Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado de Veneza a segunda viagem de Gaspar Côrte Real á America, disse que Gaspar e seus companheiros acreditavam que «a terra achada era firme e estava ligada com a outra (Terra dos Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500) foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade, acreditando estar ligada com as Antilhas.»

Humboldt confirma este conceito, quando diz «que antes mesmo das viagens de Colombo a Honduras e Veragua, em outubro de 1501, já se sabia em Portugal que as terras do norte eram cobertas de neve e gelo, contiguas ás Antilhas e á terra dos Papagaios novamente achada.»

E admiradissimo, Humboldt accrescenta: «esta adivinhação que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, uma ligação continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador é muito surprehendente

Nem foi adivinhação nem cousa para surprehender; os élos intermediarios, estabelecendo a ligação continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador, existiam e eram conhecidos dos portuguezes pelas viagens e descobrimentos que haviam feito na sua pertinancia de procurar o caminho para a India, navegando constantemente para o occidente e para o sul, desde 1431. Ora, todos os documentos que citamos demonstram de um modo cabal e decisivo que os descobridores da Terra Nova e portanto da America do Norte foram João Vaz Côrte Real e seus filhos e que este descobrimento foi feito muitos annos antes que Colombo aportasse ás Antilhas.

Mas o estudo dos documentos portuguezes e castelhanos que o sr. Faustino da Fonseca exhumou da Torre do Tombo, dos archivos açorianos e hespanhóes e a que deu publicidade no seu luminoso livro, referentes ás viagens maritimas dos seus antepassados, provam de um modo incontestavel que desde 1435, ou antes havia em Portugal conhecimento perfeito de terras americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com a sua posição determinada no mappa de Bianco e a sua distancia de 1500 milhas entre as ilhas de Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente marcada no mesmo mappa) e tambem que, desde 1475, as viagens dos portuguezes para o occidente já se realizavam, não tanto no empenho de procurar por ahi o caminho para chegar á India, como no de «colonizar, de aproveitar as terras americanas e nellas commerciar, como se commerciava na costa africana e nas ilhas dos seus mares.»

Era pelo sul da costa da Africa que os navios da corôa portugueza procuravam o caminho do oriente e as viagens á Guiné eram então privativas dos navios reaes, não podendo os particulares emprehendel-as. Já para o occidente a navegação era francamente aberta ás naus dos particulares, dando-lhes ensejo ás descobertas e explorações commerciaes.

A carta de doação a Fernão Dulmo, em 1486 e a confirmação do seu contracto com João Affonso Estreito, feita pela carta regia de D. João I, vem demonstrar de um modo cabal, como muito bem diz o sr. Faustino da Fonseca, «a existencia de trabalhos de mór importancia relativos á America em que se não trata já da descoberta, mas da posse effectiva, da conquista, da occupação.»

Nessa carta de doação diz o rei que Fernão Dulmo, capitão da ilha Terceira, «lhe queria dar achada ao occidente uma grande ilha, ou ilhas, ou terra firme por costa», ilha essa que se presumia ser a das Sete Cidades, e isto prova «que não se julgava ser a India, como pensava Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras do oriente, que o genovez procurava e que até morrer julgou ter descoberto.»

Era uma outra terra a que se dava o nome de Sete Cidades por causa de uma velha lenda. Effectivamente, o que Fernão Dulmo queria dar ao rei achada era, não uma ilha, mas terra firme, isto é, um continente.

Dava-lhe a carta regia poder e autoridade para tomar posse real e autual de todas ilhas e terra firme que descobrisse, «podendo enforcar, matar e applicar toda outra pena criminal» e accrescentava que, «se as ilhas e terra firme não quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com Fernão Dulmo gentes e armadas de navios para as sujeitar.»