A cidade não podia estar mais tranquilla; ninguem se podia lembrar que dentro de poucos minutos hia começar a maior revolução que neste paiz tem havido.
No momento em que o Snr. José Passos entrava no gabinete de S. Exc.ª o Snr. Governador Civil, estava o Exc.mo Visconde d'Alcobaça lendo um officio do Marechal Saldanha, que parece de bordo do vapor lhe tinha dirigido o Duque da Terceira.
Informado o Snr. José Passos por S. Exc.as os Snrs. Visconde de Beire, e Visconde d'Alcobaça, da chegada ás aguas do Douro, do Duque da Terceira, na qualidade de Lugar Tenente de S. M. a Rainha, e do que elles sabiam a respeito dos acontecimentos da capital; e conjecturando que estes dois respeitaveis cavalheiros, apesar das suas excellentes ideias, sincero amor da liberdade, e abalisado patriotismo não estariam, por deferencia para com S. M. a Rainha, dispostos a resistir convenientemente, considerou-se immediatamente, sem a menor hesitação, e sem ouvir o voto de ninguem, em revolução, e assim começou com{20} a maior presteza a dar todas as providencias para resgatar a sua patria, que tinha cahido novamente sob o dominio da facção cabralina.
Dirigindo-se logo ao quartel general da terceira divisão militar, e não encontrando alli os officiaes que procurava, achou á porta do mesmo o benemerito Governador Civil, com quem trocou algumas palavras.
Á esquina do theatro de S. João, na praça da Batalha, encontrou o bravo, nobre, e patriotico Montenegro, Commandante em segundo da Guarda Municipal Portuense; depois de fallarem, dirigiram-se ambos para o quartel do Carmo, a fim de se pronunciar o distincto corpo da Guarda Municipal, antes que o Duque alli fosse, ou mandasse algum seu emissario.
Os Snrs. Passos José, e Montenegro, no seu caminho para o quartel do Carmo, entraram n'uma casa na rua nova de Santo Antonio, mas não se demoraram. Á sahida dessa casa disse o Snr. Passos algumas palavras ao Snr. Fevereiro Junior.
Durante o transito pelas ruas de Santo Antonio, Praça Nova, Clerigos, Correio, Praça dos Voluntarios até o quartel do Carmo—foi o Snr. José Passos declarando a quem encontrava, que se resistia á contra-revolução de Lisboa, que se havia de impedir que o Duque exercesse as funcções de Lugar Tenente, e pedindo a todos que se fossem armar, e communicassem aos outros patriotas esta briosa resolução.
Pronunciada a Guarda Municipal, pelo que são dignos d'encomios os commandantes, officiaes, e soldados,{21} mandou o Snr. José Passos tocar os sinos a rebate, avisar os Commandantes dos Batalhões da Guarda Nacional para que fizessem reunir os seus corpos, e bem assim os Administradores dos Bairros, e outros empregados, para o encontrarem no quartel de Santo Ovidio.
Na sahida do quartel da Municipal fallou o Snr. Passos, junto á porta da igreja do Carmo, com o benemerito Tenente Coronel Gromicho Couceiro. Achavam-se alli os Snrs. Abreu Couceiro, Fevereiro, Nicolau, e mais quatro patriotas.
Dirigiu-se ao Bomjardim, e tendo ahi montado a cavallo, veio reunir-se, na rua dos Ferradores, á Guarda Municipal, que na conformidade da resolução previamente adoptada, marchava para o quartel de Santo Ovidio, aonde se achava o Regimento d'Artilheria n.º 3, do commando do distincto militar o Snr. Antonio Rogerio Gromicho Couceiro.