades, terremotos as derrubaõ, rayos espantaõ o Mundo, armas o senhoreaõ, sò o saber de homem he livre destes perigos, porque nem o tempo, que o mesmo Seneca chama sepultura de todas as cousas, o gasta, ou a morte o senhorea, que com elle mediante a graça Divina fazemos o caminho para a gloria, que esperamos. E assim dizia Byas Prienense fugindo da Patria, que deixava tomada dos inimigos, naõ levando mais que sua pessoa, e hum bordaõ, que tudo levava consigo. E se quizermos particularmente considerar as cousas, qual averà, que sem letras divinas, ou humanas se possa fazer? Como navegariamos as terras ignotas, que comercio, que noticia huma gente afastada por tantos intervallos de mar, e terra, teria das outras, sem a sciencia da Astronomia? Que communicaçaõ, ou que prestança das mercadorias averia sem navegaçaõ? Como se edificariaõ Navios, Casas, Templos, e Fortalezas com suas maquinas, taõ necessarias à vida, e policîa dos homens sem arquitetura? Como se governariaõ as Cidades, Reynos, e Respublicas, sem Filosofia moral? Como sem a natural se exercitaria o uso da agricultura taõ necessaria a mentença dos homens? E decendo ao particular das artes mecanicas, como nos aproveitariamos dellas, senaõ fosse por meyo das Mathematicas? Como tiveramos a musica pratica sem a especulativa? Com tanta diversidade de estromentos, taõ necessarios, assim à Religiaõ, e Culto Divino, como para a guerra, e deleitaçaõ da vida? Que remedio para nossas infermidades, com que os corpos humanos por taõ diversas vias saõ offendidos, senaõ fora a medicina? Pois vindo ao espiritual, que fora de nossas almas sem a Divina Sciencia, que nos ensina o caminho, que avemos de seguir para a salvaçaõ dessas, remate de nossa bemaventurança? Em fim, porque meyo os homens communicariaõ essas sciencias com os prezentes, e futuros, sem letras? Certamente que examinando bem isto, parecem indignos da potencia intelectual, que he imagem, e semelhança de Deos com que fomos criados, os que desprezaraõ o verdadeiro ornamento, e atabio dalma, que he a sabedoria. A qual, como diz Nazianzeno, he Princesa, e inventora de todas as cousas, e em si as comprehende: do nome da qual se quiz Deos intitular, chamando-se Sapiencia do Padre; e quam necessaria ella seja nos Principes, Salamaõ o diz: por mim reinão os Reys, e os Principes senhoreão.
28 E para mais verificarmos isto faremos huma parabola imitando aquelle, que para todos se fez unico exemplar. Finjamos hum Rey tão zeloso da paz, e liança de todos os brutos animaes, que mandasse ajuntar quantos ahi ha diferentes em genero, e especie, para que metidos em hum curral juntos, os entregasse a hum pastor, de que tivesse experiencia, e confiança, que os trouxesse a tal concordia, que o Leão não comesse o Lobo, nem o Lobo ao Carneiro, o Galgo naõ filhasse a Lebre, nem o Açor a Perdiz, de tal modo, que esquecidos de sua braveza natural uzassem de toda a brandura, e mansidaõ; e que Pastor averia por muito atrevido que fosse, que naõ dissesse o que Moysès dizia a Deos: Senhor manda quem as demandar, por o tal cargo requerer, naõ digo hum grande e consumado saber humano, mas ainda a hum Divino inspirado por graça? Pois o Rey, que isto quiz fazer foy Deos Eterno, que ordenou na terra o governo dos Reys, e Principes, ficando-lhe na mão o coraçaõ delles, como quem sabia que tamanho officio, sem sua ajuda muy particular senaõ podia bem administrar. E os animaes, que tanto lhe encomendou saõ os homens, que deixando o caminho da rasaõ seguiraõ o dos brutos. Cà, segundo Paulo: Justis non est lex posita. Donde nasceo a meu juizo fingirem alguns Filosofos, entre os quaes foy Plataõ, que as almas dos homens se trespassavaõ em corpos de diversas bestas, similhaveis aos costumes, que tiveraõ o dos Tyranos, e Principes em Lobos, Falcoens, e Milhanos, e os dados aos vicios da gula, e perguiça em asnos, introduzindo daquelle Herpamphilio, que disse ter visto a alma de Orpheo metida em hum Cisne, e de Aiax em hum leaõ, e a de Agamenon em Aguia, e em hum bugio a de Tersires Homerico, querendo significar, que nenhuma differença tem de brutos, os que vivem como brutos, e que a semelhança dos costumes lha faz igual a natureza; E dizerem as fabulas, que Acteon foy convertido em Corso, naõ he outra cousa senaõ, que pelo muito exercicio, e continuaçaõ da caça se fez agreste, e semelhavel aos animaes com que tratava; e tornando ao proposito, assim como entre estes hà tanta differença quanta vemos, assim nos homens se achaõ ainda mais differentes condiçoens de vida, e costumes, que na diversidade dos brutos. Cà saõ homens, e mulheres, casados, e solteiros, leigos, e Sacerdotes, nobres, e baixos, pobres, e ricos, moços, e velhos, senhor, e vassallos, rusticos, e politicos, discretos, e ignorantes, covardes, e animosos, irosos, e manços. Alèm destes màos, e bons, cobiçosos, roubadores, homicidas, onzeneiros, adulteros, sacrilegos, perjuros, hereges, e blasphemos, como vemos em quantos generos de maldades cabem no coraçaõ humano, a que he inclinado de seu nascimento, que cada cousa destas obra, differentes effeitos, e de huma maneira se ha de tratar o senhor, e de outra o vassallo, de huma o Leigo, de outra o Sacerdote. E como Hipocrates manda aos Medicos, que conheçaõ a idade dos enfermos, o tempo, a Região, e a infirmidade; assim o Principe no corpo mistico da Republica ha de ter tal regimento, que a medicina applicada a hum membro naõ dane o outro, que saõ as leys, a que Plataõ chama verdadeiro mantimento do povo: como fazia Paulo na Prègaçaõ do Evangelho, que aos fracos na Fè dava leite, e aos criados nella paõ com codea.
29 Pois que animal mais indomito, e fero pòde ser, que o homem injusto? Quantos males, e danos, quantas destruiçoens de povos, perdas de Reynos, e de almas nascem dos homens? A que o exemplo do castigo alheyo naõ aproveita para emenda propria; quantos cutellos ensangoentados, quantas execuçoens de justiça criminal vem cada dia ante seus olhos, os que sem temor destas penas cõmetem crimes dignos de morte? Podendo nelles mais a malicia, que o temor; pois qual saber humano poderà governar taõ differentes vontades, e trazellas a huma mesma concordia das leys?
30 Pelo mesmo modo contaõ os antigos, que foy hum certo tempo, em que os homens viviaõ nos campos, e sustentavaõ a vida, como bestas feras, fazendo as cousas mais por obra das mãos, que por arte, nem razaõ, carecendo da Religiaõ, sem casamento, nem amor de filhos, por os naõ terem certos, sem conhecimento de leys, de tal modo, que com esta ignorancia, e error andava a concupiscencia cega, senhora da razaõ, usando de forças corporaes, como de gente armada para satisfaçaõ de seus appetites. No qual tempo se levantou hum homem sabedor, e vendo quanta efficacia, e proveito para muitas cousas jazia escondida no animo dos homens, se pudesse trazer à luz, e acrescentar com doutrina; andando huns espalhados pelos campos, jazendo outros metidos em covas sylvestres, os ajuntou em hum lugar, e lhes ensinou o caminho, que haviaõ de seguir, acerca do que tocava ao prol commum de todos. Os quaes posto que no principio fossem màos de ajuntar, toda via pouco, e pouco, de feros, e salvaticos que eraõ, os fez domesticos, e racionaes.
31 A este proposito, cuido que diz a Escritura, que a Sapiencia edificou para si huma casa, e cortou sete colunnas, querendo dizer (naõ fallo agora nos sentidos espirituaes) que naõ buscou quem lha edificasse, e escusou ajudas, e mestres, porque nella havia tudo, o que naõ tem a ignorancia, que com todas as achegas postas em casa a naõ levantaria de sobrado. Por este homem sabedor podemos entender o Principe, o qual posto que tenha sua Republica unida com leys, e direito Divino, sempre se achaõ em todo o tempo, e em todo o estado homens (como pouco ha disse) desobedientes a toda a razaõ, que como aquelles primeiros andaõ fóra de toda a ley; naõ guardando a ordem matrimonial, sem Religiaõ, e temor de Deos, e nos manjares como bestas obedientes à gula, e ao ventre, vivendo fóra da commum habitaçaõ dos outros, matando, e salteando pelos despovoados, os quaes o Principe por força, e por arte ha de levar à domestica doutrina da razaõ, e fazer com que o lobo ande em hum mesmo pasto, como o cordeiro.
32 Aqui poderia eu dizer (prudentissima Princesa) que nella se pòde mostrar este grande homem sabedor, que meteo os outros no caminho da verdade. Que dias hà, que este vosso povo derramados pelos desertos deshabitados da razaõ, espera por V. Alteza. Grandes caminhos se me abriaõ aqui de seu louvor, mas diraõ, que não guardo o decoro, que devo à patria em publicar seus defeitos por ser mãy, que me gerou. Ó grandissima prudencia delRey Nosso Senhor entregar neste tempo hum povo a quem o havia de restituir a estado de mayor quietaçaõ, e repouso. Grandissima clemencia de V. Alteza, aceitar a governança delle pelo salvar. Certamente que naõ sey o que mais louve, se a prudencia de hum, se a clemencia do outro, igual he a divida, igual o louvor, igual a obrigaçaõ.
33 Muito devemos a ElRey, que nos deu a taõ alta Princesa, muito devemos a V. Alteza, que nos aceitou por seus. O singular, e nunca ouvido genero de liberalidade, taõ diverso, e taõ igual à delRey Nosso Senhor em dar, e a de V. Alteza em aceitar. Naõ sey o que diga por este taõ bom dia como nos amanheceo, e se disser alguma cousa, que posso dizer, senaõ o que diz o Poeta: Jam redit & virgo, redeunt saturnia regna. E elle a seu proposito, e eu ao meu. Quem serà taõ desconhecido, que seja ingrato a esta mercè? Quem taõ ignorante, que a naõ conheça? Quem taõ cego, que a naõ veja? Quem taõ mudo, que a naõ publique? Quem taõ sofrido, que a cale? Quem taõ rustico, que a naõ estime? E naõ entenda o tempo, em que ElRey nos buscou remedio de nossas enfirmidades, com que temos a saude certa, e a prosperidade segura. Nem podia sahir tal conselho, se naõ de Principe taõ dado às letras, e taõ favorecedor dellas. Nas quaes como naõ tenha pequena parte, assim buscou quem a tivesse muy grande, que as cousas naõ pòdem ser bem julgadas, senaõ por aquelles, que tem verdadeiro conhecimento dellas.
34 Vio bem Sua Alteza, que a jurisdiçaõ das letras se estendia tanto pela Universidade das cousas, que nenhuma se podia fazer sem ellas, que estes Cesares, estes Scipioens, e Anibaes, e todos os mais, que nas armas floreceraõ, entre ellas senaõ desprezavaõ dos livros. Como de Alexandre se lè, que achando no despojo de Dario huma caixa muito rica de maravilhoso artificio, que servia dos cheiros, e perfumes delRey, mandou (contra opiniaõ de alguns) que para outros usos a deputavaõ, que lha guardassem para a Illiada de Homero. Era taõ sofrego das letras, que por Aristoteles publicar huns livros, que compoz da Metaphysica, o reprehendeo disso, querendo reservar para si o uso delles: sómente como diz Seneca, em estudar Geometria errou, porque havia de saber quam pequena era a terra, da qual a mayor parte tinha occupada, com que ficava falso o nome de que se intitulava de Grande Alexandre.
35 E naõ lemos, que a Mathematica de Archimedes defendeo por muitos dias Çaragoça aos Romanos? E que as artes liberaes de Gallo Sulpicio, como diz Valerio Maximo, foraõ causa da grande victoria, que Lucio Paulo Capitaõ Romano houve contra os Persas, porque espantado o exercito do ecclipse da Lua tinhaõ perdida a confiança da victoria, o qual elle lhe restituyo, provando pela ordem dos Ceos, que o desfallecimento deste Planeta era natural, e naõ prodigioso.