Novembro de 1898.
XX
NOVA LUZ! NOVO IDEAL!
Espirito Supremo, d'onde brota A luz que eterna os mundos alumia, E deixa pelo espaço uma harmonia Echo da tua vóz! Inspira-me a assistir, sereno e impavido, Ao funebre ruiz do christianismo, E d'este inevitavel cataclysmo Salva-te a ti e a nós!
A Ti, o forte, o sabio, o justo, o symbolo De toda a perfeição, a ti importa Que d'esta fé, tornada letra morta, Vejamos renascer Do mundo novo a crença ardente e rutila, Co'o magico fulgor da nossa Ideia, O espelho onde melhor se patenteia No mundo o teu poder!
Ao teu olhar religiões sem numero, Com ritos, cultos, cheios de fulgores, Desambam, como as petalas das flôres Ao Sol que as reproduz!... Que um novo Ideal d'amor, de ti nascido, Trajando d'ouro e purpura o horizonte, Das sombras de hoje, esplendido desponte, A dar-nos nova luz!...
Outra verdade, filha d'estes tempos, Que venha a nós em nome teu, n'esta hora, Matar a sêde ardente que devora Os nossos corações, Depois que á intensa luz de mil combates, Travados pela fé contra a Sciencia, Começa-se a apagar na consciencia O ideal christão!
A Ti attraes as almas como as aguias De monte em monte a prole aos ceus subindo, Fazendo com que attinja o espaço infindo Que abarca o seu olhar!... De Brahma a Budha, de Moysés a Christo, Se fez essa ascenção prodigiosa, Ao fim do qual a alma é desejosa De a novos ceus voar!...
Ah d'esta vacuidade em que se encontram Os nossos corações cheios de febre, Que uma alma nova irrompa e audaz celebre Suas nupcias d'amor Co'o mundo que lhe coube por partilha, Passando a co-existir serenamente, Harmonica, feliz e resplendente, Como ante o Sol a flôr!...
Por nós, que não por ti, que és intangivel Ás frageis condições da vida humana: Perante o aspecto triumphal que emana De toda a creação: Convem-nos expurgir do fundo d'alma, Da fonte onde se gera o pensamento, O cunho de tristeza e desalento, Que imprime o ideal christão!...