XXXVI.

Mas um que a esta gente sustentava,
E d'entre todos elles mais bebia,
Ou porque o amor do vinho o obrigava;
Ou porque o seu beber o merecia,
Tremelicando alli se levantava,
Olhando a quem primeiro brindaria;
Um borrachão famoso pendurado,
Trazia ao tiracolo ao esquerdo lado.

XXXVII.

Do pichel a viseira rutilante
Levantada, de vinho branco e puro,
Por dar-lhe de beber a pôz diante
De Francisco com taes armas seguro,
E dando uma pancada penetrante
C'o grande borrachão no sólo duro,
O chão tremeu, e um d'elles de torvado,
Uma gran vez tomou sobre um bocado.

XXXVIII.

E diz: Ó bebado alto, a cujo imperio
Os vinhos obedecem que encerraste,
Se aquelles que em ti buscam refrigerio,
Cujo beber soberbo tanto amaste,
Não queres que padeçam vituperio,
Pois que esta adega hoje lhe mostraste,
Não ouças mais, pois bebado és direito,
A quem em bebedices é suspeito.

XXXIX.

Porque se o copo aqui se não mostrasse
Vencido d'esta gente e infamado,
Bem fôra que aqui Baccho o sustentasse,
Que o territorio seu deixa esgotado,
Mas esta tenção sua agora passe,
Porque em fim vem de estomago danado;
E nunca beba mais vinho de Beja
Quem do beber alheo tem inveja.

XL.

E tu pois que padre és da borracheza,
Não consintas que bebam por canada;
E porque mostres mais tua grandeza,
Com pipas, quartos seja agasalhada:
Tragam-lhe alguns leitões lá da deveza
De conserva azeitona e retalhada,
Sardinha de Liceira que é conforme
Que a sêde se repare e se reforme.