Se quizermos considerar o que ordinariamente lemos nas historias antigas, não poderemos deixar de confessar, que do tempo do diluvio, ate o presente, sempre a geraçaõ humana foy em grande crescimento, e que de cada vez vay em mayor augmento, e multiplicaçaõ. Porque deixadas as historias muito antigas, e da Sagrada Escritura, onde vemos, que de oito pessoas, que escaparaõ do diluvio, se encheo o mundo de gente, e de 70. que da familia de Jacob entrarão em Egypto, sahirão depois 600000. soldados de peleja, a fóra as mulheres, e meninos: quem ler, e vir as taboas da Geographia de Ptolomeu, e depois os Mapas, que traz Abraham Ortelio no seu Theatro do mundo, verà claramente como em cada Provincia erão sem comparação muito menos as Villas, e Cidades no tempo de Ptolomeu, que as que sabemos estão hoje edificadas, e habitadas. Nem contra isto se pòde dizer, que naquelle tempo se não sabia tanto das Provincias, como hoje se sabe; porque isso seria da India, e de outras terras incognitas, de que Ptolomeu não podia ter perfeita noticia; mas o que trazemos por exemplo, saõ as Provincias da nossa Europa, como Italia, França e Espanha; nas quaes hà agora em cada huma muitas mais povoaçoens do que dantes havia. Bozio contra Machiavelo lib. 3. cap. I. nomea só no Reyno de Napoles muitos milhares de povos mais, que os que tinha toda Italia antigamente segundo Estrabo, Ptolomeu, e Plinio, o qual chega a contar atè os Casaes, e Bozio não conta lugar de menos de 300. visinhos. Flandes, que hoje contèm em si 17. Estados nobilissimos, nos quaes se contaõ 208. Cidades, e mais de 6300. Villas, sem contar as Aldeas, Castellos, e Fortalezas, que saõ em grandissimo numero, sabemos, que no anno de 878, o Papa Joaõ VIII.[8] no Synodo de Troyes concedeo hum só Bispo a Flandes, por ser terra até aquelle tempo cheya de bosques, e pouco povoada, e que então se começava a cultivar, e habitar. E as Ilhas de Holanda, e Zelanda, que saõ as mais povoadas destes Estados, quasi neste mesmo tempo estavão ainda cobertas do mar Oceano, do qual se foraõ descobrindo pouco, e pouco, e agora estaõ todas cheyas de fortissimas, e riquissimas Cidades. Colligese tambem esta mesma verdade dos livros das Cidades de Joaõ Braum, onde se vèm quasi todas com duas cercas, e muralhas; as primeiras, e mais antigas mais pequenas, e quasi interiores, e as modernas muito mais grandes, e capazes, que por os povos crescerem em grande numero, e naõ caberem nos primeiros muros, vem a ser necessarios outros mayores. E para que nos não cansemos com exemplos estrangeiros, venhamos a este nosso Reyno; o qual do tempo delRey D. Afonso Henriques, atè o em que estamos, naõ cresceo menos, que qualquer das outras Provincias, que acima nomeamos. O que se colige evidentemente das Villas, e Cidades fundadas pelos Reys Portuguezes, assim neste Reyno, como fóra delle (alèm das muitas, que particulares Senhores edificarão, e lhes derão seus Foraes) fundou ElRey D. Afonso Henriques de novo as Villas de Almada, Villa-Franca, Villa-Verde, Azambuja, e Lourinhãa. No tempo delRey D. Sancho se povoaraõ por seu mandado as Villas de Penamacor, Sortelha, Valença do Minho, Montemòr o Novo, Penella, Figueirò, Covilhaã, Folgosinho, e a Cidade da Guarda. ElRey D. Afonso III. fez novas povoaçoens em muitas partes do Reyno, que eraõ deshabitadas; entre as quaes edificou de novo Estremòs, e reformou, e povoou de novo a Villa de Pinhel, Vinhaes, Villa-Flor, Mirandella, Freixo de espada na cinta, Villa-Nova de Cerveira, Villa-Real, Muja, Salvaterra, Atalaya, Aceteira, Montargil, e outros muitos lugares; que por todos passaõ de 40. A todos seus antecessores excedeo ElRey D. Diniz, porque podemos dizer, que povoou meyo Reyno. E depois, que o Infante D. Henrique começou o descobrimento da Costa de Africa, e Ilhas do mar Oceano, e se continuou atè chegar à India, foy esta multiplicaçaõ de gente Portugueza em muito mayor crescimento; porque se povoaraõ todas as Ilhas, Brasil, Costa de Africa, e se fundaraõ de novo todas as Cidades, e Fortalezas, e mais povoaçoens do Estado da India. Pelo que consta, que tem os Portuguezes fundado da Barra para fóra hum numero immenso de povoaçoens, em que entraõ muitas, e grandes Cidades.

Com tudo de prezente experimentamos neste Reyno falta de gente, assim para a milicia, como para a navegaçaõ, e muito mais para a cultivaçaõ da terra; pois por falta da gente Portugueza se servem os mais dos lavradores de escravos de Guinè, e mulatos. Pelo que apontaremos as causas, porque neste Reyno falta a gente do povo, e da nobreza, que parece saõ as seguintes.

A primeira causa da falta da gente, que se padece neste Reyno, saõ as nossas Conquistas; porque estas ainda que foraõ de grande utilidade, assim para a propagaçaõ do Evangelho, como para o comercio do mundo, toda via defraudaraõ muito este Reyno da gente, que lhe era necessaria. E assim naõ sómente deste tempo por diante naõ cresceo a gente neste Reyno, como era conveniente para as muitas povoaçoens, que jà nelle havia, e para se poder defender, e offender aos inimigos, mas alèm disto se foy despovoando com as muitas armadas cheyas de gente, que cada anno partem de Portugal para estas Conquistas; e com as muitas Colonias, que se tiraõ para estas povoaçoens. Pelo que ainda que a gente naturalmente và em crescimento, como temos provado; com tudo a nossa naçaõ Portugueza depois, que houve estas Conquistas, se foy diminuindo, naõ por falta da multiplicaçaõ natural, se naõ por os Portuguezes se irem de sua patria a povoar, e fundar tantas Cidades, e lugares, como temos dito, em terras taõ remotas, e taõ largas.[9] Por onde do tempo destes descobrimentos para cà naõ se fundaraõ de novo no Reyno, nem Villas, nem lugares, como atè entaõ se tinhaõ fundado.[10] E passando ElRey D. Joaõ I. à tomada de Ceita com mais de 20U. homens, e ElRey D. Afonso V. às empresas de Africa com exercitos de 30U. homens, no tempo delRey D. Sebastiaõ era jà taõ pouca a gente, que com levar os mais dos soldados por força, naõ pòde ajuntar mais, que onze mil Portuguezes. Donde claro se mostra naõ sómente, que hà falta de gente em Portugal, mas que a primeira causa della saõ as Conquistas; pois do tempo dellas a esta parte se foy sentindo esta diminuiçaõ. Daqui veyo o ser necessario trazerem se Cafres, e Indios para o serviço ordinario. E já em tempo delRey D. Joaõ III. passava isto em tanto crescimento, que disse Garcia de Resende numa copla da sua Miscellanea.

Vemos no Reyno metter
Tantos cativos crescer
E irem-se os naturaes.
Que se assim for, seraõ mais
Elles que nòs a meu ver.

A segunda, causa porque falta a gente deste Reyno, he por naõ terem officios, com que ganhem de comer por sua industria, que he o meyo, que Deos deo para a sustentaçaõ de cada hum; e como os homens naõ tem de que se sustentem, naõ se querem casar, e muitos com esta occasiaõ se fazem vàdios andando pedindo esmola pelas Cidades, e Villas, homens, e mulheres em taõ grande numero, que parecem exercitos; e a desculpa, que daõ para pedirem, he dizerem, que naõ achaõ em que trabalhar. Outros se passaõ a Reynos estranhos, principalmente para os de Castella pela facilidade da vizinhança, onde antes da Acclamaçaõ havia tantos Portuguezes, que muitas pessoas affirmavaõ, que a quarta parte dos moradores de Sevilha eraõ nascidos em Portugal, e que em muitas ruas daquella Cidade se fallava a nossa lingua, e naõ a Castelhana. Quasi o mesmo se podia dizer de Madrid; e por toda Castella a Velha, e Estremadura he notorio, que os mais dos mechanicos eraõ naturaes deste Reyno, os quaes por não terem cà em que trabalhar, hiaõ là ganhar sua vida.

A terceira causa porque falta a gente popular, he por naõ terem neste Reyno terras, que cultivem, e de que possaõ tirar sua sustentaçaõ, porque a Provincia de entre Douro, e Minho, e as mais atè o Tejo estaõ bastantemente povoadas, e não hà nellas lugar para se fundarem nòvos pòvos, que possa cultivar a gente, que cresce. E Alentejo, que podèra socorrer a esta falta (porque he quasi tão espaçoso, como o resto do Reyno) como està todo dividido em herdades, e as mais dellas muito grandes, nem se povôa, nem se cultiva. Porque sendo as herdades de muitas folhas, ficão de ordinario as tres partes dellas por semear, faltando por esta causa os muitos frutos, que se dellas poderaõ colher, e a cõmodidade, que poderaõ dar a tantos homens, que não achaõ lugar, onde poder fazer hum recolhimento em que se metaõ: e por isto se embarca tanta gente para fóra da Barra, obrigando-os a necessidade a ir buscar terras, em que vivaõ a outras partes do mundo; pois lhe faltaõ em sua propria patria.

Estas trez saõ as causas da falta da gente popular deste Reyno; mas as da falta da gente nobre se pòdem reduzir a duas. A primeira he a união de muitos Morgados numa pessoa; porque quando se conserva hum Morgado per si, cada possuidor casa, e propaga sua familia; mas juntando-se muitos Morgados numa só pessoa, essa sómente casa, e as mais familias, para que os outros Morgados foraõ instituidos, ficaõ extintas. Isto tem acontecido em Portugal a grande numero de Morgados;[11] e he tão grande este danno, que já os Reys lhe quizeraõ acodir, como se vè no 4. livro das Ord. tit. 100. onde se diz, que com esta união dos Morgados se ficaõ extinguindo as Casas, e Familias, e faltando a gente nobre para a defensaõ, e conservaçaõ do Reyno. Pelo que esta he a principal razão da falta da Nobreza.

A segunda he a grandeza, a que tem chegado os dotes das mulheres nobres; pois vay em tanto excesso, que poucos saõ os Fidalgos, que pòdem casar huma filha, e quasi nenhum duas, como se disse no capitulo das Cortes do Estado da Nobreza a ElRey Nosso Senhor[12] pedindo-lhe remedio para este danno, por ser gravissimo, e que extinguia grandemente a Nobreza de Portugal.

§. III.

Do remedio para a falta da gente da primeira, causa, que saõ as Conquistas.