Tão amplas eram as autorizações e poderes conferidos a Fernão Dulmo, contrastando com as restricções feitas nas doações anteriores, nas quaes a corôa reservava para si «a alçada de morte ou talhamento de membro,» que taes concessões levam a crer, com relativa segurança, que na terra, que Dulmo queria dar achada ao seu rei, já elle havia estado, havendo encontrado resistencia á occupação por parte da população indigena.
Nessa terra do occidente, ou America, que Dulmo queria dar achada á corôa portugueza, já elle estivera, portanto, em 1486, ou antes. Que tinha havido luctas na America entre os donatarios e os indigenas prova-o ainda a carta de doação a Vasco Annes Côrte Real na qual se refere que Miguel Côrte Real (irmão de Vasco Annes), ao partir, em busca de seu irmão Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas na terra onde aportara, ia «buscar, achar e remir o dito seu irmão.» Que Fernão Dulmo estivera na America em 1486, ou antes, prova-o ainda o contracto por elle feito com João Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as despesas da expedição, e ainda o prazo marcado para irem e voltarem, ficando Dulmo com o commando da frota durante os primeiros 40 dias e assumindo-o João Affonso após esse tempo, o que significa que Fernão Dulmo estava seguro de attingir a terra achada em 40 dias e que João Affonso não receiava empregar o seu capital numa empresa temeraria, seguindo com o seu socio para o desconhecido.
Estabelecia o contracto que as caravelas seriam abastecidas para 6 mezes ou 180 dias approximadamente. E dahi se deduz que, sendo precisos 80 dias para a viagem de ida e de volta, ficavam 100 dias para a permanencia na America, para a exploração, marcação e divisão das capitanias de que eram donatarios os dois associados e, finalmente, para a sujeição dos indigenas.
A confiança de João Affonso Estreito na expedição era tal que, além de todas as despesas com o abastecimento das caravelas e sua equipagem, ainda deu 6.000 reaes brancos a Fernão Dulmo.
Ora, o conhecimento que temos de Colombo ter gasto, posteriormente, 48 dias na sua primeira viagem de regresso das Antilhas, com atrasos devidos a temporaes e a uma arribada á ilha de Santa Maria, e ainda o facto de Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua viagem ao Brazil, apesar da calmaria que encontrou, e ainda a circumstancia de ter gasto Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem de Cadiz á Dominica, prova que 40 dias era o tempo, em média, preciso para ir da Europa á America e que, portanto, o facto de tal prazo ter sido fixado no contracto de Dulmo com João Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha perfeito conhecimento do tempo que era preciso para chegar á terra achada por elle em 1486, ou antes, e que essa terra era positivamente a America.
Desta expedição de Dulmo fazia parte um allemão chamado Martim Behaim, que o Dr. Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. João II, chama Martinho Bohemio. Ora, este allemão, que, de 1484 a 1486, acompanhou Diogo Cão, como cosmographo, rezidindo nos Açores de 1486 até 1490, seguia a opinião dos antigos de que o caminho para a India era pelo occidente. Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que Behaim obteve o conhecimento da costa Americana, o qual registou depois no globo que construiu ao regressar á Europa e que tambem representou no mappa, que existia no erario do rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse globo terraqueo de Behaim foram representados a peninsula da Florida, o golfo do Mexico e as Antilhas, embora sem estas denominações. Estes trabalhos geographicos de Behaim confirmam que Dulmo estivera na America do Norte e estabelecem de um modo preciso que as terras achadas por elle eram a Florida, as Antilhas e o golfo do Mexico.
Em 1499 fez d. Manuel doação a João Fernandes Lavrador da capitania da ilha ou ilhas que elle descobrir ou achar novamente. Não tendo meios para custear a expedição, João Fernandes Lavrador associou-se a Francisco Fernandes e João Gonçalves, escudeiros, naturaes dos Açores, e com tres negociantes inglezes de Bristol, os quaes, provavelmente, forneceram o capital preciso, e com elles obteve do rei Henrique VII da Inglaterra nova carta de doação das terras que descobrisse.
A expedição seguiu a sua rota e conseguiu descobrir a terra avistada em 1452 por Diogo de Teive e seu filho João de Teive, á qual foi dada o nome de Terra do Lavrador, que era o do seu novo descobridor e donatario.
Ora, João Fernandes Lavrador, quando organizou a expedição, já sabia da existencia da terra que ia achar porque nella estivera com Pedro de Barcellos de janeiro a abril de 1492, e o fim de sua expedição com os negociantes de Bristol não era outro senão tomar posse da terra anteriormente achada.
Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo, que só a 8 de agosto de 1492 partiu para as Antilhas, dois navegantes portuguezes, João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos haviam estado na America.