Durante o governo da Junta, muitos dos que hoje censuram o não se ter prestado mais attenção á diplomacia, diziam por essas ruas, praças, e pasmatorios—que a verdadeira diplomacia consiste na artilheria, cavallaria, e infanteria; e o dinheiro que hão-de gastar com ministros plenipotenciarios e encarregados de negocios, empreguem-o na compra de cavallos, armas, e petrechos de guerra.

Hiamos-nos desviando do nosso objecto, que não é analysar a obra do Snr. D. João, mas escrever apontamentos para a biographia do nosso antigo e illustre amigo o Snr. José Passos, que segundo a opinião quiçá singular do author da historia da prerogativa, tem o sestro de desdenhar de todos e de tudo, e apraz-se muitas vezes em vêr correr o sangue ás pinguinhas!!! Que tal está a poesia do nosso Timão?

Nos apontamentos biographicos de cada um dos membros da Junta não é possivel deixar de apparecer rectificadas algumas das inexactidões do folheto do Snr. D. João, mas fa-lo-hemos sempre com a deferencia que se deve a tão habil escriptor.

Não vamos fazer o panegyrico do Snr. José Passos, mas sim dizer aquella pequena parte dos serviços por elle prestados á causa do progresso, que as circumstancias{13} permittem publicar. Tempo virá em que se poderá relatar o muito que reservamos para outra publicação.

[CAPITULO II.]

O Snr. José da Silva Passos é natural de S. Martinho de Guifões, concelho de Bouças, districto do Porto, filho de Manoel da Silva Passos, e de Antonia Maria da Silva Passos, honrados lavradores (que nós muito bem conhecemos), casado com a Exc.ma Snr.ª D. Anna Margarida Soares da Silva Passos, Proprietario, Bacharel formado em Leis, Bacharel em Canones, algumas vezes eleitor de provincia, Deputado ás Côrtes, sub-Secretario d'Estado dos Negocios da Fazenda, sub-Inspector do Thesouro Publico na época em que seu irmão mais novo o Exc.mo Snr. Manoel da Silva Passos foi Ministro e Secretario d'Estado dos Negocios da Fazenda &c., Socio honorario da Academia de Bellas-Artes de Lisboa—vogal, e vice-Presidente da Junta Provisoria do Governo Supremo do Reino, eleita no Porto em 10 d'Outubro de 1846,—é encarregado das repartições dos Negocios Estrangeiros, e da Fazenda, por decreto de 15 d'Outubro de 1846, até 30 de Junho de 1847.

O Snr. José Passos, com seu irmão o Snr. Passos Manoel, foram os proprietarios e redactores do jornal liberal==O Amigo do Povo==que em Coimbra se publicava em 1823. Perseguido durante o regimen{14} absoluto daquelle tempo, tornou a sê-lo em 1828 pelos partidistas do Snr. D. Miguel. Retirado o exercito constitucional para Hespanha, emigrou o Snr. Passos José com elle, e d'alli passou para Inglaterra e França.

Os Snrs. Passos Manoel, Barão da Ribeira de Sabrosa, Leonel, Saldanha, Passos José, Liberato, e outros, fundaram na emigração a opposição constitucional (a esquerda). Os dois Passos trabalharam todo o tempo da emigração para destruir o governo tyrannico existente em Portugal. Ambos escreveram diversos folhetos politicos, e alguns artigos nos jornaes estrangeiros.

No memoravel cêrco do Porto serviu o Snr. José Passos de Tenente, e Capitão do Batalhão Nacional Provisorio de Santo Ovidio.

Foi eleito Presidente da primeira Camara Municipal da cidade do Porto, que se nomeou depois do seu glorioso cêrco. Nesta qualidade resistiu nobre e corajosamente em 1834 á lei das indemnisações de 31 d'Agosto de 1833. As sympathias do partido realista para com os Snrs. Passos são principalmente devidas a este acto de justiça e politica da camara do Porto; e aos eloquentissimos discursos do Snr. Passos Manoel na questão das indemnisações nas côrtes de 1835—e á segurança e liberdade de que os realistas começaram a gozar depois de 10 de Setembro de 1836.