UM MARITIMO—como procurando dar ternura á sua voz forte e enternecendo-se pouco a pouco

Pois haviam de a vêr como eu a vi, um dia, junto ao mar. Então ella estava alegre e o mar estava mau.

O mar é como os homens, tem tambem as suas zangas, os seus ralhos. As ondas cresciam sempre, tão grandes como torres e vinham avançando pela praia dentro, cada vez mais, cada vez mais... E a Senhora Infanta a olhá-las de frente e tão esquecida, que uma vaga mais forte a molhou toda! E ella sem se mexer, sempre quêda a olhá-las, assim a modos como uma santa no altar!

A Senhora Infanta não tem medo do mar. Se a deixassem era capaz de ir como nós á aventura... Quem a viu como eu a vi nesse dia, e não soubesse quem ella era, havia de cuidar que tinha nascido no mar—que tinha sido embalada, não por aias, mas por ondas!

OUTRO MARITIMO—com enthusiasmo e ternura

E sempre foi assim! Ainda tamanina, quando chegavam as naus—as que tinham ido sem rumo e traziam novas terras a esta terra—já a Senhora Infanta ao lado de El-Rei as ficava a olhar, de olhos muito abertos, cheios de riso. E queria saber tudo—como fôra, o que viramos, como eram as nossas terras, onde ficavam... o que nos acontecera...—e a ouvir-nos contar nossa aventura, os seus olhos enchiam-se ainda mais de riso.

UMA MULHER

Pois agora vai triste. Eu vi-a passar para a igreja. Não olhava, não sorria... Os olhos muito abertos, olhando sempre em frente, muito brilhantes... até me fez chorar... Nunca vi olhos assim! E toda de branco! Parecia enfeitiçada!...

UM VELHO

Deixai lá... Ella tambem gosta desta loucura em que vivemos. Nunca se importou a Senhora Infanta dos que morrem no mar, dos que lá ficam nessas terras distantes a combater! Morrem: deixá-lo! A Senhora Infanta é como as mais; não se importa!...