XXVI.

Deixo, bebados, toda a fama antiga
Que lá dentro em Lisboa uns alcançaram,
Quando com dez Tudescos n'uma briga
No nosso officio tanto se afanaram.
Tambem deixo a memoria que os obriga
A grande nome quando se tomaram
C'um soldado Hollandez, c'um Biscainho,
Quando a carga do frasco era só vinho.

XXVII.

Agora vêdes bem que vem bebendo,
E cada qual já traz seu couro leve,
Pelas charnecas sêccas, não temendo
Sequidão dos Pegões, a mais se atreve;
Que havendo tantos já que as partes vendo
Onde o copo comprido tem por breve,
Inclinam seu proposito e porfia
A ver os vinhos que Evora teria.

XXVIII.

Promettido lhe tem Baccho o governo
Da rua das adegas celebrada,
Onde vinhos lhe tem que os de Falerno,
Os do Rhim, ou de Alcache tem em nada.
Bem sabeis que se vem chegando o inverno,
Esta gente vem sêcca e esgotada,
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada Peramanca que deseja.

XXIX.

E porque, como ouvistes, tem passados
Na viagem tão asperos perigos,
Tantos vinhos vinagres esgotados,
Nas Vendas novas, nos Pegões antigos;
Que sejam determino agasalhados
Entre as quintas aqui de seus amigos,
E enchendo cada qual a sua bota
Comecem a seguir sua derrota.

XXX.

Taes palavras Francisco assi dizia,
Quando todos sem ordem respondendo,
Na sentença um do outro differia,
Razões diversas dando e recebendo.
Mas Pero Vaz alli não consentia
No que Francisco disse, conhecendo
Que esqueceria um bebado eminente
Se cá viesse beber aquella gente.