Foi debaixo d'esta ordem de ideias sombrias que concebemos e compozémos esta poesia.

Ella era então, como ainda o é hoje, a expressão fiel do nosso pensar e do nosso sentir, e, como a anterior, mantemol'a tal qual nos sahiu espontaneamente da laboração do nosso espirito contemplativo, e sonhador.

REVELLACÃO

Paginas 25 a 32

Foi escripta esta poesia n'uma sexta-feira de Paixão, na quinta dos Frades Cruzios, de Coimbra, junto ao grande lago que hoje ainda alli se vê, cercado d'um espesso e alto muro de verdura entretecido com os ramos de cedros já hoje seculares.

A cinta feita por elles em volta do lago tranquillo é tão compacta que junto das suas margens sentimo-nos por completo sequestrados do mundo exterior, e levados á contemplação do infinito do Ceu no finito da Terra!...

Tinhamos assistido durante tres dias consecutivos ás ceremonias commoventes da lithurgia catholica nas festas da Semana Santa, celebradas com pompa na Capella da Universidade.

Tinhamos ainda a alma combalida com os patheticos cantos do Miserere, de José Mauricio, e com as retumbantes orações dos levitas da Egreja, lançando do alto da sua cadeira sobre as multidões meio scepticas as suas palavras de desconforto e de desesperança sobre o destino humano, quando, fugindo a este meio deleterio e sombrio, appellámos para a Natureza, por ser esta aos nossos olhos a Biblia da Verdade e do Amor, escripta com palavras vivas e eternas, que não carecem das explicações dos concilios Ecumenicos, para serem os verdadeiros dogmas do nosso credo.

Alli, levantando o problema do destino humano na Terra, encontrámos palavras d'Amor e de Justiça que suppozemos dignas de consignarmos nos nossos versos, destinados a servir, nos nossos despertenciosos e apoucados recursos, a causa da Humanidade.

Este Canto pela sua structura e motivo fazia parte do Livro segundo, mas transpozemol o para aqui por conter a ideia inicial da philosophia que presidiu a quasi todos os outros.