E eu amo a nuvem negra que imponente Abre nos ceus a fulgida garganta, E vomita do seio o raio ardente, E com elle o trovão que o mundo espanta,...
E a pudibunda nuvem d'alvorada Quando, ante o Sol esplendido que assoma, Parece virgem pura e delicada, Branca de neve com dourada coma!...
Oh nuvens que passaes no firmamento, Bandos aereos d'illusões perfeitas!... Vós que tão lindas sois, e n'um momento, No chão cahis em lagrimas desfeitas!
Quando vos vejo pelo azul profundo, Voluptuosas, gentis e transparentes: Lembraes-me os sonhos que lancei ao mundo, Como um bando de pombas innocentes!...
Bem mais felizes vós, que, n'um momento, Passando aereo fumo em valle e serra, Levaes comvosco, a vida, o movimento De quanto nasce e vive sobre a terra!...
Já não assim meus sonhos, muito embora Levem comsigo as novas do futuro: São nuvens bellas d'esplendente aurora, Desfeitas sobre um chão ingrato e duro!...
Carvalhaes, 1873.
VI
ÁS FLORES
Eu venho-vos cantar, mimosas flôres, A vós irmãs da luz, gentis e bellas, Do chão que piso vívidas estrellas, Com mil perfumes, mil viçosas côres!