Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em Genova em 1450, veio ao mundo dois annos depois daquelle (1448) em que André Bianco registou no seu mappa a existencia do Brazil a 1.500 milhas das ilhas de Cabo Verde, tres annos depois que um navio portuguez foi á Groenlandia, e apenas dois annos antes daquelle em que o navegante portuguez Diogo de Teive chegou á latitude da Terra do Lavrador, terra americana que João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda descobriram e della tomaram posse em 1492, mezes antes de Colombo chegar pela primeira vez ás Antilhas.
Filho de uma familia de operarios, era Colombo um tecelão, que apenas apprendera a ler e a escrever e que, até aos 23 annos de edade, se conservara sem fazer estudos universitarios, sem seguir a carreira maritima, sem nada saber de cosmographia nem de pilotagem. Indo para Savone, em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se conservou durante dois annos. Não lhe sorrindo a fortuna como taverneiro, foi, em 1473, para Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu uma casa de pasto, e onde casou com uma rapariga portugueza, filha de um tal Bartholomeu Perestrello, mareante, já então fallecido. Na Madeira nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira começou elle a apprender nautica nos documentos, instrumentos e mappas de Perestrello, que a sogra lhe forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situação das Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches[1], que as descobriu, que em sua casa de pasto se hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda existe na Madeira essa casa que Colombo habitou. É Bartholomeu de las Casas, o amigo e companheiro de Colombo numa das suas viagens, quem, na sua Historia das Indias, nos dá conta desse episodio da vida do genovez em Portugal. Referindo-se aos objectos de Perestrello, que a sogra dera a Colombo, diz: «eram instrumentos e escriptos e pinturas (cartas e mappas), convenientes á navegação, os quaes deu a sogra ao dito Colombo, que com a vista delles muito se alegrou.» E accrescenta: «com estes se crê haver sido instigada a sua natural inclinação.»
[1] Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473 a 1484.
Quando Colombo chegou a Portugal já ahi eram conhecidas as cartas hydrographicas planas inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante a sua permanencia no reino que o portuguez Fernando construiu a primeira bussola completa com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos do rei aperfeiçou o astrolabio, assim como as taboas astronomicas applicadas á navegação.
Vivendo no meio de uma grande familia de navegadores, sabios, como o testemunhou mais tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor das viagens e descobertas dos portuguezes, é natural que Colombo, instigado pela mulher e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos que recebeu e por outros que manuseou e consultou depois, estimulado pelas audacias felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar fortuna pelo mar e procurasse obter a pratica da navegação que de todo lhe faltava. Para isso conseguir, embarcou em navios portuguezes e com pilotos portuguezes apprendeu a navegar.
É ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando diz, na sua já citada Historia das Indias: «resolveu ter por experiencia o que então do mundo pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar e assim navegou algumas vezes aquelle caminho em companhia de portuguezes, como pessoa já residente e quasi natural de Portugal.»
Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu a navegar e foi ainda em Portugal que teve conhecimento exacto de terras ao occidente, terras que, obcecado pelas theorias de Toscanelli, Marco Polo e outros geographos e cosmographos antigos, elle suppoz sempre que fossem asiaticas.
Foi então, depois de adquirida esta instrucção theorica e pratica, ministrada pelos portuguezes, que o genovez affagou a idéa de descobrir o caminho da India pelo occidente, indo á terra onde já havia chegado Affonso Sanches.
Para conseguir os seus fins, procurou desde logo fazer relações com d. João II, rei de Portugal, o qual, longe de esconder delle as provas que possuia da existencia de terras ao occidente e ao sul, lh'as mostrou, como o proprio Colombo confessa, indicando-lhe nos mappas a situação da Terra Nova ou de João Vaz e a do Brazil ou Terra dos Papagaios.
Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que um dia, «soprando fortes ventos do poente, o mar trouxe ás costas das ilhas do Fayal e da Graciosa alguns troncos de pinheiros e ás da ilha das Flores dois cadaveres de caras mui largas e de feições differentes das dos christãos.»