O governo provisorio, em consequencia da revolução de 9 d'Outubro de 1846, formado nesta heroica cidade, foi acclamado, reconhecido, e obedecido pela quasi totalidade da Nação. Quereis maior prova da sua popularidade? Houve por ventura já revolução mais santa e justa?....

O Snr. D. João d'Azevedo não se lembra que da boca de nenhum popular sahisse em Maio de 1846 a voz de==viva o decreto de 10 de Fevereiro de 1842!{9} nem==morram as eleições indirectas!==Comtudo essa resistencia forte, compacta, e unisona, foi principalmente devida á inexecução daquelle decreto: porque não houve ainda neste paiz providencia legislativa, ou constitucional mais popular, e por que a Nação mostrasse tantos desejos de que se cumprisse.

Cabe muito louvor á benemerita Junta de Santarem e ao seu dignissimo Presidente o Snr. Manoel da Silva Passos, por haver exigido a observancia daquelle decreto, que se tivesse sido fielmente cumprido, haver-se-hiam evitado os differentes abalos por que desde a sua publicação o paiz passou.

A Junta de Santarem bem-mereceu da Nação por haver comprehendido cabalmente as necessidades e desejos do povo, e conseguido a promessa e segurança de que seriam satisfeitos.

Não deve causar estranheza que houvesse quem não gostasse da reforma da Carta pelo decreto de 10 de Fevereiro de 1812, e das eleições directas, e se contentasse com a reconsideração ou suspensão das leis da contribuição de repartição, e de saude, e com uma simples mudança de pessoas. Esta politica é mui propria para especuladores d'empregos, para quem os homens são tudo, e os principios nada.

Espanta a facilidade com que o distincto escriptor ousa asseverar, que o Snr. Conde das Antas fôra repetidas vezes avisado, de que se ouvia fogo na frente no dia da acção de Torres Vedras, e não julgára acertado hir ao encontro do Duque de Saldanha, e que a{10} Junta tinha sido avisada um sem numero de vezes, por muitas pessoas, e por todos os modos, que a esquadra hia ser aprisionada!! Quando a verdade é, que se o Snr. Conde das Antas ouvisse o fogo, teria voado ao campo do combate, porque em valor militar não houve no exercito de D. Pedro, general, official, soldado, ou voluntario que excedesse o intrepido e habilissimo Xavier:—e que a expedição sahiu porque não haviam desconfianças razoaveis de que seria tomada. Os documentos publicados nos jornaes e livro azul, mostram que a Junta não podia ter conhecimento prévio desse acontecimento, que deshonrará para sempre o governo britannico. Depois que elle se verificou, consta-nos que appareceram alguns impostores mui conhecidos—que para se darem importancia, começaram a dizer, que pelas suas relações diplomaticas imaginarias, tinham antes sabido o que succedeu.

Não nos causou surpreza o não ter o Snr. D. João d'Azevedo alguma expressão para stigmatisar a calumnia inventada por C. C. de que o Snr. Manoel Passos partira para Roma, a fim de acompanhar D. Miguel; porque estavamos preparados para tudo depois que fallando do Snr. Passos Manoel elle escreveu a pag. 52... a final sempre cahiu em dizer que a verdadeira causa era porque em Santarem o Conde das Antas o não considerára como elle merecia!....

Afigura-se-nos que a supposta falta d'um commissionado em Inglaterra, que dissesse ao João Bull, ou a Lord Palmerston, que a Junta do Porto não queria{11} fazer banca-rota, não pôde ser relevada no tribunal do Snr. D. João! Custa a acreditar que se fizesse semelhante censura. Pois quem ha ahi que ignore, que a Junta nomeou seu encarregado de Negocios na Côrte de Londres o Exc.mo Snr. Antonio Cabral de Sá Nogueira, e que este distincto diplomatico prestou os mais valiosos serviços á causa nacional—que teve uma conferencia com Lord Palmerston—que empregou os meios convenientes para esclarecer o publico britannico ácerca da questão Portugueza—e que fez muito mais do que lembra o Snr. D. João?

Como se havia de responder ao documento n.º 231 de Seymour para Palmerston, se delle não podia haver conhecimento senão depois de publicado o livro azul inglez? E qual deveria ser a resposta, ácerca da banca-rota, que deveria dar um governo amigo da verdade e prosperidade do paiz?

O manifesto da Junta, e todos os documentos importantes foram pela repartição dos negocios estrangeiros dirigidos aos Consules das diversas Nações, residentes no Porto, e appareceram impressos em alguns dos principaes jornaes da Europa. Não houve abandono, nem descuido em informar as Nações interventoras da questão Portugueza de 1846 e 1847.—As discussões dos parlamentos de Inglaterra e França são prova incontestavel do que acabamos de escrever. Não seremos mais explicitos neste ponto, nem revelaremos alguns meios, que para se conseguir esse louvavel fim, foram com muita habilidade empregados pelo distincto{12} patriota que dirigia a repartição dos negocios estrangeiros; porque não queremos nestes apontamentos dizer nada que não possamos provar com milhares de testemunhas, e muitos documentos. A discussão ha-de produzir o ser o publico informado de tudo.