Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento, como ainda informa Las Casas, da viagem do navio portuense que em 1447 tinha ido á Groelandia, da ida de Diogo de Teive em 1452 á latitude da Terra do Lavrador, das viagens de Vicente Dias, de Antonio Teive e de Affonso Sanches, de 1473 a 1484, da concessão a Fernão Domingues do Arco, em 1484, e das viagens de João Vaz Côrte Real e seus filhos, começadas em 1472, resolveu Colombo, certo da existencia de terras ao occidente, procurar um principe christão que o ajudasse e protegesse na empresa do descobrimento da India pelo poente.

Foi então a Castella offerecer os seus serviços á corôa hespanhola.

Diz Las Casas que, guiado pelas informações que possuia, «Colombo tinha a certeza que havia de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas pessoalmente tivesse estado

E foi isso, provavelmente, o que Colombo, munido de copias dos mappas que viu em Portugal, e conhecedor das viagens e das doações alli feitas, affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes, não que ia achar ou descobrir, mas tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente descobertas pelos portuguezes, dessas Antilhas que Affonso Sanches descobrira, cuja situação os seus mappas e papeis lhe revelaram.

Tal offerta elle não podia fazel-a ao rei de Portugal, porque tinha a certeza de que seria recusada. Que poderia elle offerecer á corôa portugueza, que esta já não conhecesse?

Accresce que, achando-se individado e sendo perseguido pelos credores, elle sentia necessidade urgente de sahir de Portugal e procurar no estrangeiro os meios de solver os seus compromissos.

Eis ahi as razões pelas quaes deixou Portugal e foi á Hespanha, não no nobre intuito de descobrir terras e de praticar feitos que lhe dessem renome, mas no de ganhar dinheiro.

Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo foi, por inveja, maltratado em Portugal e, por isso, de lá sahiu, fugindo, faltam á verdade.

Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos, que descobertas havia elle feito, quando deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender, para que delle alli tivessem inveja? Inveja poderia elle ter, e certamente tinha, daquelles que, arriscando a vida e a fortuna, já haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha feito até então.

Mas, é elle proprio quem desmente os que affirmam que foi a inveja que o fez sahir de Portugal, quando, em uma carta ao rei de Castella, diz: «fui aportar a Portugal cujo rei entendia de descobrimentos mais do que nenhum outro.» E, em outra carta, accrescenta: «o grande coração dos principes de Portugal que ha tanto tempo proseguem na empresa de Guiné e tambem na de Africa onde gastaram metade da gente do reino...»