Pelo habito de as repetirmos longos annos, nos soliloquios com a nossa consciencia, não nos aventurámos a alterar-lhes uma só palavra, nem uma só virgula, e assim se explica que seja a unica poesia d'este livro com versos soltos, rimados apenas nos versos agudos.

PRESENTIMENTOS

Paginas 8 a 18

E como uma photographia instantanea do estado da nossa alma quando, finda a nossa carreira universitaria, tivemos de assentar arraiaes no positivismo das coisas para havermos os meios com que se mantem o que ha de mais imperioso: a existencia, e n'esta o que ha de mais sagrado: a honra.

Depois d'uma mocidade ruidosa, passada no convivio de livros dos mais celebres pensadores do seculo, e de talentos dos mais abalisados entre os lentes da Universidade, como Antonio de Carvalho, Silva Gayo, e Viegas; de rapazes cheios de ideaes e d'audacia, que mais tarde se haviam de tornar celebres nas letras, como Anthero do Quental, Theophilo Braga, Eça de Queiroz e Anselmo de Andrade, estes dois ultimos nossos condiscipulos; n'um periodo em que todos acreditavam na transformação completa do existente, para, abandonados de vez os velhos e caducos moldes do mundo medieval, entrar-se definitivamente na normalidade da vida que as sciencias dos ultimos seculos, e o direito de Revolução, nos garantiam: comprehende-se bem qual seria a nossa tristeza ao entestarmos com uma sociedade, mais que qualquer outra, decrepita, incredula, egoista e dissoluta!

Tinhamos já então feito a nossa primeira viagem á França, sob o imperio da mais desenfreada corrupção politica dos ultimos tempos, na restauração do Imperio por Napoleão le petit e causou-nos indignação o que abservámos de perto na cidade santa de Direito Moderno, sobre a qual tinham raiado os inolvidaveis dias de 1789 e que fôra o theatro das primeiras e gigantescas batalhas do Povo, em nome do Direito Humano, contra os thronos colligados em nome do Direito Divino!...

Estavamos nas vesperas da guerra Franco-Allemã que todos previam como inevitavel e de que resultou este tardio e indeciso movimento democratico, a cuja sombra a França não conseguio ainda emancipar-se completamente dos preconceitos e velharias do antigo direito!...

Regressámos á patria com a alma mais cortada de dôres de que quando d'ella partiramos!...

A nossa intervenção quotidiana na vida do Povo, pela profissão que exercemos, o conhecimento das suas multiplas e infinitas miserias, a sua falta de comprehensão e de energia em reivindicar os seus direitos e a defeza da sua causa; o egoismo desenfreado da burguezia triumphante com a sua lastimosa indifferença pelo futuro da Patria; a irremediavel cegueira da aristocracia portugueza em não se separar das formulas já hoje varias de sentido e exhaustas de forças, do Direito Divino, representado no throno e no altar, direito já morto nas consciencias pela força da razão e da logica, antes de o ser no campo da batalha pela força das armas: todo este conjuncto de circumstancias adversas, concorreu para nos entibiar a fé e a esperança na realisação dos nossos ideaes.

Ao vêrmos a Nacionalidade Portugueza ha tres seculos desviada do seu destino historico sem conseguir reatar as tradições perdidas, apesar dos violentos abalos da natureza e dos homens para levantal'a do atoleiro em que se deixou cahir--a libertação de Hespanha, o terremoto de Lisboa, as reformas do marquez de Pombal, de Fernandes Thomaz, de Mousinho da Silveira, de Passos Manuel e de tantos outros; apesar dos movimentos revolucionarios de 1820, 1834 e 1846: chegámos a descrer do futuro d'este povo illustre cujos destinos se acham indissoluvelmente unidos aos nossos!...