DO PAÇO.
Taxaõ este livro em mil e duzentos reis em papel para que possa correr. Lisboa Occidental 4. de Abril de 1740.
Pereira. Teixeira. Vaz de Carvalho
VIDA
DE
MANOEL SEVERIM
DE FARIA:
Escrita pelo Adicionador.
Entre os grandes homens de que Lisboa tem a gloria de ter sido Patria, foy hum Manoel Severim de Faria, que teve por Pays a Gaspar Gil Severim Executor Mòr do Reyno, e Escrivaõ da Fazenda Real, e sua segunda mulher Dona Juliana de Faria. Naõ pude descobrir o dia, em que veyo à luz do Mundo, mas pela idade, em que falleceo, devia de ser o anno do seu nascimento o de 1581. ou 82. Sendo ainda menino foy para Evora assistir em casa de seu Tio Balthesar de Faria Severim, Chantre que era daquella antiga, e illustre Cathedral. Aprendeo em Evora Filosofia, e Theologia, em que fez progressos taõ grandes, que em ambas estas Faculdades tomou o grào. Vendo-o o Tio jà capaz, naõ menos pelos annos, que pelas letras, de lhe succeder no Chantrado, o renunciou nelle em 16. de Setembro de 1609. e depois de lhe dar a posse, se recolheo ao Convento da Cartuxa da mesma Cidade, aonde professando com o nome de D. Basilio, deixou dos seus estudos, e virtudes igual memoria. Naõ se esqueceo Manoel Severim de Faria com a nova Dignidade do que estudàra, como muitas vezes succede; mas procurando adiantarse cada vez mais em todo o genero de Sciencias, se applicou à liçaõ da Sagrada Escritura, da Theologia Mystica, da Historia, da Politica, da Geographia, e das Antiguidades Romanas, e Portuguesas, em que foy insigne. A mayor parte do rendimento daquelle pingue beneficio converteo em livros, de que juntou huma grande copia, naõ só estimavel pelo numero, como pela qualidade, pois àlem de algũs, a que a raridade dos exemplares fazia preciosos, se achavaõ naquella celebre Livraria alguns Volumes escritos no Papyro do Egypto, outros em folhas de palmas com pena de ferro, a que chamaõ estilo, e entre elles as obras de Fr. Luiz de Granada traduzidas na lingua do Japaõ. A sua generosa, e conhecida curiosidade o fez Senhor de hum thesouro de Moedas Romanas, e Portuguesas, pois como se lè em algumas das suas obras, eraõ tantas as que se lhe levavaõ, que parece que a terra se desentranhava para o enriquecer. Conservou grande numero de vasos, e outras reliquias da grandeza Romana, de que formou hum Museo digno de hum Principe; mas por sua morte desapareceo de maneira, que delle naõ ha mais que huma lastimosa tradiçaõ. Tendo renunciado em outro Sobrinho seu do mesmo nome o Chantrado de Evora, depois de huma dilatada emfermidade de Tericia, falleceo naquella Cidade em 16. de Dezembro de 1655. em idade de setenta, e dous annos. Foy de boa estatura, muito corpulento, olhos azues, naturalmente descorado, mas de agradavel presença. O seu Cadaver foy levado com a mayor pompa que se pòde considerar, porque àlem das Communidades Religiosas, da Cleresia, e Confrarias da Cidade, concorreo toda a Nobreza, e Povo, porque de todos era igualmente bemquisto, e respeitado. Deose lhe sepultura em hum dos angulos da Cemiterio da Cartuxa, e sobre a Campa, em que estaõ abertas as Armas dos Severins, e Farias, se lè esta inscripçaõ.
Manoel Severim de Faria Chantre, e Conego da Sè de Evora, elegeo para si esta Sepultura, assim por sua devoçaõ, como por estar nella o Corpo do P. D. Basilio de Faria seu Tio, que falleceo sendo do Prior deste Convento a 5. de Abril de 1625.
INDEX
DOS PARAGRAFOS, QUE SE CONTEM neste Livro.
[DISCURSO I.]
Dos meyos com que Portugal pòde crescer em grande numero de gente, para augmento da Milicia, Agricultura, e Navegaçaõ. §. I. [pag. 1].