Sentio notavelmente o Capitaõ Pedro Cardoso seu Pay esta resoluçaõ, como ordinariamente costumaõ fazer os parentes, que ficaõ no Mundo, naõ lhes deixando ver a paixaõ, que se tem por boa fortuna aceitar-lhe o Principe da terra hum filho em seu serviço, quanto mayor felicidade he receber-lho o do Ceo por Grande de sua casa. Porèm como o Capitaõ Pedro Cardoso fazia conta de o deixar na Milicia com grandes ventagens, que esperava em satisfaçaõ de seus serviços, e entendia por este meyo ficavaõ accomodadas as cousas de sua Familia, fez tanto, que impetrou hum Breve com que se passasse à Religiaõ do Hospital de S. Joaõ, que vulgarmente chamaõ de Malta, e era taõ valido em Roma, que alcançou esta licença, cousa que rarissimamente se concede. Offende-se Deos grandemente de os Seculares perturbarem as vocaçoens dos Religiosos, e como naõ queria que o nosso Author fosse famoso pelas armas, mas que as armas fossem famosas por elle, levou para si o Capitaõ Pedro Cardoso poucos dias, depois do Indulto chegar a Portugal, e seu filho naõ quiz usar do Breve, com que mostrou claramente, que senaõ tratara a mudança por vontade sua, senaõ pela de seu pay.
Quando o Padre Fr. Bernardo veyo de Italia, como carecia da inteira noticia da historia da Patria, procurou darse a ella com toda a diligencia, porque ainda que qualquer historia seja huma compendiosa sabedoria, e fonte de prudencia, sempre a da Patria he mais proveitosa; pois tanto mais aprendem os homens, aprendem dos progressos, ou adversidades da mesma Provincia, para acertarem na administraçaõ das cousas particulares, e publicas, quanto os successos proprios ensinaõ mais, que os estranhos. Com este primeiro fervor juvenil, naõ sómente leo as Chronicas do Reyno, mas movido com o desejo de ver aquella escritura em melhor estilo, as resumio num volume, que escreveo de sua maõ, acrescentando algumas cousas de hum Author, que achou em Alcobaça, chamado Mendo Gomes. Porèm considerando depois attentamente a perfeiçaõ, com que os modernos Historiadores Castelhanos, e Aragoneses hiaõ escrevendo as historias de suas patrias, averiguando pelas escrituras dos Arquivos as cousas incertas, e achando outras muitas de novo, de que os antepassados se esqueceraõ, sobre esteve na publicaçaõ deste volume, entendendo, que lhe era necessario para sahir à luz fazer elle tambem a diligencia com os Cartorios de Portugal, que os outros tinhaõ feito em suas Provincias. Mas porque a nossa naõ ficasse inferior a nenhuma, vendo que faltava escritor, que tratasse as cousas de Portugal ordenadamente, e que por estarem divididas por muitos Authores, havia pouca noticia dellas, movido do zelo do bem publico se resolveo em escrever a historia Portuguesa sucessivamente des do principio do mundo atè seu tempo. Este heroico pensamento intentou primeiro Joaõ de Barros na Europa, que prometeo, posto que por lhe faltar descanso, e tempo o naõ pode comprir. O mesmo pretendeo Andre de Resende, porèm occupado em outros estudos, naõ pode mais que começar a empresa, deixando alguns fragmentos do tempo dos Romanos, ainda que de muita importancia. Menos parece obrou a intençaõ de Jorge Cardoso, como se vè no Tratado, que Manoel Fernandes Conego de Lamego fez da antiguidade daquella Igreja. Todos estes Authores saõ dignos de graõ louvor por terem taes intentos; porèm quanto vay do pensamento à obra, tanto mayores graças se devem ao Padre Fr. Bernardo, pois o que elles sómente imaginando mereceraõ, elle reduzio prosperamente a effeito.
Começou esta historia em Alcobaça, e ainda que os Superiores o mandaraõ continuar na Theologia em Coimbra, naõ se esqueceo da empreza, antes a proseguio nas horas, que lhe ficavaõ livres com tal cuidado, que a veyo acabar no principio do anno de 1596. tendo de idade 27. e no de 1597. a imprimio. Foy esta obra recebida com igual applauso, naõ só neste Reyno, mas ainda em toda Espanha, assim por aquella certa novidade, que as antiguidades trazem consigo, como por ser a primeira Historia Universal Portuguesa, que em vulgar sahio impressa. Nella mostrou o Author grande liçaõ, e hum animo incansavel, pois no meyo de tamanha occupaçaõ, como a dos estudos, pode concluir hum intento taõ arduo, que (como elle diz na sua elegantissima Dedicatoria) só o pensamento delle fez abaixar as velas a engenhos de muita estima, porque sendo por huma parte rarissimos os Authores, que fallaõ nestas materias, era necessario por outra hum infinito trabalho para buscar, o que se havia de dizer em huma immensa copia de leitura.
Recebeo ElRey Filippe II de Castella este serviço com particular benevolencia, por ver que o Padre Fr. Bernardo lhe offerecia graciosamente neste Reyno, o que no de Castella lhe tinha custado muita despesa, e cuidado, para assim obrigar o Mestre Ambrosio de Morales a se encarregar de semelhante historia, por tanto naõ só por sua carta agradeceo ao Padre Fr. Bernardo o trabalho da obra, mas ainda lhe encomendou de novo, que continuasse o que faltava della, e mandou ao Padre Geral de Alcobaça lhe ordenasse o mesmo.
Este favor animou ao Padre Fr. Bernardo para naõ fazer caso do desagradecimento de alguns mal contentadiços, que em lugar do premio de hum tamanho beneficio lhe censuravaõ o estilo do livro, e a certeza das cousas delle, naõ considerando, que a lingoagem he accidente em semelhante historia, e que tendo o Author a criaçaõ fóra da patria, naõ podia estar ainda taõ adiantado nos termos, que pede a gravidade da lingoa Portuguesa, como depois o esteve, e no que toca à historia, se no que passa em nossos tempos, e o que mais he diante dos nossos olhos, saõ tantas as opinioens, que nenhuma cousa se pòde quasi saber com infalivel certeza, demasiado rigor he querer, que se dè em cousas taõ antigas a firmeza, que nas presentes senaõ alcança. Pelo que com razaõ foy esta obra muito estimada dos doutos, e bem intencionados, e por ella se podem dar os parabens à Patria com aquelles excellentes versos, com que lhos dà hum famoso Escritor de nosso tempo, dizendo ao Tejo:
Ripis ecce tuis genuit tibi patria civem
Illustri egregium partu, quo clarior orbe
Jactabit nullo tellus se Lysia tantum
Arte potens opibusque animi, Bernardus ab alto
Ducet Lysiadum famam, & monumenta tuorum
Ex quo prima novis Aurora inventa quadrigis
Splenduit humano generi, dehinc arma triumphis
Inclyta, tunc sanctos repetens ab origine mores
Longa vetustatis, rerumque arcana movebit.
Antes deste tempo lhe tinha a sua Congregação encomendado a composiçaõ da historia de Cister, de que fóra deste Reyno havia pouco escrito, e em Portugal nada, sendo assim que esta Ordem floreceo entre nòs com grandes ventagens a muitas outras Provincias da Christandade. Obedeceo o Padre Fr, Bernardo, e pouco depois de tres annos da impressaõ da Monarquia, sahio com a primeira parte da Chronica de Cister, que imprimio no anno de 1602. Como jà neste tempo estava mais exercitado na lingoa Portuguesa, compoz esta historia com tanta elegancia, e pureza de palavras, que o Padre Fr. Joaõ Marquez, hum dos mais doutos Varoens de nosso tempo, lhe dà por ella o titulo de Historiador insigne; e no que toca às cousas, escreveo com tal diligencia, que o Padre Fr. Antonio de Yepes honra da Religiaõ de S. Bento, quasi tradùs esta Chronica nos seus Annaes, e podemos com verdade dizer, que ao nosso Author se deve possuirmos agora as excellentes historias de S. Bento, e S. Bernardo, que depois sahiraõ à luz em Castella, pois o Padre Fr. Bernardo abrio caminho, e deu exemplo para sobre estas materias escreverem taõ singulares sugeitos. Alèm da Chronica de Cister se mandou ao Padre F. Bernardo por decreto do Capitulo Geral, que escrevesse outro livro dos privilegios da Ordem; o que elle fez com immenso trabalho, porque lhe coustou muitos de perigrinaçaõ, e ver os Cartorios de todos os Conventos de Religiosos, e Religiosas, que a Congregaçaõ de Alcobaça tem neste Reyno, e outra muita leitura. A molestia desta occupaçaõ com o continuo estudo dos annos passados, lhe foraõ causa de huma grande enfirmidade, que o teve naõ somente muito tempo impedido para continuar com a historia Portuguesa, mas ainda desconfiado da vida. Com tudo tanto que a saude lhe deu lugar, tornou a Coimbra a concluir os estudos, que a obediencia lhe fizera interromper, e naquella Universidade deu grandes mostras de seu engenho nos actos que fez, atè tomar o grào de Doutor, que foy no anno de 1606. Pouco antes compoz o livro dos Elogios dos Reys de Portugal, que imprimio no anno de 1603. Esta obra, ainda que breve, he de grande consideraçaõ, porque na lingoa, e juizo, pòde servir de modello a toda a boa historia abreviada, e na perfeiçaõ com que fez abrir em bronze os retratos dos Reys, e alcançou os originaes mais apurados, mandando vir alguns de partes remotas, com grande custo e despeza, exccedeo muito suas forças, e mostrou o grande zelo, que tinha de engrandecer a Patria, e de eternizar a memoria dos Reys Portugueses, a quem neste livro levantou hum honroso trofeo, e tal, que a nenhuns outros Reys de Espanha vemos outro semelhante dedicado. Este livro quasi traduzio em latim o Padre Antonio de Vasconcellos no seu Anacæsaleosis, mandando abrir as mesmas estampas dos Reys em mayores laminas, por estas serem as que só merecem credito de verdadeiras.
Desempedido destas digressoens, tornou a continuar a historia da Monarquia Lusitana, que imprimio no anno de 1609. Nesta segunda parte seguio hum estilo chaõ, e claro, ainda que grave; e se na elegancia ficou inferior aos dous livros proximos, que tinha publicado, foy a causa por naõ dar mais lugar a materia, pois o principal trabalho daquella historia, he descobrir. e por em ordem as cousas daquelles tempos das conquistas dos barbaros, que atègora por falta de Authores estiveraõ escondidas, e cheyas de duvidas, e fabulas.
Estas foraõ as obras, que o Padre Fr. Bernardo de Brito imprimio em sua vida, porèm naõ eraõ menos illustres outras muitas, que compoz, e naõ pode tirar a luz com a morte antecipada. Destas direy algumas, que chegaraõ à minha noticia.
Compoz hum tratado, a que deu titulo Republica antiga de Lusitania, em que tratou dos costumes, religião, e governo dos antigos Lusitanos. Dedicou esta obra à Senhora Infanta Dona Isabel Clara Eugenia a 21. de Março de 1596. Era dividida em dez capitulos, e continha huma maõ de papel, segundo me informou o Licenciado Francisco Galvaõ de Mendanha (grande benemerito dos Escritores Portugueses, como em outro lugar diremos) que a vio, por lha communicar hum Religioso, que assistia em S. Bento de Evora.