Côres variadas, fórmas differentes, N'um conjuncto de graças sem egual, Debuxavam-se ali ao natural Sobre o crystal das ondas transparentes!

Alvas manchas d'insectos pequeninos, Envolvendo-se em giros caprichosos, Como tríbus de povos venturosos, Fruiam junto ao lago os seus destinos!

Pelas balsas cantava a toutinegra, E as rolas modulavam doces côros, No ar passavam fremitos sonoros Co'as vibrações da Luz que o mundo alegra!

No lago, a planta, a flôr, o ceu, a terra, Como notas d'uma unica harmonia, Revellaram-me á plena luz do dia, Enlevos que o prazer da vida encerra!...

E eu via tudo, e extatico scismava: Se por ventura a colera divina, Segundo a Egreja ao mundo inteiro o ensina, Do gremio dos felizes me affastava!...

E não podendo crer, embora obscuro Vêr-me qual sou, que esta alma de poeta, De tanto sonho explendido replecta, Atollada estivesse em lôdo impuro...

Ai! quando a Deus pergunto se prendeu N'um pó que é vil o espirito divino, Olho o espelho do lago crystalino E não encontro o lago: encontro o ceu!

O mesmo que era em cima azul, immenso, E a lampada brilhante que o alumia, Lá no fundo do abysmo aos pés os via, De sorte que em dois ceus era suspenso!

E quanto se ostentava em torno ao lago, Os muros de verdura, a flôr mimosa, O deslisar da nuvem vaporosa, E a voltear do insecto incerto e vago:

Outro tanto animava, ao longe, e ao perto, Aquella região d'azul vestida, Onde a minha alma, em extasi embebida, Contemplava na Terra um ceu aberto!