Nas mesmas condições de saber, de coração e de espirito, mas n'uma ordem de ideias oppostas ás de Silva Bruschy, mencionaremos ainda o general Luiz Flippe Folque, conselheiro de estado, mestre que tinha sido dos reis extinctos D. Pedro V e D. Luiz I, e que foi quem acompanhou e dirigiu o primeiro d'estes dois monarchas na sua viagem d'instrucção e recreio pela Europa.

Era um perfeito homem d'estado, modesto, erudito e tolerante para com todas as opiniões. Devemos a seu genro o Conde de Nova Goa, nosso velho e dilecto amigo, a convivencia com este perfeito homem de sciencia, de cujas lições colhemos muitos elementos de ponderação para formarmos juizo imparcial e seguro sobre a historia dos partidos politicos em Portugal.

Resta-nos mencionar nosso sogro, o general de divisão, Roque Francisco Furtado de Mello, que foi juiz do Tribunal Superior de Guerra e Marinha, que se orgulhava de ter feito as novas campanhas da Liberdade, e sua sancta esposa D. Maria Maxima de Berredo, filha d'um dos regeneradores do movimento revolucionario de 1820.

Ambos tinham sido victimas das guerras civis desde o cerco do Porto e ambos soffreram, com suas familias, as mais crueis perseguições dos sequazes do absolutismo em Portugal.

Para inteiro esclarecimento, ainda diremos que alguns dos nossos parentes, tanto do lado paterno como do materno, eram legitimistas convictos, que se achavam destituidos das honras e benesses do antigo regimen, e que protestavam contra a nova ordem de coisas.

Tal foi o meio social em que nos achámos ao sahirmos do lar paterno.

A nossa posição singularmente favorecida n'este conflicto de interesses historicos, tendo tido a coragem de evolucionármos em nome da sciencia, e sob a influencia dos espiritos mais cultos da epocha, para o regimen da democracia pura, que melhor chamaremos do Direito Humano, inaugurado com a proclamação dos Direitos do Homem, em 1789; a excepcional ventura de conquistarmos para a sinceridade das nossas crenças a tolerancia dos nossos competidores, tudo isto concorreu para nos fortalecer no Ideal d'um novo Direito, d'uma Nova Justiça, d'uma Nova Moral, de que este livro é um modesto precursor no campo da poesia patria.

Não podiamos deixar por isso de o consagrar á memoria inolvidavel d'essas venerandas creaturas, quasi todas hoje extinctas... ás almas d'eleição que tanto fortaleceram as nossas creanças na bondade e na virtude humana.

Por outro lado pertencendo pela educação que demos a nós mesmos, destruindo pela base a que recebemos no berço, aos homens de genio e de fé, que espalharam pelo mundo os principios revolucionarios de 1789 e tentaram as primeiras applicações praticas aos problemas pendentes da humanidade, e genios em que havia poetas como Lamartine e Hugo, musicos como Beethoven e Ricardo Wagner, economistas como Bastiat, publicistas como Proudhon, historiadores como L. Blanc, philosophos da grandesa e originalidade de Quinet e Michelet, cujos ideaes de justiça e d'amor nos conquistaram e nos acompanharão até á morte: comprehende-se que em nome d'elles não ponhamos hoje a nossa fé e a nossa esperança sobre a regeneração do Mundo nas gerações actuaes, incredulas, scepticas, e devoradas pela febre do ouro e do goso!

N'este actual periodo historico, que é todo de negação, sem ideaes definidos, e cheio de convenções, de hypocrisias e mentiras, cujo estado pathologico foi magistralmente descripto por Max Nordau no seu livro celebre Les Mensonges conventionelles de notre civilisation, é natural que não encontrem echo estes nossos Cantos, nascidos d'uma grande fe no futuro da Humanidade!