Que nome tivessem estas Moedas, naõ pude alcançar em particular, mas em commum, as que se achaõ nas nossas Chronicas, saõ tres generos de Moedas de ouro, humas chamadas Dobras Mouriscas, outras Dobras Validias, outras Maravidis de ouro.

As Dobras Mouriscas tinhaõ a valia da Dobra Cruzada,[207] que da nossa Moeda faz agora 270. reis, posto que no peso passaria de 600. se agora se achasse, como entendo que o he huma de ouro, que tenho entre outras, que se acharaõ modernamente em Beringel.

Dobras Validias eraõ Moeda de Berberia, que se batia em Tunes de 23. quilates, e terço de peso, e diz a Ordenaçaõ velha, que valia doze Reaes brancos dos primeiros, pelo que vinha a montar da nossa Moeda 216. e destas Dobras se faz particular mençaõ na historia do primeiro Capitaõ de Ceita[208] onde se falla tambem de outras Dobras Mouriscas, com estas palavras: Dobras Validias era Moeda Mourisca, e communalmente esta era a Moeda de ouro, que se mais corria com estes Reynos, e isto era quasi em todo los tempos dos Reys passados. Sempre os Mouros dalem mar trataraõ nestes Reynos de mercadoria, comprando pela mayor parte todolos annos a fruita do Algarve, e que naõ pagavaõ, senaõ em ouro; e a mayor parte daquellas Dobras saõ feitas em Tunes, e eraõ 23. quilates, e terço de pezo. E outras Dobras traziaõ aquelles Infieis, a saber Dobras de Prazida; e de Sagilmensa, e de Marrocos, de que este Reyno foy assaz fornido, especialmente os thesouros dos Reys, como no começo dos feitos deste Rey fica contado, &c.

Maravidi he Moeda, que os Mouros introduziraõ em Espanha,[209] cujos Authores dizem, que foraõ os Almoravides, que cà vieraõ, de maneira, que antes observa o Mestre Ambrosio de Morales, que senaõ acha mençaõ desta Moeda, nem da conta dos Maravidis nas memorias de Castella, e pelo contrario de entaõ para cà foy taõ ordinaria em Castella a conta dos Maravidis, que por elles se faziaõ todas as computaçoens dos preços das cousas, e das Moedas, o que ainda hoje permanece; porque para significar a valia do Real de prata, dizem que tem 36. Maravidis, e o dobraõ de ouro 960. Maravidis; computando o Maravidi pela valia do nosso Real de cobre; porèm cà em Portugal ainda que se usou desta Moeda, parece que naõ foy mais que a de ouro, 60. das quaes faziaõ hum marco. Pelo que segundo o preço, vinhaõ a montar hoje 500. reis; com tudo este nome de Maravidi se veyo estender tambem às Moedas de ouro Portuguesas; de maneira, que se diz na Chronica delRey D. Sancho I. que deixou a seu filho ElRey D. Afonso 10U000. Maravidis de ouro.

Isto que està dito dos Reys Mouros, que senhorearaõ Portugal, se entende principalmente atè o tempo delRey D. Fernando o I. de Leaõ, por quanto este Rey tomou Coimbra, e Santarem, e deixou a seu filho ElRey D. Garcia quasi toda a terra, que pertencia a Portugal atè o Tejo; e poucos annos depois seguindose-lhe ElRey D. Afonso Henriques com a tomada de Lisboa, Evora, e Vitoria do Campo de Ourique, e de outros lugares de Alentejo, ficou ElRey quasi Senhor de todo o Reyno; e assim elle, como seus descendentes, foraõ os que mandaraõ bater Moedas com seus nomes, e insignias, como se hirà vendo de cada hum em particular.

§. XXII.

Moedas dos Reys Portugueses.

A primeira casa de Moeda, que houve em Portugal, foy no Porto, onde os primeiros Reys deste Reyno fizeraõ bater Moeda, mandando vir Officiaes Estrangeiros, porque os naõ havia no Reyno, e por isto lhes concederaõ tantos privilegios, como ainda hoje tem. Havia tambem casa de bater Moeda em Valença, e em Lisboa, como tudo se ve do cap. 57. da Chronica delRey D. Fernando; e tambem a houve em Evora, como se diz na 2. p. da Chronica delRey D. Joaõ I. cap. 5.

Em razaõ de estar a Casa da Moeda no Porto, se vem hoje os Seitis, e boa parte das Moedas antigas com humas Torres por divisa, e hum Rio por baixo, que saõ as Armas daquella Cidade; depois passando a Corte dos Reys para Coimbra, faz mençaõ muitas vezes o Conde D. Pedro, e particularmente no t. 36. §. 3. dos Moedeiros de Coimbra; por onde parece, que tambem alli os havia. Ultimamente se poz esta Casa em Lisboa, onde ao presente està; consta esta Casa, e se governa por huma mesa, de que he presidente o Thesoureiro da Moeda, e assistem nella mais dous Juizes da balança, e dous Escrivaens da receita, e despeza; os outros cargos provè todos o Thesoureiro, que saõ Fundidor, Affinador, Ensayador, outo Contadores, outo Branquidores, seis Fornaceiros antigos, e trinta modernos, que acrescentou ElRey D. Joaõ III. dezaseis Cunhadores, dous Porteiros, hum da Casa do Thesouro, outro da porta. He esta Casa sogeita ao Tribunal da Fazenda, e o Veèdor da Fazenda da repartiçaõ da India he o que particularmente preside nesta Mesa quando là vay.

Isto he o que se pòde colher do principio das Moedas, que bateraõ os Reys deste Reyno; ainda que naõ consta, se ElRey D. Afonso Henriques bateo Moeda, nem os nomes particulares dellas; só consta que todas as computaçoens que se faziaõ, eraõ por livras; e que deste nome ouve Moedas de prata, e de cobre, atè a de menor valia; porque assim como agora nòs fazemos as contas por reais, assim se faziaõ naquelles tempos por livras; mas como desde ElRey D. Afonso Henriques, atè ElRey D. Afonso IV. naõ se pòde averiguar, quaes foraõ os Reys, que bateraõ estas livras, deixaremos assim as mesmas livras, como as outras Moedas, que dellas procedem, para o ultimo titulo deste Discurso, por continuarmos com as Moedas, que os Reys fizeraõ atègora conhecidamente.