Seria grande hypocrisia em nós, se não declarassemos que temos relações d'amizade e fraternidade politica com o Snr. José Passos, e que pertencemos áquella secção do partido progressista, que reconhece por seu chefe o Snr. Passos Manoel, nosso Grão Mestre-politico. Nosso intento é todavia narrar com sevéra imparcialidade, e verdade, os acontecimentos que observamos,—e ao publico apresentarmos um juizo recto do proceder e serviços dos homens que em Outubro de{5} 1846 foram encarregados da nobre missão de fazer triumphar a causa da liberdade Portugueza, e promover a felicidade deste povo tão virtuoso.

Não somos litterato, nem escriptor publico. É a primeira vez que atiramos á imprensa com o que escrevemos. Se contra a nossa expectação houverem alguns, que julguem que os acontecimentos não são em nosso escripto relatados com escrupulo, exactidão, e verdade; e se os retratos não forem parecidos, não virá d'ahi grande mal; porque terão esses só mais outro romance para encadernar com o discurso na camara dos pares, proferido pelo Snr. Duque da Terceira, e com a historia dos dois dias do Snr. D. João d'Azevedo.

A nossa amizade para com o Snr. Passos José, apesar de mui antiga, não é tão extremosa como a do Snr. D. João d'Azevedo. Este abalisado escriptor politico mostra tão grande interesse pelo Snr. José Passos, que para attenuar a responsabilidade legal e moral, que lhe cabe como primario motor da revolução de 9 d'Outubro de 1846, inventa, que o Snr. Passos José ficára surprezo, mas que em breve se revestira da sua conhecida energia, e que a uma voz que não sabemos dizer bem d'onde veio, o povo agglomerou-se nas ruas! quando é sabido por adversarios, indifferentes, e amigos da revolução, que o Snr. Passos José foi, depois de S. Exc.ª os Snrs. Visconde de Beire, Governador Civil do Porto, e Visconde d'Alcobaça, Commandante provisorio da terceira divisão militar, o primeiro que{6} soube dos acontecimentos que produziram a emboscada de 6 d'Outubro de 1846, e da commissão de que o Duque da Terceira vinha encarregado na sua chegada ás aguas do Douro; e que terminada no gabinete do Governo Civil do Porto a leitura d'um officio do Marechal Saldanha ao Exc.mo Visconde d'Alcobaça, remettido por Terceira de bordo do vapor, e a informação do que a respeito da emboscada sabiam as duas primeiras authoridades—o Snr. José Passos se declarou, in continenti e sem a minima hesitação, em revolução, e começou com incrivel rapidez a pôr em execução a sua lembrança, e a adoptar todas as providencias para o bom resultado da empreza. Tão apressado andou o Snr. José Passos para evitar que o Duque e seus camaradas chegassem aos corpos primeiro que elle, que nem tempo teve para ficar surprezo; e muito menos para ouvir essa voz de que só por via do folheto do Snr. D. João tivemos noticia.

Finge S. Exc.ª, que antes do pronunciamento do Snr. Passos José, e da reunião dos tres corpos no quartel de Santo Ovidio haviam grupos pela cidade a gritar uns pelo Snr. Passos, e outros pelos Snrs. Pintos Bastos!! Andamos pelas principaes ruas da cidade, fomos para serviço do paiz desde a Praça Nova até ao quartel do 6.º fallar com um benemerito capitão, e não encontramos nenhum desses grupos, que não appareceram, nem podiam apparecer senão ás Trindades.

A tropa não obedecendo ao Duque da Terceira, recolhendo-se aos quarteis de Santo Ovidio, e deixando{7} o campo livre ao Snr. Passos e ao povo para fazer o que conviesse para segurança da liberdade, provou que a tropa Portugueza é tão civilisada como a Franceza; e que os cabralistas nunca terão força para a deshonrar, fazendo-a assassinar a seus páes, irmãos, e amigos.

O povo não esperava os acontecimentos de Lisboa, não conhecia todos os tramas dos inimigos da revolução de Maio, as confidenciaes, os despachos telegraphicos &c. Teve ao mesmo tempo a noticia dos acontecimentos da capital, e a da resolução de resistir, adoptada pelo Snr. José Passos, que mandou tocar os sinos a rebate, avisar muitos patriotas, chamar para Santo Ovidio os Administradores dos Bairros (appareceram só dous), e alguns outros empregados, e pôr em prática outras providencias, que apesar de sabidas de muitos, talvez se publiquem só quando sahir á luz a historia circumstanciada daquelle extremado feito de patriotismo Portuense.

Á hora em que desembarcou o Duque da Terceira no Porto, achavam-se os heroicos cidadãos Portuenses occupados nos seus mesteres; porque é sabido que nesta cidade ha poucos ociosos, e que não ha povo nenhum tão virtuoso e laborioso como o Portuense.

O que é para admirar é como em tão curto prazo de tempo se reuniu tão grande numero de cidadãos respeitaveis, como á noite appareceram em Villar.

Fazemos inteira justiça ao Snr. Passos José, que se tivesse sido infeliz na sua tentativa, e levado diante{8} d'um conselho de guerra, diria com a franqueza, lealdade, e lizura, que tanto o distinguem, o que elle fez naquelle dia e noite para sempre memoraveis, e não imitaria os criminosos vulgares, negando—que a iniciativa da revolução de 9 d'Outubro de 1846 lhe pertencia.—Conhecemos perfeitamente o Snr. Passos José—não costuma declinar a responsabilidade dos seus actos, nem faz em segredo o que não possa dizer em publico.

A moda agora em toda a Europa é serem anonymas as revoluções. Essa moda é já antiga entre nós; porque a revolução de Setembro de 1836, e a de Maio de 1846 passam por anonymas. As iniciativas dellas partiram de todo o povo. Mas se o mui nacional movimento de 9 d'Outubro de 1846 carece para ter lugar entre as mais nobres e distinctas revoluções que se sacrifique a verdade historica ás conveniencias politicas, escreva-se então o romance de maneira que não possa ser desmentido por uma grande cidade que presenciou os acontecimentos.