Flores de Liz.

A origem dos Lirios nos Escudos, parece que se tomou do successo delRey de França Clodoveo,[120] o qual antes que se bautizasse, dizem que trazia no Escudo huns Sapos, depois que se bautizou, lhe appareceo hum Anjo com huns Lirios de Açucena na maõ, a que os Franceses chamaõ Flor de Liz; e lhe mandou, que tirados os Sapos, puzessem por insignias aquellas Flores. Saõ os Lirios hieroglyphicos da perfeiçaõ, da pureza, e da esperança do bem publico, como mostra largamente Pierio Valeriano nos seus Hieroglyphicos;[121] e por ser a mais fermosa Flor de todas, he Nosso Senhor nos Cantares comparado a ella. E no Evangelho disse Christo, que nem Salamaõ em toda sua gloria se vestira taõ ricamente, que chegasse à belleza de hum Lirio. Por estas razoens tomaraõ muitos Cavalleiros as Flores de Liz por armas, e as deixaraõ a seus descendentes, como foraõ os Albuquerques, os Gouveas, &c. Os de Faria trazem as Flores de Liz sobre o Castello, por quanto em cima do monte, donde o Castello de Faria està, permanece ainda hoje huma Igreja antiga de grande devoçaõ, e romagem, que chamaõ Nossa Senhora da Branqueira, a qual fundaraõ alli huns Monges Bentos, que foraõ os primeiros, que de França vieraõ a Portugal; e alli tiveraõ hum celebre Mosteiro, e por serem estes Monges Francos, e de França, puzeraõ nas armas Flores de Liz Francesas. Os de Miranda tambem trazem Flores de Liz Francesas no vaõ da Aspa, a razaõ he, porque se prezaõ de virem de huma Senhora da Casa de França, cuja figura trazem por timbre do Brazaõ numa imagem de Donzella, e em sua memoria puzeraõ tambem os Lizes Franceses no Escudo.

As mais Familias, que trazem Flores de Liz, saõ: Aldana, Atouguia, Borges, Carrilhos, Casal, Frasoens, Guedes, Leytes, Toronhas, Madureira, Maldonado, Marinhos, Martines, Matta, Motas, Moitinhos, Pavias, Rangeis, Reymondo, Rodrigues, Soares de Toledo, Travaços, Varejola.

§. XIII.

Castellos.

Os Castellos saõ antigas divisas das mesmas terras, como se pòde ver largamente na Noticia dos Imperios. Pelo que os mais dos Alcaides, e Senhores, que os tiveraõ por solares, ou os tinhaõ a seu cargo, os tomaraõ por armas. As Familias, que os trazem em Portugal, saõ Alcacevas, Asturias, Barrigas, Benambia, Berredos, Botos, Cameras, Carvalhosa, Castilhos, Celemas, Correlhas, Cotifer, Coutos, Esparragosa, Farias, Frias, Flores, Giroes, e huns Guzmaens com arminhos, por virem dos Duques de Bretanha, que os trazem por armas; ainda que outros trazem Caldeiras de Ricos homens, Horta, Larzedos, Malafaya, Menagem, Mouras, Pinas, Rolins, Saldanhas, Sobrinhos, Tangere, Ternate, Vellez, Vellosos, Zusarte.

§. XIV.

Cifras dos Appellidos.

As insignias mais ordinarias de todas as armas de Espanha saõ a cifra do mesmo Appellido, como confessa Argòte de Molina l. 1. 42. & 43. aonde diz, que os Reys de Leaõ tomaraõ por armas hum Leaõ, como cifra do titulo de seu Reyno de Leaõ, e os de Castella hum Castello. E assim vemos em quasi todos os Appellidos, que significaõ algum sinal, ou instrumento, os daquella linhagem tomarem por armas a mesma figura do Appellido. Os que trazem em Portugal nos Escudos por armas as peças, que significaõ os Appellidos, por cifra, saõ as seguintes. Os de Abreu, ou Avreu, os Cotos de aves; Alvernazes, ramos de Carapeto, alludindo ao verde perpetuo de Veraõ; os de Arco, o arco; os de Agumias, gumiz; os de Aguiar, aguias; os Aranhas, huma aranha; os de Azinhal, azinheira; os Azambujas, hum azambujeiro; os Bacellares, huns bacellos verdes; os do Appellido de Badajoz, a Imagem de S. Joaõ Bautista com a mesma Cidade na maõ, que tomaraõ, por a Sè de Badajoz ser do orago de S. Joaõ Bautista, e ser o Castello a Cidade; Bayaõ, cabras, por haverem sido Senhores de Cabriz; os de Belliagua, as aguas; Bicudo derivado de pecudum, que he gado, hum carneiro; Biscaya, as armas de Biscaya; Biveiro, Caldeiras de Ricos homens; Borreco, borregos; Botilher, humas botelhas; Brandoens, brandões; os Caceres trazem huma palmeira, que he insignia de vitoria; porque ainda que a parte delRey D. Pedro, que seguiraõ, ficou vencida, e elles foraõ desterrados de Castella, ficaraõ com a vitoria de se naõ sogeitarem à parte contraria, e conservando sua lealdade. Tambem se trazem as folhas de Golfaõ, por sinal da vitoria do campo, onde se deu a batalha, como se vè nos Furtados, Montoyos, e Taveiras; Cabral, cabras; Caldeiras; Camoens a serpente, que Cadmo matou, por se prezarem de descenderem delle; Çapatas, humas çapatas; os Cardosos, cardos; os Carneiros, carneiros; Carrascos, hum carrasco; Carvalhaes, hum carvalho, Carvoeiro, matta para carvaõ; Carvalhos, carvalho; Cerveiras, cervas, Chacins, os arminhos por antiphrasi; Chaves, chaves; Cirnes, hum cirne; Coelho, coelhos; Cordovil, oliveira cordovil; Cordeiros, cordeiros; Corvachos, corvos; Costa, costas; Correa, correas, Cotas, huma cota de armas; Couros, a serpe assim chamada, Cogominhos, Chaves, por terem por solar esta Villa, e haverem sido seus Alcaides Mòres; Cunha, cunhas; os Delgados, hum limoeiro com huns limoens de ouro, alludindo à celebre Albergaria de Payo Delgado, que fundaraõ em Lisboa no sitio do Limoeiro; Dragos, dragos; Evangelhos, as figuras dos quatro Evangelistas; Fagundes pelo solar de Chaves, trazem chaves; Farinha, bolos de farinha; Fialhos, tres mundos, alludindo à palavra: Fiat lux; Figueira, humas figueiras; Figueiredo, folhas de figueira; Fogaças, duas fogaças; Fragosos, que; em latim se chamaõ: Fulgosos, tres Soes resplandecentes; Galvaõ, hum gaviaõ. Gaviaõ, huns gavioens; Garcez, garça, Gatachos, e Gatos, huns gatos, os Guantes trazem manoplas (que saõ guantes) de prata; Lagartos, lagartos; Lagos, huma torre com huma ribeira ao pè; Lançoens, Lançoens: Laras, caldeiras de Ricos homens: e do mesmo modo os Manriques: Lobatos, lobos, Lobeira, lobos: Lobia, cordeiros, por ser a relè dos lobos: Lobos, lobos: Lousadas, as lousas dos lagartos: Lucenas trazem hum Sol, alludindo ao nome da luz, da qual he o Sol a fonte: Lucio, o peixe lucio: Lunas, humas luas, Machados: Mattos, matta com leoens: Moraes, amoreira, Monteiros, cornetas de montaria: Nabaes, e Novaes, novellos. Oliveiras, oliveira: os de Ortiz trazem hum Sol, pela equivocaçaõ de Ortus, que por antonomasia, quer dizer o nascimento do Sol, e pela allusaõ do verso do Psalmo: Ortus est sol: Pachecos, caldeiras de Ricos homens: Padilhas, humas paz, Paçanhas, huma banda vermelha com dentes de Serra pelo solar em Genova se chamar Penha, ou Serra roxa, que em nossa linguagem he vermelha: os Pedrosos, cinco pedras em aspa: Perdigão, perdigoens: Perestrellos, estrellas: Pinheiros, pinheiros: os Porras, humas cachaporras: os Puges, humas espòras quasi pungentes, ou picantes: Rego, rego: Ribafria, Castello sobre ribeira: Ribeiros, ondas, Sardinhas, hum ribeiro de sardinhas: Rio, e Rios, faxas de agua: Sarmento, huns sarmentos: Seixos, Pombas seixas: Serniches, humas serras: Serpas, Serpe: os Sylvas, a sylva: Tavora, o rio Tavora: Torquemadas, huma torre abrazada: Tourinhos, touros, Sodres, quasi sobrij, e temperados, tres gomiz: Trigueiros, espigas: Vasconcellos, as ondas dos ribeiros, por descenderem delles: Segurados, cinco machadinhas; que os latinos dizem Securis: Torres, torres: os Correas da Sylva trazem huma pelle de Leaõ, alludindo ser propria morada de Leaõ a sylva, confórme aquillo da Escritura.[122] Hereditas mea, quasi leo in sylva: e que de pelles de Leoens saõ as suas correas.

§. XV.