Mais tarde pelos melhoramentos e pequenas casas de habitação mandadas ali construir, o Bussaco attrahiu de Coimbra e seus arredores, de Lisboa e Porto, e até das Ilhas dos Açores, algumas familias distinctas, no numoro das quaes quaes sobrelevava a todas a de Silva Gayo.

Foi este pela vivacidade e graça de seu espirito brilhante, pelo encanto incomparavel da sua palavra facil, d'artista e de sabio, e sua esposa pela gentileza singular do seu porte, pela bondade e abnegação nunca desmentidas para com todos, foram elles que mais concorreram a chamar ao Bussaco uma concorrencia selecta e a tornar inolvidaveis os dias ali passados.

Foi ali que Silva Gayo escreveu e retocou algumas das paginas mais commoventes do seu Mario, de Frei Caetano Brandão e da Magdalena. Foi ali tambem que compozémos algumas das nossas poesias mais repassadas do pantheismo espiritualista que em todas mais ou menos se nota.

Foi á sombra d'aquelles arvoredos adoraveis, e sob estas beneficas influencias de arte, que se crearam, n'uma incansavel e vibrante alegria, os dois filhos de Gayo e de D. Emilia Paredes, Manuel da Silva Gayo e Mario Gayo, os quaes mais tarde se haviam de distinguir como dois talentos comprovados, um na poesia, outro na musica!

Foi ali que mais tarde succumbiu, victima d'uma tysica de larynge, aquelle formoso espirito que foi gloria das sciencias e lettras patrias, cercado dos solicitos carinhos de sua incomparavel esposa, das lagrimas silenciosas e amargas do bom padre Mauricio e das nossas.

Foi d'ali, ai de nós, noite memoravel e terrivel! que tivemos d'acompanhar sósinhos os seus restos mortaes até ao cemiterio da Conchada em Coimbra, onde pouco depois do romper da manhã, alguns dos seus collegas, admiradores e amigos, avisados do seu enterro, vieram comnosco prestar-lhe as ultimas homenagens dos vivos!...

Voltemos aos dias felizes em que Silva Gayo ainda abrigava a esperança de debellar o mal que o vinha minando, apesar de pairar ás vezes como uma sombra sinistra no seu lucido espirito, a idéa d'um desenlace fatal!! Foi então que escrevemos este Canto, á Arvore.

Estavamos installados na capella de Santa Thereza, a cuja entrada se levanta um d'aquelles cedros collossaes e magestosos do Bussaco, que são o privilegio e o orgulho d'esta floresta, a mais opulenta e formosa de quantas conhecemos dentro e fóra do paiz.

Foi ali, tendo em frente dos nossos olhos aquelle gigante secular dos bosques, que compozémos esta poesia onde o leitor encontrará a expressão mais genuina do nosso amor pela estabilidade das forças da Natureza, representada no que ellas teem de mais bello e nobre, a arvore.

Á TERRA