Em toda a parte costumaraõ os Reys, e Monarcas darem a seus primogenitos algum Titulo ainda em vida, para com isso os introduzir no governo das cousas publicas, e alcançarem mayor authoridade com o povo; e como todos os Grandes procurem imitar os Reys, alcançaraõ tambem muitos Senhores de Titulo de seus Principes outros Titulos taõ bons, ou menores para os filhos Morgados. Disto vemos hoje assaz de exemplos em Espanha, onde os mais dos primogenitos dos Duques tem Titulo de Duques, ou de Marqueses, e os dos Marqueses de Condes. Pelo que querendo tambem alguns Condes de Alemanha, França, e Italia, que a seus filhos se desse esta preeminencia, e naõ havendo outro Titulo inferior, lhes concederaõ os Reys nome de Vicecomites, ou Viscondes; encomendando-lhes juntamente com o Titulo o governo de algum lugar, confórme o affirmaõ o Ceremonial de Principes feito por Mosem Diogo de Valera, Garibay, e Padre Fr. Jeronymo Roman.[174] ElRey D. Afonso V. vindo de França, querendo gratificar os muitos serviços, que Leonel de Lima lhe fizera, lhe deu o Titulo de Visconde de Villa-Nova da Cerveira; e foy o primeiro que houve em Portugal, conservando-se atègora esta dignidade nos Senhores desta Casa. ElRey D. Joaõ IV. fez Visconde de Castello Branco a D. Pedro de Castello Branco. ElRey D. Afonso VI. fez Visconde da Asseca a Martim Correa de Sà, e de Barbacena a Afonso Furtado de Mendoça, e ElRey D. Pedro II. fez Visconde de Fonte Arcada a Pedro Jaques de Magalhaens.
Baraõ se dirivou de Baro, nome latino,[175] que confórme à melhor significaçaõ, quer dizer homem prudente, e grave. Pelo que com razaõ usou o nosso Luiz de Camoens desta palavra, quando na proposta dos seus Cantos dos Lusiadas disse: As armas, e Baroens assinalados, e naõ varoens, como alguns inadvertidamente querem. Os Italianos deraõ o nome de Baraõ a todos os Senhores de lugares vassallos doutro Principe, e assim he generico naquella Provincia; o que parece tem tambem lugar em Alemanha, e França pela grande multidaõ de Baroens, que hà naquelles Reynos. Em Portugal introduzio este Titulo ElRey D.Afonso V. que o deu a Joaõ Fernandes da Sylveira, depois que veyo de Italia, onde foy acompanhando a Emperatriz Dona Leonor mulher de Federico III. E assim neste Reyno he Titulo particular, e se diz tem obrigaçaõ de sahir em lugar delRey a desafio, em caso que seja chamado a campo. ElRey D. Afonso VI. fez Baraõ da Ilha Grande a Luiz de Sousa de Macedo.
As ceremonias, com que se estes Titulos daõ, naõ constaõ de alguma Escritura; mas sómente se collige do Regimento dos Reys de Armas, que se celebra este acto, indo os novos Titulados ao Paço, acompanhados de muitos Fidalgos, parentes, e amigos com os Reys de Armas diante, e que ElRey lhe diz: Venhaes embora Visconde, ou, Baraõ de tal parte.
Estas saõ as dignidades, que hà no Reyno, as quaes modernamente os Reys naõ costumaõ a dar com as solemnidades antigas. Pelo que o uso ordinario he sómente ir o que hà de ser Titulado ao Paço bem acompanhado; e entrando onde ElRey està, dizer-lhe ElRey as mesmas palavras, que agora referimos. Venhaes embora Duque, Marquez, ou Conde; e com isto recebe investidura do Titulo, e lhe fallaõ, e escrevem dahi por diante, como a tal. Isto porèm he nos Titulos, que ElRey faz de novo, ou a quem renova a mercè; porque os que tem de herança, sem mais ceremonia se intitulaõ da dignidade, em que succedem, e saõ havidos por taes.
§. XXVII.
Do Titulo de Senhor.
Este nome Senhor, se derivou do latino: Senior, que quer dizer o mais velho; e confórme a Scipiaõ Amirato[176] se começou a usar deste termo, pelo de Dominus, depois da entrada dos Longobardos em Italia; porque era ley entre elles, que tendo o Senhor de hum lugar muitos filhos, se repartisse por todos a fazenda; porém o governador do lugar ficasse sempre com o mais velho; pelo que lhe chamavaõ vulgarmente: Senior illius loci; que he o mesmo, que o mais velho do lugar; ao que ajuda o que diz sobre esta palavra: Senior, Santo Agostinho Epist. 174. Este mesmo costume guardavaõ, segundo parece, as mais das naçoens do Norte; porque todas ellas os tiveraõ quasi semelhantes, e por elles se governaraõ muitos em lugar de leys. Pelo que assim o deviaõ fazer os Godos em Espanha, e se prova claramente da historia de Joaõ Abbade de Valclara, e Bispo de Girona nosso Portuguez; qual chama a Aspidio Senhor dos montes Agarenses, Senior loci, que quer dizer: Senhor do lugar. E nos Concilios de Espanha aos que humas vezes chamavaõ: Proceres, & Optimates; igualmente os diziaõ outras vezes: Seniores; e em todas as Escrituras dos Reys de Navarra de 500. annos atraz se dà o nome de Senior, ao Senhor de qualquer lugar; e se usava nas Escrituras igualmente pelo de Dominator; como mostra largamente Morales,[177] e Escholano,[178] e o Padre Fr. Antonio de Yepes[179] na Confirmaçaõ da entrega do Mosteiro de S. Torcato, diz que confirma entre outros; Diogo Alvares, nesta fórma: Senior Diogo Alvres. O mesmo consta de França, e Italia, segundo Gregorio Turonense, e Scipiaõ Amirato.[180] Pelo que desta ley dos Longobardos, e Godos parece teve origem o antigo costume de Espanha de chamarem sempre aos irmaõs mais velhos, assim Reys, como Titulos: Senhores; e isto com tanta particularidade, que se prohibio por ley, que ninguem podesse chamar meu Senhor ao Rey, senaõ às pessoas Reaes, atè o quarto grào, e Duques do Reyno; posto que darem os mesmos Titulos os Fidalgos, e Nobres aos pays foy ordinario em tempo de nossos Avòs, e aos Avòs tambem por isso diziaõ: Donos, os antigos, que era o mesmo que Dominios, e Senhores; com tudo o nome de Senhor de terras se veyo a usar tanto, que os que as possuiraõ com jurisdicçaõ, deixaraõ por elle o nome de Vassallos; e principalmente des do tempo delRey D. Afonso V. para cà, chamando-os ElRey em suas Provisoens, e Alvaràs: Senhores dos taes lugares, e tem assento nas Cortes depois dos Fidalgos do Conselho.
§. XXVIII.
Da dignidade da Cavalleria.
Concluamos esta materia das dignidades da Nobreza com a da Cavallaria, a qual foy antigamente taõ estimada, que até os mayores Principes de Europa procuravaõ com grande cuidado recebella, entendendo que ficavaõ com ella mais acrescentados com reputaçaõ, e authoridade, assim lemos,[181] que a Espanha vieraõ Conrado Duque de Suecia filho do Emperador Federico I. e D. Raimon de Flacada Conde de Tolosa a se armar Cavalleiros da maõ delRey D. Afonso XI. de Castella, e Eduardo Principe de Inglaterra, da delRey D. Afonso Sabio; e do mesmo modo, só para este effeito vieraõ a Portugal outros Grandes Senhores em varios tempos. Porém os que nesta parte a meu parecer alcançaraõ mòr gloria, foraõ os nossos Infantes filhos delRey D. Joaõ I. porque só com este intento emprenderaõ a expugnaçaõ de Ceita; e ElRey D. Joaõ II. sendo Principe, a de Arzilla. Dava-se tambem esta dignidade em tempo de paz, e com grandes festas, quando alguma Personagem sobia a novo Titulo, como o fez[182] ElRey D. Pedro, quando creou Conde de Barcellos D. Afonso Tello, seu grande privado, para o qual acto mandou fazer cinco mil cirios, que outros tantos homens tinhaõ na maõ toda a noite, que o Conde velou as armas em S. Domingos de Lisboa, estando postos em procissaõ, des do Convento até os Paços de Alcaçova. ElRey D. Afonso V. armou[183] a seu irmaõ o Infante D. Fernando Cavalleiro com tanta solennidade, que quasi o menor apparato desta pompa foy precederem diante deste magnifico acto mil tochas, quatrocentas levavaõ Cavalleiros, e as seiscentas Escudeiros dos mais luzidos da Corte, todos vestidos de hum trage, e librè.