Sirva esta nota de explicação ás poesias congeneres e complementares d'estas, Avé Creator pag. 37, e o Sursum Corda pag. 41 e outras.

TRISTEZA

Paginas 5 a 7.

Escrevemol'a n'uma manhã de primavera na tapada d'Ajuda, quando esta não era ainda frequentada pelo publico da capital.

N'aquelle recinto onde não entravam os rumores da grande cidade, na benefica e imperturbavel quietação dos campos, sob uma tonalidade de côres e de sombras d'uma variedade e doçura infinitas, havia n'essa manhã um grande movimento de vida na Natureza, muitos feixes de sol a distribuir e a combinar seus raios de ouro pelos troncos e a folhagem das arvores, pela verdura das relvas; muitos passaros cantando em redor dos ninhos; muitos insectos zumbindo em volta das flôres.

Só nós appareciamos no meio d'aquelle trecho encantador de vida universal, com a nossa alma envolta em sombras caliginosas e, sob este influxo, o coração a trasbordar-nos de tristezas!...

Estas derivavam d'erros proprios e alheios e faziamo-nos passar, ali, aos olhos da propria consciencia, como um desconcerto na Vida, como uma nodoa na creação!

Da alta comprehensão que temos da dignidade humana e do papel que o Homem e a Humanidade representam nos destinos do Universo, (V. as poesias Ao Homem e Á Mulher), resultou para nós uma philosophia e uma moral que são substancialmente imcompativeis com os desalentos e as tristezas, porque aliás tantas vezes os nossos dias teem sido assaltados!...

D'ahi o nosso appello para a Natureza onde tudo está no seu logar, não se desviando um apice da linha que lhe foi traçada, no augusto e sereno cumprimento das suas leis eternas e divinas.

Pedindo á natureza refugio e amparo para as nossas dôres, lição e exemplo para os nossos erros, n'aquelle dia memoravel entrou-nos n'alma, como um cortejo festivo de Deus, tudo quanto em volta de nós celebrava ali os mysterios da vida e irromperam nos dos labios então estas estrophes despretenciosas e taes quaes as publicamos hoje.