E emquanto extasiado a sós fitava, Nas bellezas do lago transparente, Aqui uma flôr, além, para o poente, A nuvemsinha branca que passava,...
Eis senão quando, uma ave, porque visse Insectos junto da agua socegada, Desceu subtil, aerea e delicada, E ao perpassar roçou-lhe a superficie,...
O ponto ferido, em ondas borbulhando, Desabrochou em curvas graciosas, Como as folhas concentricas das rosas, Ou lusidias cobras imitando!
E emquanto o impulso em torno se propaga Em circulos risonhos: n'um momento, Toda a cupula azul do firmamento Oscilla, treme e cae, e o Sol se apaga,
E a arvore, e a flôr, e quanto junto á margem, Em doce paz, seu rosto reflectia No crystalino espelho, por magia Da lei do amor, a doce lei da imagem!...
Fere-me então bem intima tristeza, Ao vêr aos pés, em sordido tumulto, Um lymbo verde e escuro onde occulto Estava um ceu tão rico de belleza!...
Lembrei-me então da minha vida insana, De quanto sonho lindo anda desfeito Nos intimos arcanos do meu peito, Co'o tropel das paixões da vida humana!...
E as lagrimas cahiram-me uma a uma Sobre esses bens que a Terra e os ceus inspiram, E ao contacto das coisas se extinguiram Como aereos balões feitos d'espuma!
N'isto o Senhor, que tudo vê e ampara, Converte-me de novo o charco immundo N'um ceu azul infindo, e n'elle um mundo Formoso como os bens que imaginara!...
Scismei então por longo espaço e digo, Que aos olhos meus por Deus fôra patente: Que a alma humana póde, ingenua e crente, Vivendo em paz, um ceu trazer comsigo!