Senhor! se desabassem Á tua vóz as bellas E limpidas estrellas Dos ceus que não teem fim, Eu creio que assombrado Do horrendo cataclysmo, O Sol, d'além do abysmo, Seria egual a mim!

Eu lembraria a aguia, Que a prole ainda implume Deixando sobre o cume De monte erguido ao ceu, A fosse achar de subito Na rocha alcantilada, No ninho, fulminada D'um raio que desceu!

Egual seria o quadro Da minha consciencia, Ao ver a tua ausencia Fazer-se em mim, Senhor! Que em volta do teu astro Minha alma de poeta É pallido planeta Buscando o teu amor!

E eu sem ti nem vivo!... Tu és, oh, doce esperança, O seio onde descança Meu ser e afinal Não sei até dizer-te O quanto soffreria, Se vira extincto um dia Em mim, teu Ideal!

Oh não mil vezes antes Em carcere ermo e escuro, Achar-me de futuro A sós c'a minha dôr; Extincta a luz dos olhos, E as bellezas do mundo, E o ceu azul profundo Com todo o seu fulgor!

Tu crê que nem demandam Os mundos inferiores Fócos de luz maiores, Por esse infindo azul, Como eu o eterno centro Das leis da natureza, Do Amor, e da Belleza, Que são meu norte e sul!

Oh Pae! se n'algum dia, Eu vir, n'uma miragem, Alguma falsa imagem Do Bem prender-me aqui: Desvenda a tua face, E mostra-me o teu seio, Que, mesmo embora em meio Do abysmo, irei a ti!

Irei, tão instinctivo, Tão amoroso e firme, Eu sinto a attrair-me A ti o teu poder, Que eu vejo em ti o Norte, Para onde se encaminha A pura essencia minha, Que sente, pensa e quer!

Irei vencendo, indomito, Innumeros attrictos, E escolhos infinitos, E infindos escarceus, Como essa vaga enorme Do mar que não recua, Seguindo sempre a lua Que vê passar nos ceus!

Irei bem como a Terra Seguindo eternamente O rumo do oriente A demandar a luz; Bem como Jesus Christo O rumo solitario Da senda do calvario Á busca d'uma cruz!