Terá a historia contemporanea, um dia, de personificar nelles dous povos que se dizem tambem irmãos?!
Venha, e bem vinda seja,—a harmonia nas leis; a uniformidade nas instituições; o consorcio das litteraturas; a aproximação dos costumes; a intimidade de relações moraes e economicas: cáiam por terra essas odiosas barreiras que estorvam a liberdade de commercio entre os dois povos, e a troca de seus productos; acabe por uma vez o repugnante systema dos passaportes; entronquem-se as linhas ferreas; facilitem-se as communicações fluviaes; canalizem-se os rios communs; celebrem-se congressos scientificos e litterarios, exposições industriaes e artisticas, peninsulares; venham, numa palavra, a fraternisacão dos homens e a alliança dos governos; mas, para fortalecer a autonomia dos dois povos e garantir a liberdade de todos,—e o futuro resolverá o difficil problema, para o qual a natureza e a historia fornecem dados tão differentes e heterogeneos, que o tornam hoje absolutamente insoluvel.
Em 1866, em que pela primeira vez se traçaram estas linhas, bem se presentia já o que dous annos depois veio a succeder, e se está realisando na visinha Hespanha.
Commoções violentas denunciavam o aproximar—d'uma revolução profunda para preparar uma regeneração intima,—de um esforço gigante que devia partir os ferros a essa nação escrava da tyrannia e do fanatismo, agrilhoada (e o que é assombroso!) por alguns de seus degenerados filhos ao poste do mais affrontoso despotismo e da mais ignominiosa intolerancia politica e religiosa!
Fez-se o esforço, operou-se a revolução e com tanta maior gloria quanta maior abnegação e generosidade; caíram os tyrannos, libertaram-se os opprimidos, erigiram-se altares, levantaram-se monumentos á liberdade em muitas leis e instituições, novas ou regeneradas; mas a revolução profunda no sentimento, grandiosa na ideia, sublime nas inspirações, é, fatalmente, á hora em que escrevemos mais um desengano pungentissimo que uma illusão fagueira, antes um desalento que uma esperança.
A Hespanha parece retrogradar, em vez de progredir; olha desconfiada e como receosa para o futuro que a chama, e pesam-lhe saudades do passado, saudades de amarguras, saudades do seu longo martyrio!
Desventurada Hespanha! Para que te cortam o vôo de legitimas aspirações?
Para que sem dó arrancam no teu bello jardim de esperanças as mais formosas e promettedoras?
Para que te querem agrilhoar de novo ao poste onde te suppliciaram durante tantos seculos?