São quasi todos uns modestos preludios, uns gorgeios ainda incertos, d'uma nova alvorada, e por isso os consagramos ás gerações que hão de ter a ventura de ver em plena claridade o dia de que apenas distinguimos os primeiros pronuncios nos horisontes do futuro e da patria.
O QUE EU VI
Paginas 1 e 2
Esta poesia é uma das quatro ou cinco d'esta collecção que já foram publicadas. Não podemos verificar n'este momento, por falta de tempo, em que jornal litterario e em que data o foi.
Pode dizer-se que é o prologo e a synthese de todo este livro de Cantos. Pode até mesmo servir d'explicação ao sentimento religioso que se accusa tão accentuadamente em quasi todos os nossos trabalhos poeticos.
Como d'ella se deprehende o Deus a quem nos referimos está completamente fóra dos moldes das religiões revelladas, dos ergastulos da fé dogmatica. É o Pae da Vida, a Fonte do Amor, o Deus da Natureza.
É como que o symbolo que personifica a Perfeição Absoluta; o Ideal do Universo; A causa primaria de todo o existente; O sol vinificador das consciencias e dos mundos.
É a Belleza, é o Amor, é a Justiça, a que tudo obedece, levados ao maximo grau d'intensidade que é dado á razão humana attingir n'um determinado cyclo historico, e que, como tal, illumina as consciencias, dirigindo-as!...
Para todo o coração terno, para toda a alma de artista, será sempre imprescindivel antepôr-se ao espectaculo magnificente e deslumbrador do Universo, á marcha triumphal da Luz e da Vida por toda a parte penetrando nos ultimos reconditos do mundo visivel e invisivel, e sem a interrupção d'um só instante na sequencia incalculavel dos seculos, tirando de lá as maravilhas da natureza, antepôr-se, dizemos, um mundo moral com as paginas infinitamente bellas das civilisações já extinctas; um mundo que synthetise todo o Ideal da Humanidade. E, n'esse Mundo Moral, Deus é o Ser por excellencia, a chave insubstituivel do multiplo e mysterioso Problema da Vida.
Nas insondaveis e invisiveis regiões da consciencia humana, o mundo exterior, que é o reflexo, a continuação, o complemento do mundo interior, encontra n'este, como outros tantos Ideaes da Perfeição Suprema, as Leis da Vida, que actuam imperturbaveis, omnipotentes e eternas.