XXXI.
A bebados ouvira que viria
Uma gente de copo tão estranha,
Pela charneca, a qual esgotaria
Tudo quanto Louredo e Lagem banha;
E com beberes novos venceria
A todos os famosos d'Allemanha.
Altamente lhe dóe perder a gloria
Na taça em que de todos tem victoria.
XXXII.
Vê que de Evora teve sogigado
Os bebados e o vinho, e nunca caso
Lhe tirou por insigne ser louvado
Té dos imigos d'agoa do Parnaso.
Teme agora que seja sepultado
Seu tão celebre nome em negro vaso
D'agoa do esquecimento, se lhe chegam
Os bebados insignes que navegam.
XXXIII.
Sustentava contra elle o Catigela,
Affeiçoado á gente bebedana,
Por quantas bebedices vira n'ella,
Jantando em Alcochete uma semana.
Affeiçoado vem da gente bella,
Que por brazões os copos tem ufana,
De quem a lingua é tal, se o copo empina,
Que ora parece grega, ora latina.
XXXIV.
Estas cousas se movem em uma cêa
Onde apenas um ao outro s'entende,
Um d'elles tem a vinda em boa estrêa,
Outro ás picheladas a defende;
Assi que um pela infamia que recêa,
E outro pelo gasto que pretende,
Porfiam, arrebessam, permanecem,
A quasquer seus amigos favorecem.
XXXV.
Qual o fervente mosto em talha escura,
Quando a tinta lhe lançam espremida,
Por aqui, por alli sair procura
Com impeto e braveza desmedida;
A adega brame toda co'a fervura,
Bota o bagulho fóra a escuma erguida,
Tal andava o tumulto levantado
Entre um bebado e outro apaixonado.