Pois eu que sou o espirito das cousas, O verbo inspirador, a alma, a vida; Sinto em meu peito a gratidão devida Á tua mão que attrae Em giro eterno os mundos do Universo; E eu vendo orar ao Sol a flôr n'o matto, Não hei de só ficar injusto e ingrato Para comtigo, oh Pae!
Seja pois o meu canto a voz do interprete, Que moldando nas formas da palavra A vida universal que em tudo lavra Co'o sopro animador: Eu possa vêr a Terra envolta em canticos, Sobre as azas de luz da alma humana, Remontar-se ás origens d'onde emana, As tuas mãos, Senhor!
Quinta da Beselga
1871.
IX
SURSUM CORDA!
Oh Sol, alma do mundo! esplendido portento D'um mar feito da luz! vulcão, cuja fornalha, Por entre um fogo eterno, expande o movimento Da machina febril do mundo que trabalha! E tu, Astro do amor, que, em noite silenciosa, Qual perola engastada em fulgidos brilhantes, Derramas tua luz serena e voluptuosa Nos seios virginaes das timidas amantes: C'o os vossos esplendores, Pela amplidão dos ceus, Cantae altos louvores Ao espirito de Deus!
E tu, mar rugidor! austero cenobita, Que em vastas solidões gemendo os teus pesares, Levantas o teu canto á abbobada infinita, Juntando a vóz piedosa aos céllicos cantares! E vós, filhas do ermo, alegres, crystalinas Fontes que derivaes das fendas dos rochedos, Ás flôres murmurando, em musicas divinas, De amor e de ventura uns intimos segredos: Mudae as harmonias Da vossa eterna vóz Em ternas homilias Ao pae de todos nós!
Arvores que fluctuaes nos cimos das montanhas, Altivas demandando o azul do firmamento; Que encheis as solidões de musicas estranhas, Se passa sobre vós o espirito do vento! Lyrios, que abrindo o seio ao osculo amoroso Da luz que envia o sol da abbobada azulada, Mandaes-lhe o vosso olor no ether luminoso, Como o habito subtil d'uma alma enamorada: A musica e o perfume Que desprendeis, votae A quem em si resume O mundo inteiro e é Pae!
Oh rabidos leões! lá quando em vossas festas, Altivos como os reis, indomitos senhores, Debaixo do docel das mûrmuras florestas, Rugis como um trovão os fervidos amores! E vós, corças gentis e timidos cordeiros, Que em vossos corações e almas bem formadas, Ao sangue preferis a lympha dos ribeiros, E á carne em podridão as hervas perfumadas: Louvae a quem fizera, Co'o mesmo engenho e amor, As fauces d'uma fera, E o calice d'uma flôr!
Arvores, flôres, mar, e estrellas, e animaes, E todos vós que entraes no giro da existência; Que haveis nas regiões das cousas immortaes, Por synthese suprema, a luz da consciencia: Unindo-vos a mim, como eu á Humanidade, Louvemos todos nós n'uma oração sentida, Em côro festival que attinja a immensidade, O eterno Sol dos Soes, o sabio Author da Vida! Cantemos, creaturas! Pela amplidão dos ceus, Hossana nas alturas Ao espirito de Deus!