Meyas Luas.

As Meyas Luas saõ insignias proprias dos Mahometanos, como mostra Joaõ Botero,[113] e o Padre Frey Marcos de Guadalajara na sua Expulsaõ dos Mouriscos,[114] onde dà largamente as razoens, que para isso tem; e assim as trouxeraõ sempre por sinaes em suas bandeiras todos os Principes daquella Seita, como he notorio, e se vè de Argòte,[115] Pelo que os Cavalleiros, que nas batalhas tomavaõ algumas bandeiras aos Mouros, pintavaõ nos Escudos para memoria, e tropheo as mesmas meyas Luas, como se vè em muitas Familias de Castella. Neste Reyno se tomaraõ muitas nas batalhas com os Mouros, e principalmente na de Sevilha. Exemplo seja Gonçalo Mendes de Sousa, que acompanhou ao Infante D. Sancho, quando foy sobre Sevilha, e na batalha de Guadalquibir, tomou aos Mouros quatro bandeiras, e porque cada huma dellas tinha huma meya Lua, tomou por armas no Escudo huma quaderna feita das quatro meyas Luas, e as bandeiras mandou ao Mosteiro de Pombeiro, onde ainda hoje se conservaõ.

De semelhantes casos podemos dizer tiveraõ origem as meyas Luas, que trazem nos Escudos as Familias nobres deste Reyno, que saõ Alardos, Alpoem, Amaral, Bessa, Cassena, Carvalho, Froes, Goes, Homem, Lemos, Pessoas, Pintos, Queiròs, Sousa, Taborda, Valentes, Zagallos.[116]

§. X.

Estrellas.

A mesma occasiaõ tiveraõ as Estrellas; porque ordinariamente usaõ os Mouros, àlem das Luas de cinco Estrellas nas bandeiras, por denotaçaõ dos cinco Planetas, que tem Estrellas, a que chamaõ Errantes, como se vè nas armas do Miramolim Rey de Cordova, Granada, e Baeça, que traz Argòte.[117] Exemplo seja disto Memmonis, que acompanhou ao Infante D. Sancho, quando foy na batalha de Sevilha, do qual se conta na Chronica delRey D. Afonso Henriques, e o refere Duarte Nunes na mesma, fol. 51. vers. que este Fidalgo tomou a bandeira delRey de Sevilha, na qual tinha pintado cinco Estrellas, como refere Gonçalo Argóte de Molina lib. I. c. 44. da Nobreza de Andaluzia, e assim tomou por armas as mesmas cinco Estrellas. Por semelhante occasiaõ trazem os Fonsecas outras cinco Estrellas por armas, por as trazer nas bandeiras ElRey de Lamego, a quem os primeiros desta geraçaõ cativaraõ, e tomaraõ a Cidade. E dahi as tomarão tambem os Coutinhos, que delles descendem. As Familias, que as trazem, saõ Alvellos, Avelares, Barbedos, Barbudos, Çacoto, Coutinhos, Freytas, Macedo, Perestrellos, Rojas, Salazares, Tavares, Leaes.

§. XI.

Arruelas.

Arruelas saõ circulos redondos, que muitos tem para si significarem Escudos; por quanto foy costume entre os antigos tomarem por sinal do inimigo vencido o Escudo, ou Elmo. Porèm Gonçalo Argòte de Molina[118] no liv. da Nobreza de Andaluzia cap. 103. diz que ElRey Artur de Inglaterra, quando instituhio os Cavalleiros da Tabola redonda, que he o mesmo, que mesa redonda, deu por armas a Janazio o Forte (que era hum dos mais valerosos) treze Arruelas, significando na figura de Arruela a mesa redonda; e o numero de treze serem outros tantos os Cavalleiros; porque doze foraõ escolhidos à honra dos doze Apostolos, e o decimo tercio era o mesmo Rey Artur. Depois o Emperador Carlos Magno fez outra companhia de doze Cavalleiros, a que chamou Pares, que quer dizer iguaes; e por isso tambem comiaõ em mesa redonda, onde naõ ha cabeceira.[119] Pelo que muitos Fidalgos, ou por descenderem destes Cavalleiros, ou por se mostrarem semelhantes a elles no valor, e merecimento, tomaraõ por armas as mesmas Arruelas, variando no numero: mas de ordinario eraõ seis, porque parece, que usando do vocabulo, Par, que naõ somente significa igual, mas tambem dous, sendo as Arruelas de pares, as seis montavaõ por doze. Daqui parece, que tiveraõ principio as treze Arruelas, e as seis dos Castros, e as seis Arruelas dos Mellos, e Almeidas, as quaes estaõ metidas entre duas Cruzes dobradas, que tambem denotaõ o mesmo nome de Par. As Familias, que trazem Arruelas, saõ Almeidas, Castros, Doutiz, Ferraz, Gouvea com Cruz dobrada, Mellos, Taveira, Teives.

§. XII.