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De todos os nossos trabalhos litterarios é este o que nos mereceu maior solicitude e carinho para deixarmos por nossa morte um testemunho do muito que amámos a Natureza e dos impagaveis beneficios que d'ella em toda a nossa vida recebemos.
Sobre a sua influencia na formação dos caracteres escrevemos um poemeto denominado Passeio ao Campo e que faz parte do quarto livro das Irradiações, No Lar.
Concebemos e composémos esta poesia n'aquella aldeia obscura de Carvalhaes, a que nos referimos na nota primeira.
Quizémos propositadamente que assim fosse, porque depois dos jardins e da quinta da nossa casa do Arco, na Ilha do Fayal, onde nascemos e brincámos e das pedras vulcanicas e negras da Aldeia do Guindaste, na Ilha do Pico, onde, em plena liberdade dos campos, em convivio intimo com a Natureza, perante o espectaculo do mar e d'um sem numero de pequenos vulcões extinctos passámos os mais deleitosos dias da meninice, pedras negras que ainda hoje, pelas recordações que encerram, nos sorriem mais bellas e fulgentes que os brilhantes, nenhuma terra amámos tanto como esta aldeia poetica de Carvalhaes.
Foi alli que á sombra de pequenos bosques, de altos e extensos pinheiraes, balsamicos e sonorosos, de frescos relvados e de alamos e carvalhos frondosos, no adro da capella da Senhora das Neves, que lhe fica proxima, foi ali que lendo os nossos poetas mais dilectos, Virgilio, Camões, João de Deus e Victor Hugo, tomámos verdadeiro amor pelo rythimo e harmonia do verso, e abandonamos para os assumptos d'arte a prosa, onde fizemos os nossos primeiros ensaios, sendo ainda creança, tomando então por modelo a Byron, dos poetas da nossa meninice o mais festejado e glorioso.
Foi n'esses arredores deliciosos da Bairrada e do Bussaco onde longos annos armazenámos inconscientemente em companhia do nosso chorado condiscipulo José Augusto Salgado, no nosso mundo interior a poesia que annos mais tarde, em 1867, nos irrompeu espontanea da alma, quando as saudades de Coimbra e da nossa vida academica nos subjugaram a ponto de abandonarmos interesses já creados e estabelecermo-nos de novo na Luza Athenas!... Foi então que tomamos o grau de licenciado em Direito na esperança de fazermos parte do corpo docente da Universidade, mas d'onde tivemos de sahir, pouco depois do nosso casamento, para n'um meio mais amplo angariarmos os escassos recursos d'uma vida honesta.
Esta poesia, desejando nós que fosse de todas a mais perfeita, é no entanto a que hoje aos nossos olhos tem maiores defeitos, sendo um d'elles a sua extensão.
Preferiamos deixal-a nas proporções das outras, suas congeneres e irmãs, mas já agora, assim imperfeita, ficará sendo o depoimento mais vehemente e sincero do muito que quizémos á Terra, nossa mãe, ao Amor, á Luz e á Vida!
Á falta d'heroes a quem consagrassemos os nossos Cantos, preferimos as Forças e as maravilhas da Natureza, que sendo obras de Deus, são por isso eternamente grandes e bellas para se constituirem na fonte pura e inexgotavel do Ideal.