Irei cá d'este mundo Onde tu me cedeste A dadiva celeste Da Rasão e do Amor: Raios vitaes que mudam Em luz a nossa essencia, E a luz em Consciencia, E esta em ti, Senhor!

Lisboa, 1869.

VI

REVELLAÇÃO

O LAGO

Scismava um dia na cruel sentença Com que a Egreja fulmina a raça humana, Deixando impura a fonte d'onde emana O sangue que me anima, e a alma que pensa:

E ao passarem no ceu do meu destino As nuvens da tristeza e da saudade, Revellou-me o Senhor alta verdade, Junto ás margens d'um lago crystalino!

Isto foi pelo mez do abrir das flôres, Quando a vida celebra os seus noivados, E o mundo, sob os verdes cortinados, Parece um doce thalamo d'amores!

Estava um dia esplendido! a animal-o Eu via o seio azul do ceu mais lindo Curvar-se sobre mim, ethereo, infindo E tepido: era um gosto enamoral-o!

Como fecho da abobada infinita, O Sol nos ceus, riquissimo objecto, Com barras d'ouro irradiava o tecto Do vasto pavilhão que o mundo habita!