75 Depois da qual, quem estendeo mais sua Fè, assim com doctrina, como com martyrio? Padecendo por ella tantos generos de tormentos, quantos a crueldade dos tyrannos inventou para lha fazer negar. Testemunhas saõ os dentes de Santa Apollonia, as tetas de Santa Agueda, os olhos de Santa Lusia, e as agudas navalhas, que cortaraõ a carne da Bemaventurada Virgem Catharina. Quantos membros espadaçados, quantas cabeças cortadas, quantos corpos de mulheres assados celebra cada anno a Santa Madre Igreja, qual esquadraõ de homens taõ unido em caridade, taõ armado de Fè, se ajuntou debaixo de algum Capitaõ, como lemos de Onze mil Virgens, que seguindo a Cruz de Santa Ursula, todas morreraõ por aquelle, que nella por ellas padeceo? Cousa de espanto he, e de muy grande admiração entre tantas mil mulheres naõ se achar huma a que o temor dos tormentos alheyos, presentes a seus olhos, fizesse mudar de seu santo proposito, como se vio em taõ pequeno numero de quarenta Martyres, hum delles negar a Fè, e em outro muito menor hum vender a seu Mestre, outro o desconhecer, e finalmente todos o desampararem, sómente as mulheres, como jà disse, que perseveraraõ com elle atè à morte.

76 E tiveraõ sempre tanta constancia na Fè, em que huma vez creraõ, que nunca se lè, apostatar Helena, ou outra alguma Rainha Christaã, como Juliano Emperador, e outros, nem nascer dellas alguma herezia, como dos homens, de antre os quaes se levantaraõ, e se levantaõ cada dia contra a verdadeira, e Catholica Fè. A qual fallecendo em todas, na morte de Christo, segundo affirmaõ os Theologos, em nenhum homem ficou plantada, sómente em a Sacratissima Virgem Nossa Senhora remate de todo o louvor das mulheres. Pois que Deos Eterno, Immenso, Omnipotente, de cuja grandeza o mundo he incapaz, nenhum lugar lhe foy taõ aceito, quando a elle veyo, como o ventre virginal desta Virgem Sacratissima.

77 Alevantem logo os sentidos todas as mulheres, concebaõ em si huma humildade soberba, huma virtuosa presumpçaõ, e gloria de sua natureza, que Deos fez digna, e merecedora de tanta honra, quanta nunca homem puro teve neste mundo, nem terà no outro. Certamente, que he cousa de tal maravilha, qual ella foy, ver aquelle taõ dezejado do mundo, taõ denunciado dos Prophetas, taõ esperado das gentes, taõ venerado dos Anjos, taõ temido dos demonios, e Senhor universal das naturezas angelica, e humana, chamar a huma mulher mãy, e ella filho ao verdadeiro Deos, que a fez, e naõ sem causa a Igreja em suas oraçoens, rogando pelas mulheres, diz: Intercede por devoto fæmineo sexu, attribuindo-lhes este epiteto de devaçaõ, e amor de Deos, como muy proprio, e natural seu dellas.

78 E se agora quizesse contar as finezas, que em diversos generos de virtudes fizeraõ mulheres, como as Lacedemonias, Melesias, e Thebanas, faltarmehia o tempo, e naõ os feitos, que acabaraõ. Cheyos estaõ os livros de todos elles. E depois claramente se vè pelos exemplos, que mais me representou a memoria, do que os busquey, quanto as mulheres floreceraõ em todo o genero de letras, nas armas, administraçaõ de Reynos, fundaçaõ de Cidades, e obras miraculosas, na constancia da Fè, padecimento de martyrios por ella, nas virtudes da castidade, piedade, e misericordia, assim em todas as outras, em que naõ sómente se igualaraõ com os homens, mas em muitas os excederaõ.

79 E como nenhum puro homem pòde ser comparado por mais gràos de graça que tivesse, com a melhor dellas, merecendo sua natureza louvor sobre todos os louvores angelicos, e humanos; que razaõ haverà para ser mais estimado o mando dos homens, que o das mulheres? Mayormente o de V. Alteza, a quem tantas, e tão boas partes, a Clemencia Divina deu, que em muy poucos homens, por consumados que fossem, se poderiaõ achar.

80 Agora se nos representarà (illustrissima Princesa) a todos seus vassallos o tempo da Rainha Sabà, ou Candaces; em V. Alteza se renovarà a memoria das esforçadas, castissimas, e prudentissimas Rainhas Arthemizia, e Dido, e de todas quantas ennobreceraõ seus nomes com suas obras. Nella sò veremos juntas as virtudes, que nestas andavaõ apartadas. A Rainha Santa, cujo precioso Corpo tem Coimbra, e sua alma a gloria de Deos, morta, serà viva em V. Alteza, e para isto ser assim, que menos pode fazer, como disse no principio desta Oraçaõ, filha de tal pay, e de tal Mãy, irmãa de taes irmaõs, neta de taes avòs, sobrinha de taes tios, todos Reys, Rainhas, Emperadores, Principes, Infantes, de que toda a Republica Christã he cheya na jurisdiçaõ secular, e provèsse a Deos, que assim o fosse na Ecclesiastica, que naõ faleceria em vossa linhagem (muy alta Princesa) quem estendesse a Fè pelas partes Setemptrionaes, como fizeraõ pelas Orientaes, Meridionaes, e do Occidente, pois que della nasceo o Serenissimo Principe, e Reverendissimo Senhor Infante D. Henrique vosso irmaõ. Cujos costumes, santa virtude, e purissima limpeza de vida nos representaõ em nossos dias o grande Gregorio, Basilio, ou Agostinho. Naõ averia em nossos tempos Luteranos, obedeceria ao Summo Pontifice Boemia, reduzirsehia Grecia com todas suas misturas de Jacobitas, Georgianos, Arménios, e Abexins, e quantas diversidades de herezias ha pelo Mundo cessariaõ. Tornando ao proposito, este seu povo, e vassallos, posto que em quantidade sejaõ poucos, e naõ enchaõ a medida dos merecimentos de Vossa Alteza, pois que grandes Imperios, e Reynos, demanda sua prudencia, e alto nascimento. Agora com serem seus, serà mayor seu nome, e os serviços, que os mais delles fizeraõ a ElRey vosso pay de gloriosa memoria, e a ElRey vosso irmão nosso Senhor, assim em sua casa na paz, como fóra della na guerra, se por ventura andavaõ apagados, daqui por diante seraõ conhecidos, louvados, e galardoados, assim por ElRey com seu favor, como com merces, e acrescentamentos, que elles, e seus filhos esperaõ receber de Vossa Alteza, cuja liberalidade, e humanidade, que aos estranhos he grande, mayor se espera que seja aos naturaes, e vassallos, os quaes para serem sustentados, e governados com paz, mantidos em justiça, ficaõ rogando à Divina Clemencia, naõ por todos estes bens, mas por a vida de Vossa Alteza, que taõ certos os tem com ella, a qual nosso Senhor conserve, acrescente, prospere por muitos annos. Amen.

ELOGIO
DO DOUTOR
FREY BERNARDO DE BRITO
RELIGIOSO DE CISTER, E CHRONISTA MÓR de Portugal.

Na Comarca de entre Douro, e Minho, saõ muito antigos os nomes de Britonio, Briteiros, e Brito: porque de Britonio Cidade Episcopal se faz mençaõ no Concilio de Lugo celebrado no anno de 569. a qual foy destruida por Almançor de Cordova. O lugar de Briteiros deu este appellido a Fidalgos muy principaes, de que trataõ por vezes as historias Portuguesas, e os Registos Reaes. E sobre tudo a Ribeira, e freguesia de Brito, que està entre o Rio Aye, e a Portella dos Leitoens, he solar desta illustre Familia dos Britos. Cuidaõ alguns, que este nome he derivado dos Brutos Romanos, e outros, que dos Britones, primeiros moradores de Inglaterra, a que parece alludem os Leoens rompentes, que os Britos trazem por armas, que saõ as mesmas insignias daquella Provincia postas em tres barras. Com tudo neste Reyno tem muita antiguidade, e delles, e dos Briteiros (que todos saõ os mesmos, segundo os que melhor entendem) ha muita mençaõ no livro das Linhagens de Espanha do Conde D. Pedro. Na principal varonia desta Familia, que he a do Morgado de Santo Estevaõ de Beja, entraraõ por casamento, e linha femenina a Casa de Lima com o Viscondado de Villa Nova de Cerveira, e Condado de Arcos de Valdeves, e a Casa dos Nogueiras com o Morgado de S. Lourenço de Lisboa, e por largos annos possuiraõ a Alcaidaria Mòr de Beja, e em particular Affonso Annes de Brito, que foy pay de dous Bispos de Evora D. Martim Gil de Brito, e D. Joaõ Affonso de Brito, e Avò de D. Diogo de Brito, que successivamente tiveraõ esta grande Prelasia. Pelo que de alguns foy chamado Affonso Annes o Clerigo. Em outras partes de Alem Tejo conservaõ muy antigos Morgados, particularmente em Evora, onde o Bispo D. Joaõ, jà referido, instituio o Morgado de Fonte boa, com obrigaçaõ de usar o appellido, e armas dos Britos, que se pòde ter por huma das mais antigas instituiçoens de Espanha, em que so trate de semelhante clausula.

Deu esta linhagem homens insignes no serviço dos Reys, no governo da Republica, e no valor das armas, em que foy assinalado Joaõ Affonso de Brito na tomada de Ceita, e na India Lourenço de Brito Capitaõ de Cananor; o primeiro que defendeo o cerco de fortaleza naquelle Estado, sendo o que lhe puzeraõ os Malavares hum dos mayores, que os Portugueses sustentaraõ. E assim ha nesta Familia outros Varoens dignos de memoria, porèm quem em nossos tempos illustrou grandemente este nome com as excellentes obras de seu engenho, foy o Padre Frey Bernardo de Brito Chronista Mòr de Portugal; como se verà nesta breve relaçaõ de suas cousas, o qual estimou tanto este appellido, que o antepoz a outros muitos, e muy illustres de que descendia. Por quanto, segundo se vè na Historia de Nossa Senhora de Nazareth, de que adiante faremos mençaõ, era seu pay Pedro Cardoso, filho de Sebastiaõ Fernandes Cardoso, e neto de Francisco de Sousa, o qual era neto de Gonçalo de Sousa Comendador Mòr, que foy de Christo, e por sua mãy Maria de Brito de Andrade, ficava no mesmo grào com Nuno Freire de Andrade filho do Mestre de Christo D. Nuno.

Nasceo o Padre Frey Bernardo em Almeida, Villa notavel deste Reyno, dia de S. Bernardo 20. de Agosto de 1569. Seguio seu pay Pedro Cardoso a Milicia, e foy Capitaõ de nome em Italia, e Flandes, em serviço delRey D. Felippe o II. de Castella. Com esta occasiaõ andou o Capitaõ Pedro Cardoso ausente deste Reyno muitos annos, e temendo, que a falta de sua presença fosse de prejuzo à criaçaõ de seu filho, de pouca idade, o fez hir a Roma, e conhecendo bem, que naõ bastava sómente a mudança do lugar para melhorar o animo (como jà o disse Horacio, pelos que em seu tempo passavaõ a Athenas) lhe deu os melhores Mestres, que entaõ floreciaõ naquella Corte, que por tantos titulos he a Metropoli do Mundo. Delles aprendeo o nosso Author a policîa das lingoas, e ouvio a exposiçaõ dos mais illustres Poetas, e Oradores. Aproveitou o Padre Frey Bernardo muito com esta doutrina, e tornando em breve tempo ao Reyno, veyo muito acrescentado das partes acquiridas, que pertencem a hum mancebo nobre, porque sabia a lingoa latina com eminencia, fallava a Italiana como natural, a Francesa expeditamente, e naõ lhe faltava noticia da Hebraica, e Grega. Da historia fazia particular profissaõ, e sobre tudo se deu tanto à liçaõ dos Poetas, que compoz naquella primeira idade muitos versos, que nos conceitos, e elegancia podem competir com os dos melhores Lyricos de Espanha. A todas estas partes, e outras muitas naturaes, de que era dotado, soube acrescentar a mayor perfeiçaõ de todas, que foy dedicallas a Deos: e como reconheceo sempre a S. Bernardo por seu padroeiro, movido da devaçaõ que lhe tinha, deixou o Mundo, e se fez seu Religioso no Real Mosteiro de Alcobaça, mudando juntamente com o estado o nome de Balthasar de Brito de Andrade, que atè entaõ usara.