Á vista das cartas e portulanos de André Bianco, de 1436 e de 1448, pode-se affirmar que essa descoberta foi feita, como já disse, em 1435, ou antes.
Vejamos, agora, como Cabral aportou a esta terra e della tomou posse official para a corôa de Portugal.
O fim ostensivo, o fim apparente da expedição de Cabral era ir á India. O fim real, o fim verdadeiro era ir, primeiro, ao Brazil, delle tomar posse official, e, em seguida, fazer rumo para o Cabo da Boa Esperança, em demanda da India.
Como já referi, a corôa portugueza, anteriormente á viagem de Cabral, havia enviado ao Brazil Duarte Pacheco, eminente cosmographo, que tambem veio na frota cabralina. O autor do Esmeraldo de situ orbis aqui estivera, pois, em 1498, para verificar os limites da linha divisoria do tratado de Tordesillas, que, na parte portugueza, abrangia as terras dos Corte Reaes, a Groelandia e o Brazil, mas deste não havia tomado posse official.
Tornava-se, pois, indispensavel a Portugal reconhecer e tomar posse, sem demora, dessa terra e, assim, guiando-se pelas informações de Duarte Pacheco e do proprio Vasco da Gama, bem como pelas de outros seus navegantes, que haviam aportado á Terra dos Papagaios, aproveitava a expedição á India para, de passagem, tomar posse official do Brazil. O Brasil era, portanto, um ponto de escala da viagem de Cabral á India, mas um ponto de escala forçado e já conhecido, pois sabia tambem a corôa portugueza, pelos mappas e portulanos de Bianco, que essa «Ilha authentica ou Antilia» ficava a 1500 milhas de distancia das ilhas Brava e do Fogo, do archipelago de Cabo Verde.
Era a frota de Cabral composta de 13 naus, uma das quaes com mantimentos, e nellas embarcaram 1.200 homens, entre os quaes o capitão-mór Pedro Alvares Cabral, que commandava a nau capitanea, os capitães das outras naus Sancho de Toar, Simão de Miranda de Azevedo, Ayres Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Bartholomeu Dias (o descobridor do Cabo da Boa Esperança), Diogo Dias, Gaspar de Lemos, Luiz Pires, Simão de Pina, Pedro de Atayde Inferno, Vasco de Atayde e Nuno Leitão da Cunha.
Iam tambem na frota: Duarte Pacheco, autor do Esmeraldo de situ orbis, Mestre João, physico mór do rei, que ia como cosmographo, o escrivão Pero Vaz Caminha, diversos frades, entre os quaes frei Henrique de Coimbra, os pilotos Affonso Lopes, Pedro Escolar e outros que Vasco da Gama trouxera da India, diversos indios, um grumete negro da Guiné, alguns interpretes e varios degredados.
Iam os navios de Cabral apparelhados e munidos do necessario para anno e meio de viagem, bem providos de artilheria, de munições de bocca, de armas brancas, como espadas e lanças, e, em cada nau, havia uma botica. Para o commercio, levavam as caravelas, velludos, setins, damascos, pannos de lã, coral, cobre, vermelhão, mercurio e ambar. Além disso, levavam os padres comsigo um orgão e alfaias de prata.
Era, evidentemente, a maior, a melhor apparelhada e a mais garrida frota que partia da Europa.
Em 15 de fevereiro de 1500 recebeu Cabral a carta de capitão mór e dos poderes de que ia revestido. Com essa carta foi-lhe dado o regimento pelo qual se devia guiar na viagem e, nesse regimento, que, na parte relativa ao rumo, fôra organizado por Vasco da Gama, estava traçada a rota que devia seguir.