O Discurso sobre os inconvenientes da Peregrinaçaõ pode servir para nos aproveitarmos do tempo, procurando empregallo mais no conhecimento da nossa patria, que das alheyas. E debaixo do titulo deste mesmo discurso foraõ (por inadvertencia do Impressor) os Elogios seguintes, a saber.
O Catalogo dos Cardeaes que escrevi ha muitos anos; porque vulgarmente senaõ sabia delles sendo Varoens taõ insignes, e Principes da Igreja; e ainda que ao presente nos Authores modernos se faz mençaõ de alguns delles, com tudo naõ he de todos, nem se achaõ juntos como aqui vaõ.
O Elogio do P. Fr. Bernardo de Brito fiz entre outros muitos, que deste argumento tenho compostos; e pareceo tambem ao Reverendissimo P. Fr. Antonio Brandaõ Abbade de Alcobaça, e Geral neste Reyno dos Religiosos de Cister, que mo pedio para a primeira, e segunda parte da Monarquia Lusitana, a que o P. Fr. Bernardo deu principio. Não teve o Padre Geral tempo para dar à execução o que desejava: mas nem por isso he razaõ que por esta causa falte ao Padre Fr. Bernardo a demonstraçaõ do agradecimento que todos os Portugueses devemos à sua boa memoria.
A inclita Cidade de Evora he dignissima de soberanos Elogios, pois a ella reconhece este Reyno o principio de sua liberdade, e merece por isso eternos louvores. O Reverendo Abbade de Pera quiz referir parte deste Elogio nos seus Successos militares; mas como està alli impresso taõ diminuto, e com tantos erros, me pareceo se devia publicar na fórma, em que primeiramente foy escrito.
O Elogio delRey D. Joaõ III. he feito por Antonio de Castilho Chronista Mòr que foy deste Reyno, e do Conselho delRey D. Sebastiaõ, e seu Embaixador em Inglaterra, e hum dos homens, que melhor fallaraõ a lingua Portuguesa, a juizo de todos os doutos: e assim por esta causa, como por ser de hum Rey, que governou com mayor acerto, e felicidade a Portugal, me pareceo muy conveniente tirallo das trevas do esquecimento em que estava sepultado; pois he dignissimo de sahir à luz, e andar nas mãos de todos. E se antigamente como affirma Plinio, era mais prezada a Coroa de Carvalho, que se concedia ao que conservava a vida de hum Cidadaõ Romano, que as dos mais preciosos metaes, e Seneca diz della: Nullum ornamentum Principis fastigio dignius, pulchriusque est, quam illa corona ob cives servatos; com razaõ deve ser estimada esta minha diligencia; pois com elle se conserva, naõ sómente a memoria quasi acabada de tal Cidadaõ, e taõ Illustre Escritor; mas ainda a do governo de hum nosso Principe natural, cujos prudentissimos dictames pòdem ser exemplos aos melhores Politicos do Mundo.
No mesmo estado passava esquecido o Panegyrico da Senhora Infanta Dona Maria digna dos mayores louvores entre as Princesas do seu tempo por suas insignes virtudes, e por a excellencia singular de seu engenho. Foy composiçaõ do nosso grande Joaõ de Barros; o qual como seu pay era morador de Viseu, celebrou com este Panegyrico a boa sorte daquella Cidade, quando ElRey D. Joaõ a deu à Senhora Infanta com titulo de Duquesa della. He obra igual ao Panegyrico de Trajano, que se estima pela melhor de Plinio: ainda que para o engenho de Joaõ de Barros se pode ter esta por huma pequena linha; com tudo quando ella he lançada pela maõ de Apelles, naõ fica sendo de menor estima, que a mais famosa imagem de Phidias. E como o Elogio de Joaõ de Barros ao mesmo Rey D. Joaõ o III. he obra, em que se ve a grande erudiçaõ, e delicadissimos pensamentos de hum homem taõ excellente, se imprime agora, ainda que com alguns erros, que senaõ puderaõ emmendar na falta do original, e de copia exactissima; e como estes Elogios naõ tinhaõ ordem, se lhes deo a que pedia a sua materia.
LICENÇAS
DO SANTO OFFICIO.
CENSURA DO M.R.P.D. CAETANO DE GOUVEA C.R. Qualificador do Santo Officio, Examinador das Tres Ordens Militares, e Academico da Academia Real, &c.
EMINENTISSIMO SENHOR,
Vi as Noticias de Portugal de Manoel Severim de Faria com as addiçoens, que de novo se lhe acrescentaõ, e com o excellente Panegyrico, que o grande Joaõ de Barros fez a ElRey D. Joaõ III. e nenhuma cousa encontrey opposta à pureza da Fè, e bons costumes, pelo que me parece este Livro digno da licença para se tornar a imprimir. Lisboa Occidental 13. de Outubro de 1739.