Na China por ser infinita a gente, he tanto o mantimento, que dà a terra, e tanta a industria com que a cultivaõ seus naturaes, que sendo elles tantos, que por não caberem nas povoaçoens, habitaõ em barcos nos rios, e enseadas; comtudo naõ padecem falta delles, antes os levaõ della continuamente de mercadoria para outras partes.

Nem contra isto se pòde dizer, que ainda, que haja muita gente naõ haverà cultivaçaõ da terra, se ella for de si infructifera, e esteril; porque confórme aos naturaes, e o que se nota nas leys das partidas,[4] nenhuma terra he infructifera; antes he cousa certa, que se alguma terra naõ for boa para dar trigo, serà para produsir cevada, centeyo, ou milho; e quando naõ, serà conveniente para vinhas, pastos de gado, mel, e cera; e a que naõ poder produzir árvores de fruto, darà arvores silvestres, ou pinheiros para madeira, como temos por exemplo nas terras, que estaõ da outra banda do Tejo defronte de Lisboa, onde vemos huma area solta dar excellentes vinhas, e produsir infinidade de pinheiros, e lenha, sem a qual se naõ poderia sustentar o grande povo de Lisboa.[5] O Author das Chiliadas diz, que as campinas de Brabante saõ de area esteril, mas os naturaes com sua multidaõ, e industria as fazem abundar de trigo, mostrando a experiencia contra o proverbio, que naõ he trabalho baldado lançar semente na area: In Brabantia, diz elle, fiunt agricolæ tam industrij, qui sitientissimas arenas cogunt & triticum ferre. Bem se vè logo, que onde houver muita gente haverà todos os frutos, e proveitos, que da terra se pòdem tirar, e que a falta da gente he a causa da caristia delles.

Quanto às artes, e industria, com que grande parte do povo se mantèm; estas naõ as pòde haver, nem pòdem florecer onde naõ houver muita gente; porque huns ensinaõ os outros, e inventando cada hum novas cousas, fica aos outros mais facil aperfeiçoarem a arte, confórme ao que se diz: Facilius est inventis addere. E assim vemos, que depois, que os Estados de Flandes cresceraõ em multidaõ de gente, floreceraõ entre elles mais artes, e industria, que entre todas as mais naçoens de Europa. Porque nesta Provincia se tecem as ricas, e maravilhosas tapeçarias, de que se usa em todo o mundo; que por esta causa se chamaraõ pannos de Arràs, tomando o nome da principal Cidade, em que se principiaraõ; nella se fazem as mais, e as melhores impressões de livros; della vem as pinturas, as olandas, os cofres, e caixas, os espelhos, e milhares de miudezas, e brincos, que em nenhuma outra parte do mundo se fazem, se naõ nesta: donde vem a ser huma das mais ricas Provincias de Europa; sendo assim, que naõ tem minas de ouro, nem prata.

Em Alemanha, por haver muita gente, florece tanto a mechanica, que a ella se attribue a invenção da impressaõ, polvora, e artilheria, as maravilhosas fabricas dos relogios, e dos mais dos instrumentos Mathematicos; de entre elles sahio a artificiosa invençaõ do papel, de que hoje usamos, das quaes cousas todos os antigos naõ tiveraõ noticia.

Isto nasce da multidaõ da gente de Alemanha, que por ser muita, cada hum busca por sua industria, e arte seu melhoramento, e de maneira tem em honra esta occupaçaõ, que desde o Emperador, atè o ultimo homem da Republica se professa algum officio mechanico, e se preza muito de fazer obras de mayor preço. Esta foy a causa porque antigamente em Grecia chegaraõ a tanta perfeiçaõ as artes da pintura, e escultura, porque segundo Plinio[6] toda a nobreza se occupava nellas: o que durou tanto tempo naquella regiaõ, que ainda se refere do Emperador Theodosio II. que as illuminaçoens, que fazia, vendia por grande preço, e se prezava muito disso.

O mesmo succede na China, a qual por ser a mais povoada Provincia do Oriente, tem mais artificios, e obras mechanicas, que todas as outras; porque della vem os leitos, escritorios, bofetes, e mesas douradas, as camas bordadas de ouro, e seda, as perçolanas finas, as telilhas, damascos, tafetàs, e outras mil invençoens da sedas em tão grande quantidade, que todas as Provincias do mundo estaõ cheyas destas mercadorias; e ainda confórme à opiniaõ de alguns modernos, elles acharaõ primeiro, que os Alemaens, o papel, a impressaõ, a polvora, e fundiçaõ da artilharia.

Da copia da Agricultura, e das Mechanicas nasce a mercancia; porque naõ sendo os frutos da terra, e materiaes comuns a todas as Provincias, procuraõ os mercadores levar os frutos, e obras, que nas patrias tem de sobejo a outras partes, onde as taes cousas faltaõ; e trazerem dellas as que se naõ daõ nas suas terras; o que naõ pòde ser, se não havendo abundancia de gente, que se possa occupar nestes tratos, e viagens, como vemos em Alemanha, Flandes, Inglaterra, Italia, e na China,[7] que com a multidaõ de seus baixeis mercantis correm o mundo todo, e o enchem de suas mercadorias.

Porèm para nenhuma cousa he mais necessaria a multidaõ de gente, que para a Milicia; porque como os soldados saõ ordinariamente a gente superflua na Republica, naõ havendo destes muitos, naõ pòde haver exercitos grandes, com os quaes sómente se fundaraõ as quatro Monarquias. Dos Assirios, e Persas lemos, que os exercitos eraõ taõ grandes, que lhes naõ bastavão para beber as agoas dos rios. Os successores de Alexandre, que podemos dizer foraõ os possuidores da Monarquia Grega, tambem se valeraõ de exercitos grossissimos, e a Republica Romana adquirio o senhorio do mundo, não menos com o grande numero das suas Legioens, que com sua prudencia, e valor. A ruina do Imperio de Roma foy mais causada das innumeraveis gentes, que do Norte sahiraõ, que não de sua destreza militar: o mesmo experimentamos no senhorio dos Arabes, que com sua multidaõ subjugarão o Imperio Grego, o Egypto, e Africa, e tiveraõ muito tempo tiranizada a Espanha. Pelo que sem grande numero de gente, não se pòde adquirir, ou conservar, grande Senhorio.

§. II.

Como a gente naturalmente se multiplica, e deste Reyno se vay diminuindo do anno de 500. a esta parte, e as causas porque.