Ha na verdade em tudo o que é belleza, E força e vida e amor nas creaturas, Desde os astros que brilham nas alturas, Á flôr a nossos pés: Tanta porta do ceu a abrir-se á alma; Riqueza tanta e tanto amor occulto A revellar-te a Ti, que é justo um culto Erguer-lhes outra vez!

Digamos a verdade: uma semente, Que eterna e intacta a arvore resume, Com troncos, folhas, flôres e o perfume Que entrega ás virações: Encerra em si mais luz, lição mais pratica, Mais digna de por nós ser apprendida Qual maxima d'amor, e ideal da vida, Que um livro d'orações!

Tua alma é presa ao mundo que creaste E o mundo, cuja orbita infinita Abrange a Terra, e os Ceus, onde palpita D'amor teu coração, Tem jus a que façamos d'elle a Biblia Eterna, aonde apprenda a Humanidade, Sedenta de Justiça e de Verdade, A nova religião!...

Ah tens a executar teus vastos planos D'amor, e de Justiça, aurifulgentes, Fanaticos aos mil, e mil videntes, E innumeros heroes, De varia estirpe: o artista, o justo, o sabio, Buscando interpretar teu pensamento; E encontram pelo azul do firmamento No mesmo afan os soes!...

Que á tua vóz as gerações extinctas Resurjam e contemplem com surpreza Esta obra immensa, cheia de belleza, Que em multiplo labor, As novas gerações estão fazendo!... Que em nome da Verdade triumphante, Unisono na Terra se alevante Este hymno em teu louvor!

1889.

XXI

APPELLO SUPREMO!

A minha alma immortal n'este exilio onde existe, Abrigando no seio a ideaes tão risonhos, E entre os homens só vendo um sarçal ermo e triste, Onde outro'ra plantára o jardim dos seus sonhos:

Teve a sorte cruel d'uma flôr, que enganada Pelos raios do sol, ainda inverno e entreabrio; Mas que dias depois, co'o cahir da geada, E o soprar do nordeste, afinal, succumbio!...