O açoriano Fructuoso, tratando de João Vaz Côrte Real, diz que elle «descobriu algumas partes do Poente e do Brazil», devendo, portanto, esta ultima descoberta ser anterior a 1500, pois João Vaz falleceu em 1496.
Por um manuscripto de frei Diogo das Chagas, citado por Drumond nos seus Annaes da Ilha Terceira, sabe-se que, antes de 1496, tambem o navegante João Coelho veio ao Brazil.
Em 1514, Estevam Fróes confirma este asserto, numa carta ao rei de Portugal, na qual lhe diz: «alegravamos que vossa alteza possuia esta terra ha vinte annos e mais (portanto, desde antes de 1494), e que já João Coelho... viera ter por onde nós outros vinhamos a descobrir e que vossa alteza estava em posse destas terras por muitos tempos.»
O proprio Vasco da Gama, na sua primeira viagem á India, em 1497, passou proximo do Brazil, tendo signaes de terra em 22 de agosto, isto é, 19 dias depois que sahiu de Cabo Verde, como se verifica no Roteiro dessa sua viagem.
No seu Esmeraldo de situ orbis refere Duarte Pacheco, o celebre cosmographo, que em 1498 estivera no Brazil, provavelmente, como suppõe plausivelmente o sr. Faustino da Fonseca, no intuito de verificar, por ordem da corôa portugueza, os limites determinados pela linha divisoria do tratado de Tordesillas.
Mestre João, physico mór de d. Manoel, e cosmographo da frota de Cabral, que na sua interessante carta ao rei, escripta de Porto Seguro, regista o Cruzeiro do Sul e marca para o Brazil a latitude de 17 graus, diz, entre outras cousas interessantes, referindo-se á terra brazileira, que a terra onde chegara, já se achava traçada no mappa-mundi de Pedro Vaz da Cunha Bisagudo, affirmando-o categoricamente na seguinte passagem da carta: «quanto, senhor, ao sitio desta terra, mande vossa alteza trazer um mappa-mundi, que tem Pedro Vaz Bisagudo, e por ahi poderá ver vossa alteza o sitio desta terra, ainda que aquelle mappa-mundi não certifica si esta terra é habitada ou não: é mappa-mundi antigo e ahi achará vossa alteza escripta tambem a Mina...»
Portanto, o proprio cosmographo da frota de Cabral sabia, desde antes da viagem de 1500, que havia terra nesse rumo de sudoeste que a frota cabralina seguiu, como o sabia tambem Duarte Pacheco, o qual já nessa terra tinha estado em 1498.
Tudo isto vem provar que, se Cabral não descobriu o Brazil, tambem o não descobriram os pretensos descobridores Vicente Yanez Pinzon, Diogo de Lepe e Alonso Hojeda, aventureiros, que só chegaram á costa americana em 1499, não podendo tomar posse da terra brazileira porque o tratado de Tordesillas de 1494 não consentia em tal. As proprias instrucções que o rei de Castella lhes deu em 1499, determinavam «que não tocassem nas terras de Portugal».
Elles estiveram, de facto, em terras do Brazil, antes de Cabral, mas a descoberta dessas terras não lhes pertence.
Não foram, pois, Cabral, nem Pinzon, nem Lepe, nem Hojeda, os descobridores do Brazil, podendo-se, porém, assegurar que essa gloria cabe incontestavelmente a navegantes portuguezes do seculo XV, embora seja difficil determinar qual foi desses intrepidos argonautas o primeiro que pisou o solo brazileiro.