As Cruzes em Aspa se trazem nas armas por devoçaõ de Santo Andre, como mostra Argòte[111] na Conquista de Baeça, a qual Cidade tomou no dia deste Santo Apostolo o Conde D. Lopo Dias de Haro com 500. Cavalleiros, que foraõ ao socorro do Castello, que os Mouros tinhaõ cercado, e em memoria do favor, que de Santo Andre receberaõ nesta taõ grande vitoria, pintaraõ todos as Aspas nos escudos, alèm das divisas, ou armas, que cada hum jà trazia. Os Navarros daõ esta mesma origem às Aspas, que muitas Familias daquelle Reyno trazem, posto que naõ conste pro historias, que elles se achassem neste feito. Pelo que com razaõ podemos entender, que as Aspas, que muitos Fidalgos deste Reyno trazem por armas, se tomaraõ por outro semelhante caso, que aconteceo na tomada de Beja, a qual foy recuperada pelos Christaõs vespera de Santo Andre com notavel esforço, por ser este hum dos mayores lugares, e mais fortes da Lusitania.
As Familias, que trazem Aspas, saõ: Araujos, Azevedos, Filippes, Gago, Guariços, Miranda, Palameque, Oroscos, Rochas. A Aspa dos Mirandas pòde ser pela razaõ jà dita, se naõ he em memoria do seu solar de Miranda, que està em Asturias, junto a Santo Andre.
§. VIII.
Vieiras.
Conta D. Mauro Ferrer[112] na vida do Apostolo Santiago que trazendo os Discipulos do Santo seu Apostolico Corpo em hum Navio, quando hia para Galliza, se estavaõ fazendo na praya humas grandes festas pela celebraçaõ do casamento de hum principal Senhor da terra de Maya, e que o cavallo, em que andava, se meteo pelo mar atè chegar ao Navio; deixando suspensos a quantos o viaõ, e muito mais o Cavalleiro, por se achar todo cuberto de Vieiras a si, e ao cavallo; e dizendo aos Discipulos o que lhe tinha acontecido, elles lhe declararaõ, que com aquelle milagre quisera Nosso Senhor honrar o Corpo do seu Apostolo, e depois de o bautizarem, soou huma voz do Ceo, que disse como aquellas Vieiras haviaõ de ser a insignia do Santo: e tornando o Cavalleiro a terra com taõ grande milagre, foy occasiaõ da conversaõ de todos. O qual caso alèm de se contar no Santoral de Alcobaça, se confirma pelos versos de hum Hymno, que canta a Igreja de Oviedo a 25. de Julho, que diz assim.
Cunctis mare cernentibus,
Sed à profundo ducitur,
Natus Regis submergitur.
Totus plenas conchilibus.
Diz o Author, que daqui vem muitas Familias nobres de Hespanha trazerem por este caso Vieiras nas armas.
Por razaõ deste principio os Cavalleiros da Espada, que se dedicaraõ a Santiago, logo depois da grande vitoria de Clavijo, trouxeraõ nas bandeiras por sua devoçaõ as Vieiras, e ornaraõ com ellas os Templos, que ao Santo dedicaraõ. Pelo que como este glorioso Patraõ de Hespanha fosse o principal advogado dos Soldados, por devoçaõ sua tomaraõ muitos esta insignia. E assim tenho por muy provavel, que as Vieiras, que se trazem em Portugal, se tomaraõ da batalha do Campo de Ourique, por se alcançar esta vitoria vespera de Santiago, que por ser em tal dia, a deraõ os nossos com certa confiança de vencimento, e vendo que ElRey tomava armas novas por memoria deste feito, faria cada hum o mesmo.
As Familias, que trazem as Vieiras nos Escudos, saõ os Barbosos, Barrosos, Barradas, Calças, Calvos, Calheiros, Camelos, Màrizes, Pimenteis, Rochas, Seraiva, Sequeira, Velhos, Vieyras. Pela mesma devoçaõ de Santiago tomaraõ os Falcoens os Bordoens, que costumaõ trazer os Peregrinos do mesmo Santo.