17 Naõ fallo nas colunnas de Hercules, postas na Ilha de Cales entre o fogo de nossas casas, que assentou como no fim de toda a terra, que neste tempo saõ riscadas da memoria dos homens, e postas em todo o silencio, e esquecimento, com outras mais altas, que por vosso sangue foraõ assentadas na derradeiras partes orientaes do mundo, mais proveitosas a elle por serem as em que Christo poz suas espadoas, do que foraõ as de Hercules, com que se perderaõ tantas almas.
18 Muito havia a cerca disto que dizer, mas basta mostrar o caminho, para que vejaõ o que tinha por passar, se disso quizera escrever. Mas deixaloey para dizer que de taes dous troncos como estes, naõ podia nascer senaõ V. Alteza, em que claramente se vè ser filha de tal pay, por quem Deos taes cousas obrou, e irmãa de tal irmão, conservador, e augmentador dellas; e sobre tudo criada na doutrina familiar, e exemplos da Rainha Nossa Senhora vossa Tia, em que tanto florecem as virtudes, que parece acharem nella descansado aposento. Em cuja Casa, que podemos chamar Escola de santa doutrina, V. Alteza foy ensinada nos preceitos da nossa Santa Fè, que inda isto deveis à Divina Clemencia, que alèm de vos fazer filha da Rainha Christianissima, Bisneta delRey D. Fernando, que por excellente Christaõ, mereceo o nome de Catholico, filha de outro Rey, que dos infieis (como pouco hà disse) foy novo Apostolo, e irmaõ delRey Nosso Senhor, maravilhoso reformador da Religiaõ Christãa, isto, como digo, deveis a Deos, que vos deu taõ santa criação, com que pudesses conservar esta inclinaçaõ, herdada de vossos progenitores.
19 O que bem claro se mostra em V. Alteza, pois que seu modo de vida fóra de Religiaõ, pòde ser aos Religiosos espelho, e doutrina de bem viver. É certo eu naõ sey, que mais virtuosos costumes, santas mulheres possaõ ter na Clausura dos Mosteiros, e vida solitaria do hermo, que V. Alteza nos Paços Reaes tem, onde vive em Corte, e ajuntamento de gente. Pois que a continuaçaõ de suas oraçoens, a muita participaçaõ dos Sacramentos da Confissaõ, e Eucharistia, de que tantas vezes por graça Divina se faz participante, manifestaõ ter dentro em seu coraçaõ grandissimo fervor da Fè de Christo. Cousa muito de estimar nos Principes, que como sejaõ huma fonte publica de que seus Vassallos haõ de tirar agoa de bons costumes, e saã dotrina, como a Religiaõ seja aquella, em que consiste toda a nossa bemaventurança, nenhuma virtude parece dar taõ grande ser à pessoa do Principe, como he o zelo, e amor de Deos, em cuja maõ estaõ os estados da terra. O qual no dar da ley, e mandamentos que deu, naõ sómente deste preceito, que avia de ser fundamento de todas vossas obras começou, mas ainda quiz que o homem se entregasse todo a elle, dizendo: Amaràs a Deos de todo teu coraçaõ, de toda tua alma, e de todas tuas forças, como sapientissimo edificador, que para levantar o edificio de nossa alma, em seu amor, mandou que todas as achegas de nossas potencias, e sentidos trouxessemos para sua fortaleza. Porque derribado este principal baluarte, pelas maquinas com que o demonio nos combate, que aproveitaria ter justiça, prudencia, fortaleza, e temperança, ou como efles se poderiaõ chamar virtudes, faltando a do amor de Deos, cunho com que nossa Moeda hade correr diante delle?
20 O que vendo o Bemaventurado S. Joaõ, e considerando a grandeza desta virtude da Caridade, quanto precedia às outras suas companheiras, naõ achou com quem a comparasse, senaõ com Deos, dizendo: Deos he caridade. Porque assim como elle he infinito, assim esta virtude tendo as outras seus termos, hade permanecer com nossa alma sem fim, que a fé, e esperança seus termos, e tempos tem, em que se haõ de acabar, sò a caridade vive, e reina na gloria dos Santos, dando a cada hum os quilates, que com elle mereceo, e sendo esta virtude a todos necessaria, mais o he aos Principes, que tem governança de povo, como nosso Redemptor significou perguntando tres vezes a S. Pedro se o amava, como quem se queria affirmar, no que fingio querer saber para doutrina nossa, cà Deos como penetra o intrinsico de nossos coraçoens, bem sabia que o amava S. Pedro, mas preguntando-lhe a derradeira vez: Pedro amas-me mais que todos? E respondendo o Discipulo: Senhor tu sabes bem que te amo, dando a elle mesmo por testemunha de seu amor: entaõ lhe encomendou a governança de seu povo, dizendo pasta minhas ovelhas; assim o Principe que naõ amar a Deos, mal pòde governar as ovelhas, que delle recebeo para o regimento das quaes se requere Divina sabedoria, cujo principio, como diz o Profeta, he temor de Deos, porque assim como o Pay de familias, que encomendou ao servo a governança de sua fazenda, e familia, pela boa conta que della lhe deu, conheceo o amor que lhe tinha: assim no cuidado, que o Principe tem de seu povo, vè Deos se o ama, e lhe dà o galardaõ, ou pena, conforme ao que merece.
21 Donde vemos estados de Principes desfeitos por se apartarem de Deos, e outros levantados por chegarem a elle. Exemplo pòde ser ElRey Saul, que perdeo seu estado, e vida; e o çurraõ, e cajado de David, levantado em Ceptro Real, o qual dizia: Mihi autem adhærere Deo bonum esi. Lemos Constantino ser exalçado por exalçar a Fè, e Juliano por della apostatar, morrer morte desestrada, e deshonrado. Vimos derribada a soberba de Maximo por Theodosio, e a elle por obedecer aos mandados de Ambrosio seu pastor, dar-lhe Deos o espirito profetico de Joanne Anachorita, como oraculo, porque se regesse em seus trabalhos, e fortunas: O os ventos acudirem ao som de suas trombetas, empuxando as batalhas dos inimigos, e peleijarem de sua banda, de que o Poeta Claudiano fez mençaõ nestes versos, e Augustinho tanto celebra.
Omnium dilecte Deo cui fundit ab antro
Aeolus armatas hyemes, cui militat æther,
Et conjurati veniunt ad classica venti.
22 E naõ somente vimos o pezo da maõ do Senhor sobre aquelles, que immediatamente foraõ contra a sua honra, e o desconheceraõ por Senhor universal, negando-lhe a adoraçaõ de latria, que como a Deos lhe pertence, dando-a ao demonio, como o fizeraõ os que adoraraõ o bezerro no Deserto em tempo do graõ Profeta Moysès, e os que encurvaraõ seus joelhos diante de Baal, no tempo do Santo Elias, e outros de que faz mençaõ a Escritura, mas ainda aquelles, que com pouca reverencia trataraõ o Culto Divino, ou com descuido, e negligencia se ouveraõ a cerca delle, naõ escaparem de sua ira, como lemos de Oza, que indevidamente tocou a Arca do Testamento; de Nabab, e de Abiud, que ofereceraõ fogo alheyo; de Dataõ, e Abiraõ, que rebelaraõ contra Moysès; e do outro, que apanhou a lenha no dia do Sabbado; de Ananias, e Saphira sua mulher, que defraudaraõ do preço do agro, mentindo ao Espirito Santo, e de outros muitos, assim Principes, como pessoas particulares, de que està cheya a Escritura Divina. Em fim o cativeiro de Babilonia, e desterro universal de todo o judaismo, com a destruiçaõ do Templo, e daquella Cidade Real, senhora das gentes, que foy senaõ castigo do apartamento de Deos, e da morte de seu filho, que vindo para as ovelhas perdidas da casa de Israel o puzeraõ na Cruz em galardaõ de suas obras?
23 E naõ somente entre os Judeos, a quem se Deos naquelle tempo quiz communicar com preceitos familiares, do modo com que o aviaõ de servir, mas ainda entre os Gentios, como Egypcios, Asirios, Medos, Persas, Gregos, e Romanos, e entre todos aquelles, que tiveraõ Monarquias, em todas suas historias, quasi naõ lemos outra cousa, senaõ em quanta estima era entre elles tida a Religiaõ, de que Valerio Maximo escreve tantos exemplos. E aquelles, que mais a guardaraõ, e veneraraõ, posto que fosse sem a fè, que ao presente temos, foraõ por isso, e por suas virtudes, com que ajudaraõ a Patria, mais favorecidos no estado, e fortuna do Mundo. Como Alexandre, que entrando em Hierusalem adorou o nome de Deos, que o Sacerdote mayor trazia na testa; e como diz Agostinho: Receperunt mercedem suam, por ainda a sombra da virtude naõ ficar sem galardaõ. Por onde podemos crer que a Religiaõ, que entre estes se guardava, ainda que era contra seu louvor, pois louvavaõ a criatura, naõ conhecendo ao criador, fosse exemplo a nòs da estima, em que devemos ter a nossa, porque quando nos falecesse caridade, e amor de Deos, tivesse exemplo de gente condennada, com que nos castigasse da muita negligencia, e observancia da Religiaõ, como elle dizia aos Judeos: conheceo o boy seu dono, e as bestas a casa de seu senhor, e Israel naõ me conheceo.
24 Pois graças ao Eterno, e Omnipotente Deos, que taõ boas raizes como he este fundamento de seu amor, e observancia da Religiaõ criou em Vossa Alteza, que naõ pòdem deixar de produzir, senaõ ramos maravilhosos, de santos exercicios, e virtuosos costumes, como se vem, que o tempo que lhe sobeja dos Divinos Officios, e Oraçoens, gasta no estudo das letras, a que tanto se dà, naõ avendo respeito à sua criaçaõ, que por nascer de taõ alto lugar foy mais apartada dos trabalhos corporaes, e das necessidades, e mingoas com que a outra gente se cria, decorando aquelles primeiros, e emfadonhos rudimentos da Gramatica, que a força da palmatoria aos outros engenhos ensina, com que alcançou inteiro conhecimento da lingua latina, para daqui chegar ao fim de sua tençaõ, que he o estudo da Sagrada Escritura. Seguindo a doutrina do bemaventurado S. Hieronymo, que dizia a Paula, e outras mulheres santas, que lessem muitas vezes a Divina Escritura, e nunca soltassem da maõ os volumes sagrados. Movida taõ sòmente por huma inclinaçaõ virtuosa, afastada dos particulares interesses com que muitos usaõ das letras ao modo de jornaleiros, como de qualquer rustico instrumento, com que semeaõ o paõ, e cavaõ a terra, estudando para comer, e naõ para saber, e como o fim seja este, taes saõ os principios, como os quaes se contentaõ em qualquer sciencia, que aprendaõ.
25 E quanto mais cobiçosas saõ letras deste tempo, tanto mayor louvor he o de V. Alteza, pois a causa final de as querer entender naõ he falta de honra, nem de outra cousa, senaõ hum santo desejo de saber. De que todos seus vassallos devemos dar muitas graças à Divina Bondade, que por sua misericordia nos chegou a tempo, que tivessemos tal Princesa por Senhora, qual o divino Plataõ desejava, que dizia, bemaventurada serà a Republica, em que os Principes filosofassem, ou os Filosofos governassem.