Seu obrigadissimo criado
Manoel da Conceiçaõ.
AOS LEITORES
No anno de 1625, dey à estampa alguns Discursos; e Elogios para instrucçaõ das Artes, em que haõ de ser doutrinados os mancebos nobres da Republica, conforme os preceitos do Filosofo: e tendo eu naquelle tempo huma obra grande, que intitulava: Noticias de Portugal, e suas conquistas jà quasi em estado para se poder imprimir, como testificaõ os Doutores F. Antonio Brandaõ, Geral que foy de Alcobaça, e Antonio de Sousa de Macedo, que entaõ a viraõ; com tudo como as cousas daquelles annos para cà tiveraõ taõ grande mudança, recresceraõ taes inconvenientes, que sobreestive na execuçaõ deste intento. Porèm entendendo eu, que naõ seriaõ de menor serviço do bem publico alguns Discursos dos muitos, que nesta obra se continhaõ sobre diversas materias, assim politicas, como de varia liçaõ, me pareceo cõmunicallos a todos, e pelo que participaõ de seu primeiro original, dar-lhes o titulo de Noticias de Portugal. E ainda que pòde haver sogeitos, que façaõ mayor estimaçaõ dos livros pela quantidade, que pela qualidade delles; com tudo para os que saõ versados na liçaõ das boas letras, sey que naõ tem em menos as obras por pequenas, quando nellas se contem a doutrina necessaria ao assumpto de que trataõ; antes vemos, que em todos os escritores saõ mais presados estes pequenos tratados, que os mayores volumes, que seus Authores composeraõ; como se vè entre os Filosofos nas obras de Plataõ, e Aristoteles, nos Moraes de Plutarco, e nas de quasi todos os Padres, principalmente S. Basilio, S. Gregorio Nazianzeno, S. Jeronymo, e na mòr parte das de Santo Agostinho. E ainda que os Scholasticos tiveraõ por argumento principal as materias de Theologia; com tudo naõ saõ menos estimados os Opusculos de Santo Thomaz, e Dionysio Carthusiano, que as outras suas obras Theologicas, e Escriturarias. Pelo que assaz fica approvado este genero de escritos, quando por outra cousa o naõ desmerecerem.
Os motivos, que tive para communicar estes Discursos, saõ os seguintes. O primeiro Discurso he sobre o augmento da povoaçaõ deste Reyno, porque sendo a multidaõ da gente o fundamento de todos os Estados, em Portugal he isto muito mais necessario, pois tem mais Conquistas, que nenhum outro Reyno de Europa; e assim necessita mais de tratar desta materia.
No segundo se refere a ordem da Milicia, com que este Reyno se defendeo de seus contrarios por espaço de quasi 500. annos, e os meyos, e forças, que agora tem, para poder melhor conservarse, que de antes.
O terceiro he o da Nobreza, em que se mostra a origem dos Appellidos, e Brazoens de cada uma das Familias do Reyno, noticia taõ desejada atègora, e taõ occulta a quasi todos os que da Nobreza trataraõ, como se vè de seus escritos,
Seguese outro Discurso sobre as Moedas Portuguesas, tratado muito necessario para a intelligencia das historias, computaçoens, e noticia dos tempos; o que neste Discurso se ajusta com a pontualidade possivel; pois se faz pelos textos das mesmas leys, e authoridade das Chronicas deste Reyno.
O Catalogo das Universidades de Hespanha serà agradavel aos estudiosos; principalmente por ser manifesto, que a noticia das Sciencias de Hespanha teve principio na nossa Lusitania.
A advertencia sobre a prègaçaõ do Evangelho nas Provincias de Guinè é quase devida, naõ só por caridade, mas tambem por singular obrigaçaõ, pois em tantos anos se tem feito taõ pouco, ainda que se tem trabalhado tanto, por se naõ accomodarem os meyos à conveniencia da obra, cousa que facilmente parece se pòde alcançar.
O Discurso sobre se evitar a grandeza das Nàos da India; pòde ser que se tenha pelo mais importante; pois por esta causa padece Portugal, quasi todos os annos taõ grandes perdas de gente, fazenda, embarcaçoens, e do principal cabedal deste Reyno, tendo a demasiada grandeza das Nàos contra si tantos exemplos, e Provisoens Reaes, e o juizo dos mais desinteressados homens, que nellas navegaraõ.