A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario, de Nuremberg, a d. João II, em 1493, quando ainda ignorava a primeira viagem de Colombo ás Antilhas, aconselhando o monarcha lusitano a que demandasse a India pelo caminho do occidente, confirma o conhecimento que tinham os portuguezes das terras americanas.
Ignorando, como Colombo (que até morrer suppoz sempre que chegando ás Antilhas havia chegado á India) que as terras do occidente constituiam um novo continente, formando a parte quarta do universo até então conhecido, o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos mareantes portuguezes, usando das seguintes expressões: «sabios que navegaram a largura do mar, que tomaram o caminho dos Açores por quadrantes chilindricos e astrolabio e outros engenhos, onde nem frio nem calma os anojara e mais navegaram a praia oriental sob uma temperança (temperatura) muito temperada do ar e do mar.»
Nestas expressões—navegaram a largura do mar, tomando o caminho dos Açores—(que era o ponto de partida dos navegantes que iam ao novo continente) põe Montaro em evidencia as viagens dos portuguezes á America, muito embora ignorasse que essa terra era o Novo Mundo. Empregou a expressão praia oriental suppondo sempre que era a India cujo caminho pelo oriente já havia sido descoberto, cinco annos antes, por Bartholomeu Dias, quando em 1487 dobrara o cabo da Boa Esperança, indo em busca do reino do Prestes João.
Não admira que o dr. Montaro estivesse nessa ignorancia quando Colombo permanecia nella e insistia em acreditar que a America era a Asia e que, atravez della, havia um caminho por agua, que abreviava a viagem pelo occidente para a India.
Esse caminho, que o audaz e astuto genovez embalde procurou até morrer, existia de facto, mas, em vez de abreviar, alongava a viagem para a India. Esse caminho, que elle nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda um portuguez, Fernão de Magalhães, quando, a soldo da Hespanha, mas com marinheiros portuguezes e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro, transpoz o estreito a que ligou o seu nome, no extremo sul da America, e fez a primeira viagem de circumnavegação, dando a volta ao mundo e confirmando a doutrina da espheroicidade da terra.
De tudo o que fica exposto resulta, meus senhores, de um modo indiscutivel, com uma veracidade esmagadora, que não foi Colombo quem teve a prioridade na descoberta da America e que essa grande gloria cabe de direito e de facto aos destemidos e desinteressados navegantes portuguezes do seculo XV, que á America foram e que na America estiveram muito antes do genovez.
Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores de Colombo, foi o primeiro a pôr o pé no solo americano?
Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes, segundo o registo de André Bianco, descobriu o Brazil. Desse, infelizmente, a historia não guardou o nome. Mas, daquelles que foram á parte norte da America e que lá estiveram, dando-lhe o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito á prioridade na descoberta foi evidentemente João Vaz Corte Real que, em 1472, vinte annos antes de Colombo, descobriu a Terra Nova, que os mappas, portulanos e manuscriptos da época designaram por essa denominação, pela de Terra dos Bacalhaus, pela de Terra de João Vaz e ainda de Terra dos Corte Reaes, em homenagem ao grande navegante luso e a seus filhos, que á mesma terra foram, no mesmo ardor empenhados de engrandecerem a sua patria.
Mas, vejamos agora quem era Colombo e o que fez elle, não para descobrir, mas para chegar á America e de uma parte della tomar posse official para a corôa de Hespanha.